Quase tudo o que se sabe sobre “Philip Cross”, é que ele se chama “Philip Cross”… Bom, de facto sabe-se mais uma ou outra coisa, mas nada de importante… E para se perceber bem quem é “Philip Cross” tem que se perceber o que é a Wikipédia…

Podemos definir Wikipédia como uma enciclopédia multilíngua, baseada na web e escrita de forma colaborativa. A Wikipédia tem cerca de 50 milhões de artigos, e conta com o engajamento dos anónimos para completar sucessivamente os artigos, por forma a enriquecê-los de forma não antes vista… A Wikipédia foi criada a 15 de Janeiro de 2001, e “Philip Cross” apareceu precisamente às 18:48 GMT, de 26 de Outubro de 2004, na Wikipédia…

Mas porque é que “Philip Cross” é importante? No anterior parágrafo explicámos que a Wikipédia é escrita de forma colaborativa… E “Philip Cross” é um colaborador da Wikipédia… Um colaborador anónimo, que ninguém sabe quem é, excepto que se chama “Philip Cross”. Há um outro detalhe que  por acaso também se conhece sobre “Philip Cross”: desde o momento em que apareceu, às 18:48 GMT de 26 de Outubro de 2004, ele fez mais de 130.000 edições, em mais de 30.000 páginas da Wikipédia…

A Wikipédia é um enciclopédia colaborativa e é suposto colaborar. Philip Cross está a colaborar… Está a enriquecer a Wikipédia… Bom… mais ou menos!!!

A acção de Philip Cross é muito particular… Ele escreve muito bem… É muito inteligente… Tão inteligente que há quem diga que está a ser pago por homens ricos para fazer estas edições… Há quem diga que é um agente governamental, com uma agenda definida… E há quem diga que é alguém que quer mudar o mundo sozinho, e que é um louco obsessivo com um passatempo muito incómodo…

Philip Cross podia não ser ninguém, mas há fóruns a discutir o Philip Cross, há políticos ingleses a oferecer recompensas pela sua cabeça, os activistas anti-guerra estão de cabeça perdida com o “Philip Cross”, todos gostariam de o ver preso, e há quem queira matar o “Philip Cross” por causa das suas edições na Wikipédia…

Ora bem, a Wikipédia é uma fonte de saber colaborativa… Philip Cross está a colaborar… Mas está a colaborar, com a sua visão muito particular do mundo… Ardilosamente, altera as frases dos artigos para que o sentido seja corrompido, difundindo visões tendenciosas e parciais dos factos… “Philip Cross” altera o mundo, à maneira de Philip Cross… Quer passar aos outros a sua visão do mundo…

Philip Cross ataca em primeiro lugar os políticos e jornalistas anti-guerra. No seu top 10 de páginas mais editadas, está o músico de jazz Duke Ellington, o jornal The Sun, o editor do “Daily Mail” Paul Dacre, o jornalista John Pilger, o líder do Partido Trabalhista Jeremy Corbyn e o diretor de estratégia de Corbyn, Seamus Milne…

Quando ataca Philip Cross? Há um padrão… Ele tenta pelo menos durante umas horas, possa enganar alguns… Portanto os dias para as edições em massa na Wikipédia são Dia de Natal, dia de Eid (Eid al-Fitr, ou data que assinala o fim do Ramadão e os muçulmanos estão em comemoração e descanso), dia da Páscoa, último dia do campeonato europeu ou mundial, primeiras horas da manhã, a meio da noite… Philip Cross gosta de apanhar as pessoas distraídas…

Desesperados, os activistas anti-guerra tentam fazer as correcções necessárias para que o texto volte a ser o que era, onde por exemplo a associação pacifista a que pertencem seja sempre pacifista, “a não ser na questão da guerra do Iraque que tem apoiado claramente, defendendo uma intervenção até muito mais alargada”… É apenas um exemplo do género de posts que publica, sendo que é normalmente bastante mais subtil

Mas o assunto não acaba aqui. Philip Cross altera o texto com as suas edições impiedosas. Os visados re-editam o texto para repor a verdade. Philip Cross está à espreita e classifica as “recentes alterações”, muitas vezes dos próprios donos da página, como: atenção – edição ambígua ou atenção – fonte pobre, ou ainda atenção – repetição parcial…

Há alterações engraçadas, como a definição de partido trabalhista como “máquina de mentira de Tony Blair”, ou substituir os activistas anti-guerra pelo termo “goons”… Mas a maioria das 130.000 edições são mais subtis: substituição do nome próprio por “ele” ou “ela” dificultando a recuperação do texto original. Alterações gramaticais (virgulas, pontos, etc)…

Ninguém sabe quem é Philip Cross, e ninguém vai saber… Tem iludido técnicas de triangulação da sua posição, sabendo-se apenas que tem uma conta Twitter e que vive em Inglaterra…

A BBC enviou um pedido de entrevista via um intermediário, para o Twitter de Philip Cross. A resposta foi “NÃO”!