planeta aquático

As condições exatas que levam à origem da vida num planeta não são, ainda, conhecidas. Pensa-se que a troca de minerais e gases entre a atmosfera e a as camadas rochosas foi essencial para estabilizar o clima e tornar o planeta Terra habitável. O mesmo deverá acontecer em planetas rochosos com oceanos semelhantes ao nosso, com cerca de 10 km de profundidade. Porém, este princípio põe de parte os planetas com oceanos massivos (mais de 60 km) – também conhecidos como planetas oceânicos – tornando-os praticamente inabitáveis.

Esta ideia foi recentemente posta à prova por cientistas da Universidade de Chicago e da Universidade de Penn State, nos Estados Unidos. Estes simularam a evolução do clima em planetas oceânicos, na escala dos milhares de milhões de anos. Descobriram que estes podem tornar-se habitáveis apenas com a luz constante da estrela que orbitam. Isto é, sem qualquer reciclagem de nutrientes por processos geoquímicos.

Os investigadores advertem para o facto de que o potencial de habitabilidade pode variar consoante outros parâmetros. Sendo os mais importantes o conteúdo inicial de água do planeta, e o rácio inicial de carbono/hidrogénio presente na atmosfera e oceano.

Sugerem então que um quarto dos planetas oceânicos conseguirá manter-se habitável durante pelo menos 1 giga-ano (109 ou um milhar de milhão de anos). Tempo suficiente para originar vida e para esta evoluir até formas mais complexas. Isto contraria o paradigma de que é preciso um planeta “igual” à Terra para encontrarmos vida extraterrestre.

Habitabilidade em mundos aquáticos

mundos oceanicos vida extraterrestre

No Universo existem milhares de planetas. Oito estão no nosso sistema solar. Todos os restantes – os que orbitam outras estrelas que não o sol – são chamados “exoplanetas”. Apesar do extenso número de planetas, todos os estudos relacionados com a origem da vida e a habitabilidade são baseados num só exemplo – o da Terra.

Os organismos conhecidos até hoje têm a água como principal solvente. Por isso, haver água no estado líquido é um dos principais fatores a considerar na busca da vida extraterrestre. Contudo, pensava-se que “haver água a mais” pudesse ser um problema. O novo mecanismo de propostos por este estudo aumenta a probabilidade de habitabilidade dos mundos aquáticos.

É de notar, contudo, que o potencial de habitabilidade foi calculado apenas para a superfície aquática, e não para as áreas mais profundas dos oceanos. O limite estabelecido como habitabilidade foi também definido como > 450 K (~177 ºC). Este limite está de acordo com os estudos actuais sobre os limites da vida. No entanto, à medida que a ciência da biologia em ambientes extremos se desenvolve, estes limites de habitabilidade podem sofrer mudanças drásticas.

Mundos aquáticos no nosso Sistema Solar

Mundos oceânicos
Credits: NASA/JPL-Caltech

Foram já encontrados inúmeros exoplanetas rochosos, com oceanos que ultrapassam os 100 km de espessura. É exemplo o sistema planetário TRAPPIST-1, com sete planetas que estarão na “zona habitável”. Também no nosso sistema solar podemos encontrar exemplos de mundos aquáticos. É o caso das luas de Júpiter – Europa e Ganimedes. Estas têm oceanos massivos cobertos por extensas camadas de gelo. Nestes planetas, qualquer possibilidade de vida extraterrestre será, muito provavelmente, subaquática.

Estão já planeadas missões espaciais que abordarão este tema. É exemplo a JUICE – JUpiter ICy moons Explorer – pela agência espacial Europeia (ESA), com lançamento planeado para 2022. E também a Europa Clipper, pela agência espacial Norte-Americana (NASA) e com lançamento planeado para 2022-2025.

FONTEHabitability of Exoplanet Waterworlds
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Marta Filipa Cortesão é Mestre em Biologia Molecular e Celular pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP). Em Abril de 2017 iniciou o doutoramento em Microbiologia do Espaço, no Centro Aeroespacial Alemão (DLR), em Colónia (Alemanha). Estuda a sobrevivência e a adaptação de microrganismos (bactérias e fungos) tanto em ambientes extremos, como o do Espaço exterior (para lá da atmosfera Terrestre onde existe vácuo e diferentes tipos de radiação ionizante), como em ambientes de voo espacial (estes mais amenos, dentro das próprias naves espaciais onde vivem os astronautas). Entre diversas colaborações, destacam-se o laboratório de Proteção Planetária da NASA Jet Propulsion Laboratory (Caltech), o BioServe Space Technologies na Universidade do Colorado (CU Boulder), onde esteve como cientista convidada, e também na Universidade Técnica de Berlim, e no Instituto Nacional de Ciências Radiológicas (NIRS) no Japão. De salientar também a atribuição do prémio Women in Aerospace Europe (WIA-E) 2018, que apoia jovens profissionais talentosos na apresentação do seu trabalho em contexto internacional. Um dos principais projectos em que está envolvida é o “Biofilm in Space”, financiado pela NASA, que consiste numa experiência científica a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS em inglês), para estudar a expressão de genes e a formação de biofilmes em ambiente de voo espacial.