O Think Tank americano RAND Corporation veio recentemente alertar para o perigo do 3D Printing, nomeadamente o da impressão de armas por grupos terroristas

Resumidamente a RAND Corporation (Research and Development) é um “Think Tank” sem fins lucrativos, originalmente criado como Douglas Aircraft Company. Esta organização actua com 1800 funcionários e com a participação de 46 países, trabalha em 71 línguas e com especialistas do mundo inteiro nas áreas de engenharia, economia, ciências sociais, etc. Com cerca de 60% de funcionários com doutoramento, a sua missão é financiar e fornecer insights ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos; E actualmente os seus trabalhos contribuem com grande influência para a tomada de decisões sobre as políticas a adoptar no sector público e privado.

Durante o presente mês de Junho, a RAND Corporation emitiu uma série de documentos muito curiosos…E até surpreendentes. Talvez o mais polémico seja este Four Ways 3D Printing May Threaten Security” mas o que é facto é que tem afectado os Media de todo o mundo (ver Newsweek ou a Science Daily, por exemplo).

Para surpresa dos analistas internacionais, os “insights” do mês de Junho estão centrados nas questões de segurança relacionadas com o 3D Printing, também conhecida como manufactura aditiva. Em Portugal, como sempre, a comercialização de impressoras 3D ainda é um mercado parado… A FNAC tem uma ou outra (mas ainda são caras) e começam a aparecer alguns concorrentes online

Após adquirir uma 3D Printer, a questão prende-se apenas com a selecção de filamentos… Podemos seleccionar filamentos ou resinas de madeira, de material que imita a pele humana, ou resinas extra-fortes que inclusivamente dão para imprimir carros e armas. A questão é, é possível com estas máquinas imprimir literalmente tudo. Basta descarregar o esquema de impressão da Internet, carregá-lo para o laptop e enviar para a impressora. A partir daí o céu é o limite…

Agora, preocupada com estes desenvolvimentos e especialização do 3D Printing, a RAND Corporation veio explicar que em breve não só vai ser possível fabricar em casa tudo o que se desejar, como os governos vão ser impotentes para interromper ou legislar sobre esta produção privada.

Desde armas de bricolage, a medicamentos de marca, peças de carros clássicos e fígados humanos, a impressão 3D promete um mundo dinâmico e incontrolável.

Espera-se quem em menos de 20 anos, 2 em cada 1 item criado por seres humanos, seja imprimido em 3D. Com a vulgarização do TOR para aceder à Deep Web, os planos de impressão podem ser descarregados (como já existem agora sites exclusivamente dedicados ao download grátis de bens proibidos).

De um ponto de vista sociológico e económico, os governos perderão também a capacidade de impor embargos comerciais e tecnológicos. Segundo a RAND Corporation, o poder está a mudar do Estado ou dos Governos, para os pequenos grupos de influência. E isto porque cada vez mais e anonimamente se pode descarregar os planos de manufactura aditiva de qualquer coisa. Esta mudança é também assustadora, porque todos os bens, ao poderem passar a ser impressos na cor desejada, no material ideal, mais resistente e sem falhas de fabrico, a 3D printing vai destruir sectores inteiros, criando muito desemprego e naturalmente aumentado a criminalidade.

Com todas as letras, a RAND Corporation afirma que o avanço tecnológico do 3D Printing vai provocar a disrupção ou ruptura da economia mundial, e muito brevemente.

“A simplicidade e o baixo custo das máquinas [de impressão 3D], combinadas com o escopo das suas criações em potencial, poderão alterar profundamente as economias globais e locais, e afectar a segurança internacional”, escrevem Trevor Johnston, Troy D. Smith e J. Luke Irwin no insight da RAND.

Aliás no relatório “Manufatura Aditiva em 2040” não existe apenas a visão negativa… Os autores vêem na manufactura aditiva não apenas a “ameaça disruptiva” inevitável, mas também a impressão 3D como “poderosa facilitadora”. Mais do que o potencial de “imprimir electronicamente, isoladores, condutores, substratos plásticos todos juntos, sem degradação”, referem também que “a área médica será transformada dramaticamente… Poderemos imprimir os fígados, ou podemos imprimir pedaços de artérias para cirurgia cardíaca”.

Mas a ruptura de mercados e oportunidades emergentes, não é a principal preocupação. Cinco anos após a criação da primeira arma de fogo impressa em 3D por Cody Wilson, os autores da RAND vêem a tecnologia a reequilibrar a relação de poder entre indivíduos e o Estado. “No nível doméstico, o consumo no ponto-de-venda não será mais uma oportunidade para o controle governamental de produtos de risco, como armas de fogo e drones”, escrevem os autores. “A soberania do Estado é baseada no monopólio da força e, no mínimo, na capacidade de regulamentar as armas. A manufatura aditiva irá relaxar ainda mais esse controle, dando aos cidadãos privados maior acesso a armas letais e outras ferramentas de violência.”

E este assunto não é assim “tão novidade” na medida que os fuzileiros navais dos Estados Unidos (os Marines) já utilizam 3D Printing para fabricação de “substitutos” em campo.

Não mencionado no relatório, mas mencionado em um artigo da RAND relacionado, é “o potencial para novos medicamentos de rua, impressos a partir de produtos químicos“.

Mas não fiquemos pela saúde: os “criadores” de carros clássicos vêem a impressão 3D como uma óptima alternativa substituição de peças raras e fora de stock. “Quando um produto falha e certas peças de reposição não estão disponíveis ou são escassas, a impressão 3D oferece um meio para um reparo rápido e eficiente”, citando o relatório de  2015 da Product Lifetime and the Environment Conference.

Mas os casos assustadores sucedem-se… Recentemente uma companhia aérea do Irão (a Iran Air), sujeita a sanções internacionais, por ser ter tornado já famosa pelos seus acidentes, graças principalmente à sua frota envelhecida, lutava para voar usando apenas “peças contrabandeadas ou improvisadas”, observa o relatório da RAND. Actualmente faz o 3D printing das suas peças…

A Iran Air não é a única. A Boeing quer fazer o mesmo.

Segundo a RAND daqui a 10 anos, a manufactura aditiva será responsável por entre 5 e 50% dos produtos vendidos, e até 90% duas décadas depois… Ou podemos simplesmente imprimir de casa, se tivermos acesso aos planos de impressão e paciência para ir montando ou fazendo o “assembling” das peças.