Recentemente, a competição Robotart anunciou os três primeiros prémios do seu terceiro concurso anual. A concurso estiveram obras criadas por robots pintores de dezanove equipas de todo o mundo. Concorreram robots construídos por equipas de universidades, escolas secundárias e investigadores independentes. O concurso tem regras muito específicas: os trabalhos artísticos têm de ser produzidos por robots utilizando meios mecânicos de pintura. Os algoritmos podem tentar criar obras originais ou recriar imagens conhecidas. Não são aceites imagens puramente digitais ou impressas. As regras da Robotart definem claramente que tem de existir um “actuador” (em robótica, mecanismo que actua sobre a realidade) capaz de pintar num suporte.

Cloudpainter foi o primeiro classificado neste concurso de robótica. Criado por Pindar VanArman, um investigador independente, o robot combina mecanismos impressos em 3D com algoritmos de inteligência artificial e técnicas de deep learning para produzir imagens totalmente originais. Um retrato totalmente imaginário, a imagem mais impactante das , destaca-se pela sua estética no limiar da abstração.

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Esquerda: Foto original de Zachi Evenor. Direita: processada por Günther Noack, Software Engineer

O segundo prémio foi para o Creative Machines Lab, da universidade de Columbia. Os seus robots criaram obras para apresentar a concurso que replicaram com precisão a estética impressionista. O terceiro prémio foi para o projeto CMIT REART, da universidade tailandesa de Kasetsart, com robots pintores que não criaram obras originais. A sua tecnologia baseia-se na captura de dados hápticos, recriando posteriormente movimentos de pintura e pressão nos meios pictóricos.

As imagens criadas por estes sistemas oscilam entre o abstrato e a recriação de grandes obras da história de arte. Alguns destes limitam-se a recriar estilos e iconografias já existentes, outros seguem técnicas generativas para criar imagens aleatórias. Os mais avançados recorrem a técnicas de inteligência artificial e deep learning para aprender estilos visuais e tomar decisões estéticas independentes.

Perante estes projetos, é impossível não perguntar se poderão os robots ser artistas? Uma resposta mais profunda a esta implica reflexão complexa sobre o que é, realmente, arte. Como espectadores, valorizamos tanto a capacidade técnica do artista como a sua capacidade de transmitir ideias e sensações, Nos seus níveis mais eruditos, muitas vezes fora do alcance dos públicos comuns, o conceito de arte foca-se precisamente nas ideias complexas e sensações que desperta.

A criatividade e expressividade são consideradas faculdades exclusivamente humanas. No entanto, os avanços da inteligência artificial mostram que estas talvez não nos sejam exclusivas. Por enquanto, os mais avançados algoritmos de criação artística parecem ser derivativos, reinterpretando enormes bibliotecas de dados visuais de formas muitas vezes inesperadas. Poderão ser considerados criativos, de formas comparáveis à nossa expressão de sentimentos? Poderão os algoritmos, essencialmente abstrações matemáticas, exprimir o tipo de sensações que associamos às emoções humanas, ou estas são falsas sensações, simulacros indistinguíveis do real?

Na verdade, esta não é uma questão nova, e antecede os tempos digitais. Nos séculos XVII e XVIII foram construídos diversos autómatos programados para escrever ou desenhar. O engenho dos construtores de mecanismos analógicos de automação, com peças delicadas de relojoaria, legou-nos robots mecânicos capazes de escrever e desenhar, alguns dos quais foram preservados e se encontram ainda funcionais nos dias de hoje. São máquinas complexas, que com sistemas de alavancas controladas por mecanismos seguem os movimentos programados em cilindros dentados.

Se estes artefactos ainda hoje nos fascinam, imaginem a surpresa dos seus contemporâneos ao ver um objeto inanimado a criar textos e desenhos. Criar mecanismos com aparente simulacro de vida tem sido uma constante na história do engenho humano, uma pulsão regista na mitologia grega, entre Talos, o gigante de metal que protegia Creta, e o mito de Pigmalião, escultor que criou uma estátua tão perfeita que os deuses a insuflaram com o sopro da vida. A história dos autómatos é longa, com referências históricas e vestígios de mecanismos que nos vêm da Grécia antiga. e referências literárias às maravilhas mecânicas das cortes orientais. Na Idade Média, algumas catedrais europeias tinham imagens sacras mecanizadas, cujos movimentos surpreendiam peregrinos que vinham de propósito para assistir ao que lhes parecia um milagre. O deslumbre acabou por se banalizar e estes autómatos medievais caíram em esquecimento. Sobrevivem muito poucos, preservados em museus.

