TRAPPIST-1 também denominado 2MASS J23062928-0502285 é um sistema planetário localizado na constelação de Aquarius. Os 7 planetas descobertos até ao momento orbitam uma estrela anã vermelha fria (ou anã super-fria). A 22 de fevereiro de 2017 os astrónomos da NASA anunciaram que TRAPPIST-1 tem o maior número de planetas em zona de proteção (ou zona habitável), já encontrado até ao momento.

Um estudo recente veio revelar mais detalhes… Muito favoráveis à existência de vida, num sistema muito anterior á existência do nosso sistema solar

Trappist1
Credit: NASA/JPL-Caltech

O sistema “solar” de TRAPPIST1

São sete planetas a orbitar a estrela anã “ultra-fria” TRAPPIST-1, e são na maior parte planetas rochosos, sendo que alguns deles potencialmente contêm mais água líquida do que a Terra.

Uma nova pesquisa sobre este Jackpot planetário (7 planetas na zona habitável de uma estrela), revelou que  alguns dos planetas podem ter até 5% de sua massa em forma de água líquida, ou seja cerca de 250 vezes a quantidade de água encontrada nos oceanos da Terra.

Simon Grimm, cientista de exoplanetas da Universidade de Berna na Suíça, confirmou á Space.com que os planetas de TRAPPIST-1 são muito parecidos com a Terra ou seja, têm um núcleo sólido cercado por uma atmosfera. E que são planetas com água líquida… E em grande quantidade…

De todos estes exoplanetas, TRAPPIST-1e é o exoplaneta que é mais semelhante ao planeta Terra em termos de massa, raio e energia recebida de sua estrela. Mas chegar até lá é um problema…

Este sistema “solar” está longe…

Em 2016, astrónomos do Transiting Planets e do Planetesimals Small Telescope (TRAPPIST) no Chile identificaram três planetas ao redor de uma estrela escura (TRAPPIST-1).

Menos de um ano depois, a NASA anunciou a descoberta de ainda mais mundos, num total de sete. Todos os exoplanetas orbitam na zona habitável de sua estrela (Goldilocks Zone), a região onde a água pode permanecer líquida na superfície.

O sistema TRAPPIST-1 possui o maior número de mundos rochosos já encontrados em uma zona habitável de uma única estrela e fica a 40 anos-luz da Terra. 40 anos-luz apesar de perto do nosso sistema solar em comparação com as dimensões da nossa galáxia (a Via Láctea), é longe da Terra em termos de tecnologia para lá chegar… De facto 40 anos-luz ou seja 40 anos à velocidade de 300.000 quilómetros por segundo é mesmo longe… Também podemos pensar em 1 079 252 848,8 Km por hora para perceber melhor, e mesmo assim, caso fosse possível viajar a esta velocidade (que não é, pelos menos com a actual tecnologia), demoraríamos 40 anos.

Este promissor sistema planetário encontra-se a uma distância de 229 triliões de milhas ou 369 triliões de quilómetros da Terra… Ou seja, “far away”!

Mas é um sistema planetário muito interessante…

E interessante o suficiente para continuarmos a sonhar com ele…

O nosso sistema solar foi formado há 4,5 mil milhões de anos… E TRAPPIST 1 é muito mais antigo que o nosso sistema solar, estimando-se que tenha sido formado entre 5.4 e 9.8 mil milhões de anos. Se lá existir vida, provavelmente será muito mais avançada do que nós, porque se desenvolveu bastante primeiro…

Mas com a nossa tecnologia actual… A Sonda New Horizons é a “nave espacial” possivelmente mais rápida que já voou no Espaço. Ela passou por Plutão em 2015 e actualmente está a voar para fora do sistema solar a cerca de 14,31 quilómetros por segundo, ou cerca de 32.000 milhas por hora, de acordo com a página de rastreamento da New Horizons da NASA…

A esse ritmo, a sonda de Plutão levaria cerca de 817.000 anos para percorrer os 39 anos-luz e chegar a TRAPPIST-1.

A sonda JUNO da NASA voou mais rápido do que a New Horizons durante a aproximação com a gigante de gás Júpiter, em 2016. Com a ajuda da gravidade de Júpiter, JUNO atingiu uma velocidade máxima de 165.000 milhas por hora (265.000 km/hora). E mesmo que Juno estivesse constantemente a viajar tão rápido – que só o faz por ter recebido um salto de gravidade – a nave espacial levaria 159.000 anos para alcançar a localização atual do TRAPPIST-1…

A Voyager 1, a sonda espacial mais distante da Terra actualmente, deixou o sistema solar e entrou no espaço interestelar em 2012. Segundo a NASA, actualmente estará a navegar a 38.200 milhas por hora. Para a Voyager 1 percorrer a distância de 40 anos-luz, a sonda levaria 685.000 anos. A Voyager 1 contudo não se está a dirigir para lá, mas sim em direcção a uma estrela diferente: a AC +79 3888, num percurso que demorará 40.000 anos… Foi concebida para procurar vida extraterrestre, e portanto está a navegar para o infinito

Nada pode chegar lá?

Se tentássemos usar um dos vaivéns espaciais da NASA , para levar uma missão humana a TRAPPIST-1, usamos como terno de comparação a velocidade máxima antigida em órbita de 28.160 km/h. Assim sendo levaríamos cerca de 1,5 milhão de anos para chegar à localização atual do TRAPPIST-1.

