Sou a Joana Neto Lima e este será o primeiro de muitos artigos que irão abordar temas relacionados com missões espaciais, a pesquisa pela vida no Universo e ciências planetárias. Sou Cientista Planetária, actualmente a trabalhar no Departamento de Planetologia e Habitabilidade do Centro de Astrobiologia (INTA – CSIC) em Torrejón de Ardoz (Madrid). Estudo locais na Terra (os chamados análogos terrestres) que se parecem com alguns corpos celestes do nosso sistema solar, para dessa forma perceber melhor como os planetas, luas, asteróides e meteoritos evoluem e se possuem (no passado, no presente ou no futuro) condições para albergar/sustentar algum tipo de vida (condições de habitabilidade).

InSight
InSight Lander com a indicação dos instrumentos que seguem a bordo (Credits: NASA)

InSight (Interior exploration using Seismic Investigations, Geodesy and Heat Transfer) é uma plataforma estacionária da NASA, que pela primeira vez vai estudar o interior de Marte.

A InSight foi lançada no passado dia 5 de Maio de 2018 da Base Aérea de Vandenberg, a bordo de um Atlas V da United Launch Alliance (ULA), esta foi a primeira missão interplanetária a ser lançada da Califórnia na costa oeste dos Estados Unidos da América.

A Lockheed Martin Space foi a responsável pelo desenvolvimento da nave, a sua montagem, testes, operações de lançamento e de acompanhamento da missão. A InSight uma vez mais é o resultado da colaboração internacional entre várias instituições: a CNES (Centre National d’Études Spatiales – Centro Nacional de Estudos Espaciais) foi a responsável pelo desenvolvimento e montagem do instrumento SEIS (Seismic Experiment for Interior Structure), a DLR (Deutsches Zentrum für Luft- und Raumfahrt e.V. – Centro Aerospacial Alemão) construiu e entregou o instrumento HP3 (Heat FLow and Physical Properties Package – Sensores do Fluxo Térmico e Propriedades Físicas), o CAB (Centro de Astrobiología) forneceu os sensores de vento e de temperatura do ar, os sensores TWINS (Temperature and WINds for Insight – Ventos e Temperatura para a Insight).

Os pioneiros MARCO

Marte Insight
“Flight hardware” do Mars Cube One (MarCO) (Credits: NASA/JPL-Caltech)

À boleia da InSight seguiram dois pequenos viajantes, os Cubesats MarCO (Mars Cube One). Estes dois pequenos CubeSat (satélites de pequena dimensão, MarCO A e B têm 30cmx20cmx10cm, com um tamanho ligeiramente mais pequeno que uma mala de mão de um vôo low-cost) irão testar a durabilidade (pela primeira vez CubeSats serão expostos aos desafios do Espaço) e performance desta tecnologia no espaço profundo e terão como missão monitorizar em tempo-real a entrada, descida e aterragem da Insight. Se os MarCO conseguirem sobreviver a longa viagem até Marte e cumprir a sua missão principal, acima descrita, esta tecnologia poderá ser utilizada de forma muito mais frequente e podendo integrar algumas missões que se encontram actualmente em desenvolvimento (com uma nota para a missão Europa Multiple Flyby, uma missão da NASA com uma pequena contribuição da ESA que irá explorar a lua gelada de Júpiter, Europa, na próxima década).

Para chegar a Marte, a Insight terá de percorrer cerca de 484 milhões de quilómetros nos cerca de 6 meses de viagem, a chegada da missão ao planeta vermelho está programada para o próximo dia 26 de Novembro. Assim começa a missão principal que tem uma duração programada para aproximadamente 1 ano marciano (2 anos terrestres)

Representação artística da entrada da Insight na atmosfera marciana (EDA – Entrada, Descida, Aterragem (EDL – Entry, Landing and Descent) (Crédito: NASA/JPL)

Medir os sinais vitais do planeta vermelho

 Para aqueles que pensam que a Insight é apenas mais uma missão a Marte, deixem que vos explique o quanto esta pequena missão (considerada low-tech e com tecnologia (i.e. instrumentos) herdada de missões anteriores) irá mudar a forma como todos vemos Marte. Pela primeira vez, o objectivo científico principal é o estudo do interior do planeta, usando o sismógrafo SEIS (um instrumento extremamente sensível, que irá funcionar em conjunto com os sensores TWINS (vento e temperatura) para interpretar e detectar qualquer movimento do solo marciano).

Porquê estudar sismos num planeta que não a Terra?

 Na Terra, os sismos são utilizados para estudar a constituição do interior do planeta. Usando a velocidade e direcção com que as ondas sísmicas atravessam as diferentes camadas que compõem o nosso planeta ajuda a entender o seu estado (liquido ou sólido) e algumas das propriedades das camadas (densidade e espessura da crosta de Marte, tamanho e densidade dos materiais do núcleo e como os materiais se foram organizando à medida que o planeta vermelho foi esfriando depois da sua formação). Marte é muitas vezes utilizado como caso de estudo para entender alguns dos processos que estiveram na origem dos planetas rochosos como a Terra, por isso é tão importante entender/conhecer a evolução de Marte.

Marte é um planeta grande, onde aterrar a Insight

Mars InsightDepois de muita discussão foi eleita uma planície, chamada Elysium Planitia, a cerca de 600 quilómetros de distância da Cratera Gale (o local onde aterrou o rover Curiosity a 6 de Agosto de 2012).

