Vulcan

Foi descoberto (mais) um exoplaneta do tipo super-Terra… Até aqui nada de extraordinário para os dias de hoje, mas este planeta é especial – é o planeta Vulcan. Muitos poderão não reconhecer este nome, mas de certo reconhecerão o nome Spock. Não?! USS Enterprise? (Serei eu a “bit2geek”?) Passo a explicar: Vulcan é o planeta de origem de Spock, personagem de orelhas pontiagudas da famosa série de ficção científica Star Trek, estreada em 1966.

Credits: StarTrek.com

Vulcan foi relacionado com a estrela 40 Eridani A (também designada por HD 26965) nas publicações “Star Trek 2” por James Blish (Bantam, 1968) e “Star Trek Maps” por Jeff Maynard (Bantam, 1980). No entanto, “Star Trek Spaceflight Chronology” de 1980, escrito por Stan e Fred Goldstein, mencionava a estrela Epsilon Eridani como a localização de Vulcan.

Posteriormente, a escolha oficial recaiu para 40 Eridani, confirmado numa carta publicada em 1991 onde Gene Roddenberry (o criador de Star Trek) juntamente com Sallie Baliunas, Robert Donahue e George Nassiopoulos, do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, indicam que 40 Eridani A era a estrela onde se encontrava o planeta Vulcan e que a partir deste seriam também visíveis as outras duas estrelas do sistema.

No entanto, nesta data já se sabia que a 40 Eridani A teria aproximadamente a mesma idade que o Sol enquanto que a estrela Epsilon Eridani teria apenas 1 bilião de anos – o que significa, resumidamente, que a probabilidade de albergar um planeta com vida desenvolvida seria muito reduzida ou mesmo impossível. Portanto, a exclusão de Epsilon Eridani foi já feita com base em dados científicos.

40 Eridani A e Vulcan

Vulcan exoplaneta
Massa, raio e luminosidade do sistema 40 Eri em unidades solares. Temperatura T em kelvin. Credits: Stargazerslounge.com

HD 26965, também designada por 40 Eridani A, é uma estrela visível a olho nu, localizada na constelação de Eridanus, a 16 anos-luz da Terra. É a estrela primária de um sistema triplo – um par de estrelas orbitam à sua volta (40 Eridani B e 40 Eridani C) Tem aproximadamente a mesma idade que o Sol (4 biliões de anos) mas dimensão e temperatura ligeiramente inferior, sendo por isso de cor mais alaranjada.

O planeta descoberto (designado oficialmente por 40 Eridani A b) é do tipo super-Terra e estará a orbitar na chamada zona habitável. Uma “super-Terra” é um planeta semelhante à Terra mas com dimensão e massa superiores (até 10 vezes a massa terrestre). Zona habitável é a distância em redor de uma determinada estrela onde um planeta terá condições de possuir, à superfície, água no estado líquido – factor considerado essencial para a existência de vida… ou pelo menos, vida tal como a conhecemos. O artigo revela que o planeta terá 8,5 vezes a massa e duas vezes o diâmetro da Terra e um período orbital de 42 dias terrestres, ou seja, completa uma volta à sua estrela (um ano) a cada 42 dias terrestres. Não foi definido qual será o período de rotação do planeta, ou seja, a duração de um dia. A distância entre o planeta e a estrela é de 0,2 vezes a distância entre a Terra e o Sol, o que pode parecer pouco mas é o suficiente para o planeta se encontrar na zona habitável. Isto porque, como a estrela 40 Eridani A é mais fria e pequena que o Sol, a zona habitável está mais próxima da estrela. Portanto, Vulcan, pode muito bem ter vida inteligente (vulcans)!

Como detectar um exoplaneta?

A descoberta foi feita pelo Dharma Planet Survey (DPS) que se dedica à detecção de planetas em torno de estrelas brilhantes e próximas do Sol utilizando o telescópio Dharma Endowment Foundation Telescope (DEFT), com cerca de 1,30 m de diâmetro, situado no monte Lemmon no Arizona, E.U.A.

A técnica de detecção usada neste caso chama-se velocidades radiais (RV). O telescópio detecta pequenas oscilações no espectro de luz da estrela que são indicação de que a estrela se está ora a aproximar, ora a afastar de nós, daí o termo velocidade radial. A partir das oscilações detectadas foi inferido a presença de um planeta a orbitar a estrela. Embora seja comum afirmar, de forma simplista, que os planetas giram em torno das estrelas, o que de facto acontece é que ambos estrela e planeta(s) giram em torno de um ponto central comum (centro de massa). Sendo a massa das estrelas muito maior que a massa dos planetas, o centro de massa localiza-se geralmente muito próximo da estrela (por vezes até dentro da própria estrela). No entanto, a força gravítica de um planeta pode ser suficiente para que a movimentação da estrela em torno do centro de massa seja detectável a partir da Terra.