A arte moderna usou mecanismos e robots como forma de expressão artística. Para os artistas modernistas, construir mecanismos robóticos foi uma forma de sublimar a obsessão com a estética mecânica da indústria, um tema comum à arte moderna da primeira metade do século XX. Não sendo máquinas utilitárias, estes mecanismos feéricos refletem o fascínio com o artificial na nossa relação com a tecnologia.

No entanto, estes autómatos e robots apenas seguem a sua programação. A capacidade artística está no trabalho do artista que os concebeu. Recentemente, as questões que artistas e investigadores em robótica e inteligência artificial colocam é se se pode ir mais longe, se algoritmos  conseguem produzir arte de forma autónoma, e se esta pode ser considerada criativa e expressiva de sentimentos.

Utilizar algoritmos como ferramenta de criação tem um longo historial na história da computação. Desde os anos 70,  artistas que se designaram algorists seguem caminhos de que utilizam a computação como ferramenta plástica. Utilizando técnicas de programação generativa, desenvolvem algoritmos capazes de criar obras pictóricas de forma autónoma. São métodos que estão distantes do conceito de arte digital como de utilizar ferramentas de edição de imagem, pintura digital, edição multimédia e 3D para criar produtos audiovisuais.

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Neural net “dreams”— generated purely from random noise, using a network trained on places by MIT Computer Science and AI Laboratory, Inceptionism

Em 1968, as possibilidades estéticas do então inédito uso de computadores como ferramenta artística foram apresentadas na exposição Cybernetic Serendipity. Comissariada por Jasia Reichardt para o Institute of Contemporary Art em Londres, esta foi a primeira exposição de sempre a abordar o potencial da computação na arte. Algumas dessas obras dessa época estiveram recentemente expostas no lisboeta MAAT, na exposição Electronic Superhighway.

O panorama artístico português também conta com artistas que exploram estas linguagens digitais. Leonel Moura, pioneiro da arte digital, desenvolve robots pintores, equipados com marcadores e programados por algoritmos inspirados no comportamento de formigas, capazes de reagir de forma autónoma a partir de um conjunto de regras simples.

Indo mais longe, investigadores têm desenvolvido experiências estéticas surpreendentes com implementações de inteligência artificial. As mais avançadas fazem uso de redes neuronais convolucionais, ensinadas com bases de dados iconográficas, aplicando as suas aprendizagens na interpretação de imagens. As mais conhecidas são as intrigantes imagens dos algoritmos DeepDream da Google, que reconstroem fotos com base nas iconografias que conhecem, com resultados tão surpreendentes, a fazer pensar que estas inteligências artificiais trabalharam sob efeito de drogas psicadélicas Outras variantes desta tecnologia contrapõem dois algoritmos treinados nos estilos de artistas conhecidos, competindo entre si para gerar uma imagem original. Quem perscrutar o trabalho do investigador Robbie Barratt, descobre imagens que se assemelham aos descendentes mutantes com traços de esquizofrenia de um improvável acasalamento entre Francis Bacon e Caravaggio.

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As imagens surreais geradas por estes algoritmos são-nos profundamente alienígenas, e colocam em questão as premissas tradicionais sobre o conceito de arte. A um nível profundo, pressentimos que estes algoritmos não são conscientes, seguindo os ditames da sua programação. Para nós, criar arte é sentido como algo espontâneo, dependente da combinação da percepção do artista com a sua capacidade técnica. No entanto, a profundidade inesperada das criações artísticas das inteligências artificiais inquietam-nos.

O campo da criação artística parece ser mais um dos muitos campos onde a inteligência artificial nos parece estar a ultrapassar, pondo a nu a artificialidade de emoções que acreditávamos ser exclusivamente humanas. Serão os robots pintores de hoje os antepassados dos grandes mestres artificiais do futuro, algoritmos capazes de sonhar no espaço do código binário?

Por Artur Coelho,

Artur Coelho

(Professor de TIC, Mestre em Informática Educacional, Pós-graduação em Programação e Robótica, e formador/colaborador do Lab Aberto)

Nota: Aceite a sugestão do Bit2Geek e leia “IA que emite sinais de rádio para ver pessoas através das paredes”