A primeira suspeita da existência de água em estado líquido nos pólos do planeta vermelho foi feita há mais de 30 anos. Desde então, várias missões espaciais têm contribuído para o debate.

É exemplo a missão do Phoenix Lander que aterrou em Marte e analisou a composição do solo. Fê-lo ao dissolver pequenas quantidades de solo em água e analisando a sua composição química. Descobriu que 0.4–0.6 % era composto de percloratos de sódio e de cálcio. Estes percloratos seriam capazes de baixar o ponto de congelação da água, facilitando a presença de água líquida nos pólos de Marte. Assim, Marte poderia ter lagos salgados (ou salmouras), “debaixo” dos glaciares.

Robotic Arm Camera on NASA’s Phoenix Mars Lander. Credits: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona/Max Planck Institute

Recentemente uma equipa de investigadores italianos apoiou esta teoria. Ao analisarem os pólos de Marte com radares, encontraram mais uma prova da existência de lagos salgados (ou salmouras), na subsuperfície dos glaciares. Mas até que ponto serão estes lagos habitáveis?

Vida em Marte

Marte é um planeta frio (-120 ºC a +20 ºC), seco e com uma atmosfera fina que não protege da radiação. Por isto, será improvável que exista vida complexa nos lagos salgados de Marte. Porém, foram já encontrados vários microorganismos, na Terra, capazes de sobreviver a condições parecidas.

Para sabermos que tipo de vida poderá existir nos lagos de Marte, vários estudos podem ser efectuados no âmbito da ciência da microbiologia do espaço. Esta ciência tem vindo a desenvolver-se substancialmente nos últimos 15 anos. Consiste em expor os microrganismos a ambientes extremos e testar a sua capacidade de sobrevivência.

Os ambientes extremos podem ser encontrados naturalmente na Terra, ou podem ser simulados em laboratório. Na Terra, a Antártida, no pólo sul, ou o deserto do Atacama, no Chile, são exemplos de ambientes análogos a Marte. Estes são também frios, secos e estão expostos a uma quantidade relevante de radiação Ultravioleta.

Marte, à direita, e o deserto do Atacama, no Chile, à esquerda. Crédito: NASA.

Microorganismos com “um olho” em Marte

No laboratório é também possível recriar águas “marcianas”. A archaea Halobacterium salinarum, é um microorganismo halófilo – ou “amante de sal”. Estudos com Halobacterium salinarum, descobriram que este é capaz de crescer em águas salgadas (cloreto de sódio) com concentrações elevadas de perclorato de sódio. Também o fungo Aspergillus penicillioides – um tipo de bolor – é capaz de sobreviver em águas saturadas.

Há ainda muito para conhecer acerca da superfície e subsuperfície de Marte. Serão necessárias mais missões espaciais e mais estudos de simulação (e in situ) para descobrir como seria a vida em Marte. Contudo, a biologia é capaz de surpreender, como tem feito, repetidamente, ao longo dos séculos.

Dois artigos científico relacionados com o tópico:
http://science.sciencemag.org/content/361/6401/490
https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00792-013-0594-9

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Marta Filipa Cortesão é Mestre em Biologia Molecular e Celular pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP). Em Abril de 2017 iniciou o doutoramento em Microbiologia do Espaço, no Centro Aeroespacial Alemão (DLR), em Colónia (Alemanha). Estuda a sobrevivência e a adaptação de microrganismos (bactérias e fungos) tanto em ambientes extremos, como o do Espaço exterior (para lá da atmosfera Terrestre onde existe vácuo e diferentes tipos de radiação ionizante), como em ambientes de voo espacial (estes mais amenos, dentro das próprias naves espaciais onde vivem os astronautas). Entre diversas colaborações, destacam-se o laboratório de Proteção Planetária da NASA Jet Propulsion Laboratory (Caltech), o BioServe Space Technologies na Universidade do Colorado (CU Boulder), onde esteve como cientista convidada, e também na Universidade Técnica de Berlim, e no Instituto Nacional de Ciências Radiológicas (NIRS) no Japão. De salientar também a atribuição do prémio Women in Aerospace Europe (WIA-E) 2018, que apoia jovens profissionais talentosos na apresentação do seu trabalho em contexto internacional. Um dos principais projectos em que está envolvida é o “Biofilm in Space”, financiado pela NASA, que consiste numa experiência científica a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS em inglês), para estudar a expressão de genes e a formação de biofilmes em ambiente de voo espacial.