Beam me up, Scotty

Credits: StarTrek.com

A ficção científica é sinónimo de ideias futuristas e visionárias, baseando-se em tecnologia actual para extrapolar e especular sobre um futuro não muito distante. Não são raros os clássicos de ficção científica que, mais cedo ou mais tarde (geralmente muito mais cedo do que o esperado) se tornam, por vezes de forma assustadora, reais e actuais. Obras como From the Earth to the Moon (Jules Verne, 1865), 1984 (George Orwell, 1949), The Jetsons (Hanna-Barbera, 1962) ou 2001: Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, 1968) são alguns desses exemplos. Voltando a Star-Trek, facilmente identificamos semelhanças entre tecnologias actuais e aparelhos presentes na série: impressoras 3D, Ipad, telefones de mola, etc… Se é certo que em alguns casos a ficção científica antecipa e prevê a realidade, noutros casos parece óbvio que ficção inspira e co-cria a realidade. Conclusão: já identificámos Vulcan, ficamos à espera do “Warp-Drive”…

Nota sobre o autor:

* Ruben Gonçalves é mestre em Astrofísica e Cosmologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). É actualmente investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço onde estuda, como tema de doutoramento, atmosferas planetárias. Actualmente dedica-se à mediação de velocidade de ventos na atmosfera de Vénus a diferentes altitudes, utilizando diferentes técnicas, baseando-se em observações feitas a partir da Terra mas também em dados obtidos por missões espaciais, nomeadamente pela VenusExpress (ESA, Agência Espacial Europeia) e pela Akatsuki (JAXA, Agência Espacial Japonesa). As técnicas e conhecimentos adquiridos no estudo do planeta mais próximo da Terra são essenciais para perceber o que distingue estes planetas “irmãos” e serão, posteriormente, utilizados na caracterização de exoplanetas e na diferenciação entre planeta tipo-Terra ou tipo-Vénus. Desde 2017 é também membro activo da Europlanet Early Career network (EPEC). 

Importante:

O Bit2Geek convidou alguns cientistas (portugueses e estrangeiros), que têm sido anunciados nos artigos anteriores, para começarem a assinar textos de divulgação, que possam esclarecer os leitores sobre a revolução espacial que estamos a viver… Estamos no início da conquista do Espaço, e isso não pode passar despercebido… Por isso o Bit2Geek voltou a fazer uma aquisição de peso para nos ajudar a perceber melhor estes assuntos, e que passo a apresentar:

O Jorge Pla-García é investigador no Centro de Astrobiologia (CSIC-INTA, associado ao NASA Astrobiology Institute) e investigador associado do Space Science Institute (SSI) em Boulder, Colorado (USA).

Actualmente é membro de quatro equipas científicas de missões da NASA ao planeta vermelho: instrumento meteorológico REMS (Mars Science Laboratory – Curiosity rover), instrumento TWINS (InSight) e instrumento MEDA e Projecto Conselho de Atmosferas (ambos da missão Mars2020). Também trabalhou na missão ExoMars 2020 da Agência Espacial Europeia (ESA) no desenvolvimento do instrumento RLS (Raman Laser Spectrometer).

É Engenheiro Superior Informático pela Universidad Pontifica de Salamanca e tem Mestrados em Ciência e Tecnologia desde o Espaço pela Univerdad de Alcalá, Astronomia e Astrofísica na Valencian International University, Meteorologia e Geofísica na Universidad Complutense de Madrid. É Doutorado em Astrofísica pela Universidad Complutense de Madrid com o título “Mesoscale Meteorological Modeling of Mars mission environments”.

Nos últimos cinco anos tem estado a trabalhar em estudos meteorológicos da Cratera Gale (zona de Marte onde o rover Curiosity aterrou), tem estado a trabalhar também em simulações das condições atmosféricas esperadas para o dia de aterragem da futura missão da NASA, MARS 2020 a fim de minimizar os riscos durante a etapa de entrada atmosférica, descida e aterragem.

É também uma das poucas pessoas que tem o privilégio e a grande responsabilidade de operar o instrumento REMS que está no rover Curiosity, a partir da Terra.

Nos próximos dias anunciaremos mais colaborações… Stay tuned!!!

***Aceite a sugestão do Bit2Geek e leia Mars Ice House: as habitações para os primeiros colonos de Marte.

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Mestre em Astrofísica e Cosmologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). É actualmente investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço onde estuda, como tema de doutoramento, atmosferas planetárias. Actualmente dedica-se à mediação de velocidade de ventos na atmosfera de Vénus a diferentes altitudes, utilizando diferentes técnicas, baseando-se em observações feitas a partir da Terra mas também em dados obtidos por missões espaciais, nomeadamente pela VenusExpress (ESA, Agência Espacial Europeia) e pela Akatsuki (JAXA, Agência Espacial Japonesa). As técnicas e conhecimentos adquiridos no estudo do planeta mais próximo da Terra são essenciais para perceber o que distingue estes planetas “irmãos” e serão, posteriormente, utilizados na caracterização de exoplanetas e na diferenciação entre planeta tipo-Terra ou tipo-Vénus. Desde 2017 é também membro activo da Europlanet Early Career network (EPEC).