Marte InSight

Esta planície foi selecionada não pelo interesse e diversidade da geologia da zona mas por uma questão de segurança e sobrevivência da Insight aquando da sua chegada à superfície do planeta vermelho. Nesta missão ao contrário das anteriores o interesse está no interior de Marte e não nas suas características da superfície, aliás como já foi acima referido.

A elipse marca o local on a InSight irá aterrar em Novembro de 2018. Credits: Nasa/JPL-Caltech

Mas não foi apenas o pormenor de ser uma planície que fez com que Elysium ganhasse a outros candidatos: o local tinha de estar perto do equador marciano (isto para que os painéis solares que alimentam a Insight possam, ao longo de todo o ano ter sol suficiente e manter a plataforma a temperaturas a que esta possa seguir a funcionar, não pode ter uma elevação muito elevada para a Insight poder ter altitude suficiente para aterrar em segurança e ter uma boa área em redor da plataforma para esta poder abrir os painéis solares em segurança e utilizar o braço robótico.

Faltam cerca de 70 dias para a Insight chegar a Marte, faltam cerca de 70 dias para começarmos a revelar os “segredos mais profundos” do planeta que quase desde os primórdios da exploração espacial dos nossos vizinhos celestes ocupou um lugar de destaque e fascínio.

Nota biográfica:

*Este texto foi escrito pela cientista planetária Joana Neto Lima que trabalha com as equipas científicas que estão envolvidas nas missões da InSight, MARS 2020, JUICE e Europa (Lua de Júpiter) Multiple Flyby Mission. Partilhamos aqui a entrevista com a Joana Lima na RTP: Portuguesa participa em missão que vai analisar Marte.

Importante:

O Bit2Geek convidou alguns cientistas (portugueses e estrangeiros), que têm sido anunciados nos artigos anteriores, para começarem a assinar textos de divulgação, que possam esclarecer os leitores sobre a revolução espacial que estamos a viver… Estamos no início da conquista do Espaço, e isso não pode passar despercebido… Por isso o Bit2Geek voltou a fazer uma aquisição de peso para nos ajudar a perceber melhor estes assuntos, e que passo a apresentar:

O Jorge Pla-García é investigador no Centro de Astrobiologia (CSIC-INTA, associado ao NASA Astrobiology Institute) e investigador associado do Space Science Institute (SSI) em Boulder, Colorado (USA).

Actualmente é membro de quatro equipas científicas de missões da NASA ao planeta vermelho: instrumento meteorológico REMS (Mars Science Laboratory – Curiosity rover), instrumento TWINS (InSight) e instrumento MEDA e Projecto Conselho de Atmosferas (ambos da missão Mars2020). Também trabalhou na missão ExoMars 2020 da Agência Espacial Europeia (ESA) no desenvolvimento do instrumento RLS (Raman Laser Spectrometer).

É Engenheiro Superior Informático pela Universidad Pontifica de Salamanca e tem Mestrados em Ciência e Tecnologia desde o Espaço pela Univerdad de Alcalá, Astronomia e Astrofísica na Valencian International University, Meteorologia e Geofísica na Universidad Complutense de Madrid. É Doutorado em Astrofísica pela Universidad Complutense de Madrid com o título “Mesoscale Meteorological Modeling of Mars mission environments”.

Nos últimos cinco anos tem estado a trabalhar em estudos meteorológicos da Cratera Gale (zona de Marte onde o rover Curiosity aterrou), tem estado a trabalhar também em simulações das condições atmosféricas esperadas para o dia de aterragem da futura missão da NASA, MARS 2020 a fim de minimizar os riscos durante a etapa de entrada atmosférica, descida e aterragem.

É também uma das poucas pessoas que tem o privilégio e a grande responsabilidade de operar o instrumento REMS que está no rover Curiosity, a partir da Terra.

Nos próximos dias anunciaremos mais colaborações… Stay tuned!!!

***Aceite a sugestão do Bit2Geek e leia Mars Ice House: as habitações para os primeiros colonos de Marte.

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Joana Neto Lima é Licenciada em Ciências do Meio Aquático pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (Universidade do Porto). Desde Outubro de 2014 que está a trabalhar no Departamento de Planetologia e Habitabilidade do Centro de Astrobiologia INTA – CSIC, em Torrejón de Ardoz (Madrid). Este é o primeiro centro fora dos EUA a fazer parte do NAI (NASA Astrobiology Institute) e ainda hoje colabora frequentemente em várias das missões espaciais desta agência (de salientar as contribuições do CAB para os rovers marcianos com o instrumento ambiental REMS e TWINS). Tanto o CAB como o INTA (Intituto Nacional de Tecnologia Aeroespacial) colaboram também em missões da agência espacial europeia ESA como Rosetta-Phillae, JUICE e EXOMars, só para nomear alguns dos mais emblemáticos.   Actualmente está a trabalhar em Mundos Oceânicos e nos processos geoquimicos que podem estar por detrás de fenómenos como geisers (ou plumas planetárias) nas luas geladas (Encélado e Europa) e alguns minerais e estruturas encontrados/detectados por missões espaciais em antigos Mundos Oceânicos como Ceres (um planeta-anão no Cinturão de Asteróides) e Marte (este sem necessidade de apresentações).