Stephen Hawking defendeu a ideia da Estrela Starshot, uma sonda ultra-rápida que pode chegar a TRAPPIST-1, tendo sido imaginada para chegar a Alpha Centauri (4 anos-luz). É uma sonda acelerada por laser, e que teoricamente pode voar a 20% da velocidade da luz…

Este projecto permite “teoricamente” à Starshot navegar a 134 milhões de milhas por hora, ou a 216 milhões de km/h. Cerca de 4.000 vezes mais rápido que a nave espacial New Horizons, da NASA. Caso vá para a frente este projecto, seria possível viajar 40 anos-luz em menos de 200 anos… Só que esse conceito ainda não saiu do papel…

Se está tão longe, como sabemos que os dados estão correctos?

O estudo que nos garante que TRAPPIST-1 tem mesmo mundos oceânicos, tem por base uma técnica chamada TTVs (variações de tempo de trânsito). Ao observar pequenas variações na quantidade de tempo que um mundo leva para passar entre sua estrela e nosso ponto de vista (do telescópio espacial), que é aquilo a que chamamos de trânsito, as TTVs permitem que os pesquisadores façam tirem algumas conclusões mais sensíveis sobre as massas e densidades planetárias. Aliás, estando localizados estes planetas “tão perto e tão longe”, o único método possível para determinar massa e densidade é mesmo o TTV…

Os dados destes trânsitos foram compilados a partir das observações feitas pelo Spitzer Space Telescope e em vários instrumentos do Observatório Europeu do Sul no Chile.

Se um planeta viajasse sozinho em torno de sua estrela, a única atração gravitacional que sentiria viria da própria estrela. Mas quando um sistema detém dois ou mais mundos, os planetas interagem gravitacionalmente entre si, “puxando-se” mutuamente, permitindo aos cientistas calcular a relação entre as suas massas. E os planetas de TRAPPIST-1 são mais fáceis de medir porque orbitam em sincronia… Todos juntos! O que aliás sugere uma evolução lenta e pacífica segundo os astrónomos, o que consequentemente é muitíssimo mais favorável á vida…

200 trânsitos para se chegar a uma conclusão…

As simulações de TRAPPIST-1, que foram feitas com base em cerca de 200 trânsitos observados,  permitiu aos pesquisadores descobrir densidades desses mundos variando de 0,6 a 1,0 vezes a densidade da Terra. Os sete mundos são ricos em água, com níveis de água em alguns deles a atingir 5% da massa total. Impressionante se usarmos uma comparação com o nosso planeta, cuja quantidade de água é de 0,02% da massa da Terra.

E ainda outra conclusão: TRAPPIST-1b e TRAPPIST-1c, os mundos mais próximos da sua estrela em arrefecimento, terão núcleos rochosos e serão cercados por atmosferas densas. Muito mais densas que as da Terra… A orbitar muito perto da sua estrela, os mundos mais quentes como estes provavelmente têm atmosferas densas e fumegantes, enquanto os mais distantes podem ser cobertos de gelo.

O TRAPPIST-1d é o mais leve dos sete planetas, pesando cerca de 30% da massa da Terra. A sua baixa massa pode ser causada por uma grande e densa atmosfera, um oceano ou uma camada congelada de gelo. TRAPPIST-1f, TRAPPIST-1g e TRAPPIST-1h estão longe o suficiente da sua estrela hospedeira para que a água possa ser congelada ao nível das suas superfícies.

E por último fica o TRAPPIST-1e, o mais parecido com a Terra de todo o grupo. Ligeiramente mais denso que a Terra, o TRAPPIST-1e provavelmente tem um núcleo de ferroso… Mas pode ter uma atmosfera muito mais densa do que a da Terra, pode não ter gelo, e apesar de poder ter água líquida, pode não ter oceanos…

Vamos acompanhando as notícias sobre o TRAPPIST-1, a partir site da NASA.

Aceite a sugestão do Bit2Geek e leia Vestígios orgânicos no sistema solar são mais abundantes do que se pensava

IMPORTANTE:

O Bit2Geek convidou alguns cientistas portugueses e estrangeiros para escreverem neste canal, na medida que o projecto Bit2Geek seria transformar rapidamente e logo que possível, este canal num verdadeiro site de Espaço e Tecnologia Futurista (esperemos que o melhor!). Brevemente iremos passar a publicar artigos da Joana Neto Lima, juntamente com outros cientistas que vamos apresentar no final dos artigos, e que vão integrar a nossa Ficha Técnica.

A Joana Neto Lima trabalha com as equipas científicas que estão envolvidas nas missões MARS 2020, InSight, JUICE e Europa Multiple Flyby Mission.

Joana Neto Lima

Joana Neto Lima, Planetary Scientist

A Joana Neto Lima é Licenciada em Ciências do Meio Aquático pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (Universidade do Porto). Desde Outubro de 2014 que está a trabalhar no Departamento de Planetologia e Habitabilidade do Centro de Astrobiologia INTA – CSIC, em Torrejón de Ardoz (Madrid). Este é o primeiro centro fora dos EUA a fazer parte do NAI (NASA Astrobiology Institute) e ainda hoje colabora frequentemente em várias das missões espaciais desta agência (de salientar as contribuições do CAB para os rovers marcianos com o instrumento ambiental REMS e TWINS). Tanto o CAB como o INTA (Intituto Nacional de Tecnologia Aeroespacial) colaboram também em missões da agência espacial europeia ESA como Rosetta-Phillae, JUICE e EXOMars, só para nomear alguns dos mais emblemáticos. Actualmente está a trabalhar em Mundos Oceânicos e nos processos geoquimicos que podem estar por detrás de fenómenos como geisers (ou plumas planetárias) nas luas geladas (Encélado e Europa) e alguns minerais e estruturas encontrados/detectados por missões espaciais em antigos Mundos Oceânicos como Ceres (um planeta-anão no Cinturão de Asteróides) e Marte (este sem necessidade de apresentações).

Os seus artigos serão publicados em breve, tal como os dos restantes cientistas convidados. Stay tuned!!!