O European Parliament Research Service divulgou o seu mais recente Global Trendometer. Neste estudo, peritos em diferentes áreas analisam as tendências globais na economia, tecnologia, política e sociedade que irão colocar desafios à União Europeia a curto prazo. O EPRS é uma instituição de apoio ao parlamento europeu, responsável pelo fornecimento de pesquisa e análise para os eurodeputados. Divulga regularmente na sua página recursos de apoio, publicações de Think Tanks, investigação e análise a temas em discussão parlamentar.

No Global Trendometer para 2018, analistas de várias áreas exploram tendências que vão das relações com a Índia à engenharia ambiental como possível resposta aos desafios do aquecimento global. Nestas, três destacam-se para aqueles que se preocupam com os potenciais positivos e negativos da Inteligência Artificial, robótica e automação na sociedade: digitalização da economia, relação entre Inteligência Artificial e democracia, e o poder disruptivo das Fake News.

economia digitalEconomia Digital e Distribuição de Riqueza

Em The Future of the Labour Share of Income, Eamonn Noonan analisa a crescente disparidade da distribuição do rendimento total entre capital e trabalho. Observa que no conjunto dos países da OCDE a fatia de rendimento distribuída ao trabalho tem caído consistentemente, estando abaixo dos 40% do PIB em média nas economias avançadas. Analisa o impacto desta queda no investimento público sustentado por impostos, sustentabilidade económica do consumo e agudizar de desigualdades numa União Europeia que tem como uma das suas missões incentivar sociedades mais justas.

Entre as diferentes causas assinaladas, que vão da globalização às alterações aos mercados laborais, uma destaca-se para os analistas dos impactos da automação, robótica e inteligência artificial na sociedade: A digitalização da economia. O especialista aponta para a redução nos empregos que requerem baixos níveis de competência, cada vez mais substituídos por sistemas de automação. Assinala uma tendência inversa nos de competência elevada, embora a automação e Inteligência Artificial estejam a penetrar em setores da economia que até há pouco tempo se julgavam imunes a estas forças. Criar impostos específicos sobre robótica e automação é uma das possíveis soluções para a redistribuição de riqueza e sustentabilidade dos serviços públicos numa economia automatizada.

A perda de empregos tem impactos no desemprego, sendo necessário pensar uma reestruturação dos sistemas de educação e formação. Numa economia progressivamente automatizada, o incentivo a adquirir novas competências é essencial. Num lado mais negativo, o populismo eleitoral e políticas ativas de limitação da inovação tecnológica podem ganhar terreno entre eleitores.

Inteligência ArtificialDemocracia na Era da Inteligência Artificial

O potencial disruptivo da Inteligência Artificial na democracia é analisado por Leopold Schmertzing. Aponta que esta tecnologia é um dos mais transversais desafios contemporâneos, nota que pode trazer benefícios à democracia, mas também perigos. Neste aspeto, sublinha o uso de ferramentas de Inteligência Artificial para desestabilizar eleições, ou o caso chinês de hipervigilância pervasiva dos seus cidadãos, possibilitado por algoritmos de reconhecimento facial e big data.

Definir o que realmente é esta tecnologia passa por duas vertentes. Alguns investigadores apontam para o surgir, num futuro próximo, de Inteligência Artificial autónoma e aparentemente consciente. A realidade no terreno é feita de múltiplas aplicações de algoritmos avançados de machine learning, big data e redes neurais. Estes são já hoje importantes ferramentas na economia. Algoritmos de redes sociais, sistemas de recomendação em lojas online, aplicações de reconhecimento facial e big data na segurança, são alguns exemplos de uso de uma tecnologia que coloca muitas vezes em questão o princípio social da privacidade.

O analista aponta as correntes interações entre Inteligência Artificial e os sistemas democráticos: uso de algoritmos de predição do sucesso de iniciativas legislativas, sistemas inteligentes de apoio a decisões executivas e ao sistema judicial, efeitos das ferramentas de análise de dados em redes sociais no manipular da opinião pública. Nos campos da segurança e defesa, aponta a utilização de aplicações de Inteligência Artificial em apoio ao trabalho policial (por exemplo, na análise de videovigilância) e sistemas de armas automatizados com capacidade de decisão autónoma, sem intervenção humana no processo decisório.

Utilizando quatro cenários probabilísticos, mostra como a Inteligência Artificial pode reforçar autoritarismos, servir a humanidade, guiar decisores políticos e económicos (replicando o argumento de Max Tegmark no recente livro Life 3.0), ou legislação e decisões políticas servirem de contra-peso efetivo aos impactos da automação. Independentemente das potenciais predições, estas tecnologias trazem desafios bem definidos: irá contribuir para mudanças profundas na economia e sociedade, tem impacto nas liberdades e direitos individuais, pode polarizar o debate político, e pode condicionar as populações a preferir decisões algorítmicas aos processos políticos tradicionais, erodindo as bases das democracias.

O analista finaliza com um apanhado da estratégia da União Europeia neste domínio, que não segue a estratégia laissez faire americana nem o forte investimento chinês. Esta será no final de 2018 consolidada numa política relativa a Inteligência Artificial e robótica, tem como princípios o equilíbrio entre inovação tecnológica e os impactos sociais, éticos, económicos e ambientais.

fake newsFake News e a Perda do Consenso no Real

O próprio conceito de realidade é o que está em perigo na visão das analistas Danièle Réchard e Victoria Jordan sobre as Fake News. Parece uma proposta alarmista, mas as investigadoras apenas exploram a conclusão lógica de uma das mais recentes tendências na Inteligência Artificial: utilizar algoritmos Deep Fake, que transferem imagens e áudio entre vídeos e tornam possível a deturpação de um vídeo real com declarações falsas, sem que isso seja detetável. Uma tecnologia que já se disseminou nas redes, muito utilizada para criação de falsos vídeos em que os algoritmos transferem a imagem do rosto de celebridades para vídeos pornográficos.

Se os Deep Fakes são as mais recentes tendências no uso de redes e algoritmos para manipulação de opinião, estão no fundo a ser uma continuidade das clássicas armas de propaganda. O verdadeiro efeito disruptivo está na rapidez com que a informação se dissemina pelas redes. Numa realidade mediada pela informação em ecrãs, cada vez mais dominada pelo digital, o potencial destrutivo destes novos meios de propaganda é enorme. Coloca em questão a credibilidade de toda a informação, entre o online e a jornalística tradicional. Numa sociedade democrática, onde exercer o direito de voto se baseia na decisão informada, o efeito potencial é o de estilhaçar o consenso sobre o que é real.

Os responsáveis e decisores europeus estão atentos aos impactos sociais, económicos e políticos da Inteligência Artificial, robótica e automação. Entendem estas tecnologias como colocando desafios profundos a muito curto prazo às instituições e missão da União Europeia. A divulgação pública de estudos como o Global Trendometer refletem políticas de transparência e acesso dos cidadãos à informação que auxilia a tomada de decisões a nível europeu.

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