blocos de construção Terra

Dizer-se que a Terra é um planeta único no Universo, é errado. Os ingredientes necessários para a construção da Terra são muito semelhantes aos encontrados em muitos outros sistemas planetários (com planetas a orbitar uma estrela). Para dar um exemplo, recentemente foram medidos os componentes ou blocos construtores de 18 sistemas planetários até 465 anos-luz da Terra e comprovou-se que a geo-química desses sistemas planetários era estranhamente comparável à Terra.

Este trabalho de medição foi apresentado na conferência Goldschmidt em Boston, e pode concluir-se que os blocos de construção da Terra são construídos a partir de ingredientes “bastante normais”…

Durante a apresentação deste estudo, as conclusões ficaram a cargo do pesquisador Siyi Xu, do Observatório Gemini no Havaí. Nessa explicação começou por referir que é difícil examinar corpos remotos directamente. E a dificuldade prende-se com as enormes distâncias envolvidas, uma vez que as estrelas mais próximas tendem a abafar qualquer sinal eletromagnético, como luz ou ondas de rádio.

Contudo a metodologia usada para este estudo foi diferente. Procurou-se analisar os sinais emitidos pelas estrelas “anãs brancas”. Estas estrelas queimaram a maior parte de seu hidrogénio e hélio, e encolheram tendo ficado muito mais pequenas e muito mais densas (algo aliás que se espera que aconteça progressivamente com o nosso Sol durante os próximos 5 bilhões de anos).

A vantagem em analisar as “anãs-brancas” prende-se com o facto de estas emitirem um sinal espectroscópico bem mais claro e límpido…

E como se pode analisar os elementos, a bilhões de Km?

1- As estrelas queimaram a maior parte de seu hidrogénio e hélio, encolheram e passaram a ser a chamadas “anãs brancas”. 2- Por terem arrefecido, encolheram, tornaram-se mais densas e consequentemente com maior força gravitacional. 3- Gerando maior força gravitacional, começam a puxar material dos planetas em volta, dos asteróides que passam, dos cometas que se atravessam na sua órbita, acabando por formar em seu redor um disco de poeiras (muito semelhantes aos anéis de Saturno). 4- as mudanças de sinal espectroscópico da estrela são mensuráveis, permitindo-nos identificar o tipo e quantidade de material que envolve a anã branca.

Tentando não complicar, o espectroscópio bem como o espectrógrafo, são aparelhos de registo fotográfico do espectro de luz emitido (associados aos telescópios), ou seja da intensidade de radiação. E cada elemento tem um comportamento diferente quando aquecido ou “excitado” (pela estrela anã branca), pelo que emite uma onda de radiação diferente e essencialmente muito própria. Essa é a razão pela qual os elementos podem ser identificados a distâncias “espaciais” ou gigantescas…

A equipa fez medições usando espectrógrafos no telescópio Keck, no Havaí, o maior telescópio óptico e infravermelho do mundo, e no Telescópio Espacial Hubble. Como explicou Siyi Xu o estudo foi dirigido às anãs brancas com discos de poeira, e nos discos conseguiu-se medir o teor de cálcio, magnésio e silício. Conseguiu-se também encontrar água num dos sistemas planetários, o que leva a crer que seja bastante provável que haja muita água em alguns desses mundos.

Então a Terra é um planeta muito normal? Não é um milagre?

No passado os cientistas identificaram um sistema estelar, a 170 anos-luz de distância, na constelação de Boötes, rico em carbono, nitrogênio e água, aliás com uma composição muito semelhante à do Cometa de Halley, que navega pelos céus. E são os mesmos elementos existentes na Terra…

Por aquilo que se observou neste estudo, os elementos químicos ou blocos de construção, da Terra são comuns noutros sistemas planetários. Avaliando pelos discos de poeira em órbita das “anãs brancas” a presença e proporção desses elementos transforma a geo-química da Terra em algo bastante vulgar. E a consequência disso é que “se é vulgar”, numa galáxia com 200 a 300 milhões de sistemas (“solares”) planetários, será também muito normal encontrar muitos milhões de mundos ou planetas como a Terra. E eventualmente a orbitar a “Goldilocks Zone” ou zona habitável em torno de uma estrela. A Goldilocks zone em definição, é a zona onde a água de um planeta ou mundo, não está demasiado próxima da estrela que orbita para poder evaporar – como em Mercúrio. Mas também que não está demasiado longe da estrela para para congelar – como em Plutão. Este princípio será a “garantia” que dentro da Goldilocks zone, a água existente estará no estado líquido, abrindo portanto a perspectiva da existência de vida…

Para além disso na apresentação do estudo, o cientista Siyi Xu referiu directamente, que com estes resultados, podemos esperar encontrar planetas semelhantes à Terra em outras partes da nossa galáxia (Via Láctea).

E esperando por mais notícias do Tess…

Também presente na apresentação estava a professora Sara Seager, da área de Ciência Planetária do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e também vice-diretora científica da recém-lançada missão TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite), dedicada á procura de exoplanetas. E na sua intervenção esclareceu que: “É espantoso para mim que a melhor maneira de estudar o interior de exoplanetas é através de planetas dilacerados e absorvidos pela sua estrela anã branca. É ótimo ver o progresso nesta área de pesquisa e ter sólidas provas de que planetas com composições semelhantes à Terra são comuns – alimentando nossa confiança de que um planeta parecido com a Terra ao redor de uma estrela normal e muito próxima, está à espera de ser encontrado”…

Image Credits: NASA

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