Inteligência artificial ataque cardíaco

Inteligência artificial ataques cardíacos

E se ao ir ao médico, fosse atendido por um computador? Num futuro próximo, isso será normal, com a rápida evolução da investigação em sistemas de apoio ao diagnóstico médico que utilizam inteligência artificial restrita para identificar rapidamente sintomas dos pacientes.

Um estudo sobre uso de redes neuronais para detectar e interpretar enfartes de miocárdio, referenciado na Technology Review, é um dos mais recentes passos na investigação sobre uso de inteligência artificial na medicina. A investigação, Detecting And Interpreting Myocardial Infarctions Using Fully Convolutional Neural Networks, foi realizada pelos investigadores alemães Nils Strodthoff no Instituto Fraunhofer Heinrich Hertz Institute em Berlim, e Claas Strodthoff do centro médico da universidade de Schleswig-Holstein em Kiel. Na sua abordagem, desenvolveram uma rede neuronal capaz de detetar sintomas de enfarte do miocárdio, com níveis de precisão similares aos de cardiologistas experientes. O seu sistema utiliza reconhecimento de padrões para interpretar dados de electrocardiogramas e detectar anomalias consistentes com a patologia.

O potencial do uso de inteligência artificial na triagem e diagnóstico médico é muito grande, e está a ser explorado por investigadores que aplicam técnicas de “machine learning”, reconhecimento de padrões e redes neuronais treinadas através do acesso a bases de dado médicas.. O objectivo não é o de substituir os médicos, mas complementar e auxiliar os seus diagnósticos, agilizando-os. Implementações de inteligência artificial treinadas para analisar dados dos pacientes têm mostrado ser consistentes na fiabilidade dos seus resultados. Cruzam dados de análises médicas e imagiologia com vastas bases de dados, encontrando correlações e apresentando diagnósticos viáveis.

Os rápidos avanços nas ciências médicas geram enormes quantidades de informação sobre novos procedimentos, técnicas e medicamentos. Nenhum médico consegue estar totalmente actualizado com o conhecimento mais recente. Os algoritmos de inteligência artificial são capazes de relacionar os dados dos pacientes com bases de dados de conhecimento médico, auxiliando os profissionais de saúde nos momentos cruciais de diagnóstico. Aplicadas à imagiologia, as implementações de inteligência artificial têm mostrado ter taxas de erro na análise de ressonâncias magnéticas, TAC e raio X inferiores à de técnicos especializados experientes.

Esta evolução aponta na direcção do uso de inteligência artificial como ferramenta de auxílio à decisão médica, permitindo aos profissionais acesso a conhecimento alargado que lhes permite tratar os seus pacientes de forma mais eficaz. Num contexto contemporâneo em que se fazem sentir medos que a Inteligência Artificial, combinada com robótica em processos de automação, se torne ameaça para a maioria das profissões, este tipo de abordagem mostra que, num futuro próximo que se prevê dominado por aplicações de inteligência artificial restrita, o papel humano não ficará obsoleto. Os especialistas em Inteligência Artificial apontam para os ganhos de produtividade e eficácia de sistemas que  combinam aplicações de Inteligência Artificial e humanos, superiores aos sistemas puramente digitais.

Utilizar sistemas de Inteligência Artificial combinados com acção humana é um campo promissor da investigação em aplicações de Inteligência Artificial restrita. Os sistemas de diagnóstico médico têm sido um dos campos primordiais de investigação, havendo também investigação no domínio de sistemas de decisão económica, reconhecimento facial ou apoio à decisão em ambientes voláteis que requerem actuação a velocidades superiores às da reacção humana. Os investigadores ligados ao sector militar denominam-nos como sistemas centauro, combinando acção humana e automatização. Sistemas que são aumentativos das capacidades humanas, mantendo travões e salvaguardas humanas às decisões automatizadas.

Ironicamente, uma das personalidades humanas conhecida por ter sido suplantada por Inteligência Artificial tornou-se um dos principais proponentes destes sistemas. Em 1997, Garry Kasparov, à altura o melhor grande mestre de xadrez do mundo, foi derrotado pelo supercomputador DeepBlue num jogo de xadrez. Esta projecto de inteligência artificial da IBM utilizava análises de força bruta a bases de dados de estratégias de xadrez para decidir as suas jogadas. Num primeiro encontro, em 1996, Kasparov venceu 4 das seis partidas. Sistemas como o DeepBlue, que se baseiam em algoritmos rápidos de processamento de dados, são hoje considerados muito primitivos. Os investigadores têm desenvolvido técnicas avançadas de Inteligência Artificial utilizando redes neuronais, reconhecimento de padrões avançado e deep thinking, entre outras, que vão mais longe do que a análise bruta de grandes quantidades de dados. Kasparov propôs recentemente o que apelida xadrez avançado, combinando equipas de humano-computador para desenvolver o jogo clássico em novas vertentes.

As visões da Inteligência artificial na cultura popular e media invocam a imagem de seres digitais conscientes, que mimetizam e ultrapassam a inteligência humana. Esse tipo de Inteligência Artificial, denominada IA generalista, tem-se mostrado difícil de atingir. As aplicações desta tecnologia tem-se mostrado promissoras e revolucionárias na como Inteligência Artificial restrita, em sistemas dedicados e treinados para executar uma só tarefa que exige processamento e análise de grandes quantidades de dados. São algoritmos complexos de aprendizagem de máquina, recorrendo à lógica bayesiana, redes neuronais, ou deep learning, entre outras técnicas.

Num futuro muito próximo, iremos encontrar no hospital ou centro de saúde sistemas similares aos que hoje analisam pedidos de crédito, fazem recomendações personalizadas em sites de comércio electrónico, sugerem conteúdos multimédia em sites de streaming música e vídeo, ou organizam as informações que consultamos nas redes sociais, entre outras aplicações de Inteligência Artificial com que já interagimos no nosso dia a dia, na sociedade em rede.

Baseados em implementações de Inteligência Artificial, estes sistemas conhecerão as nossas histórias clínicas individuais, estabelecendo perfis individuais de utilizador, comparando-os com bases de dados de conhecimento médico para auxiliar os profissionais a tomar decisões mais rápidas e eficazes. Os primeiros passos já estão dados, nos laboratórios e centros de investigação dedicados à inteligência artificial.

Por Artur Coelho,

(Professor de TIC, Mestre em Informática Educacional, Pós-graduação em Programação e Robótica, e formador/colaborador do Lab Aberto)

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