Complexo arqueológico de Tikal, visto em Lidar (Canuto & Auld-Thomas/PACUNAM via Associated Press)

Não costumamos associar a arqueologia à alta tecnologia. Temos duas imagens na cultura popular de um arqueólogo. É alguém constantemente enfiado em escavações, meticulosamente retirando terra de fragmentos de artefatos. Ou é um aventureiro de chapéu fedora e chicote em punho, a descobrir templos perdidos e a decifrar manuscritos ocultos. Tecnicamente o que essas personagens de ficção fazem qualifica-se na realidade como crimes contra o património.

Na verdade, hoje, a arqueologia não tem medo das tecnologias mais avançadas. Usa-as para fazer descoberta incríveis. Utilizando técnicas de imagiologia avançadas, vê o invisível, faz renascer o esquecido,  redescobre o que se pensava para sempre perdido. Tecnologias criadas para melhores diagnósticos médicos, são hoje uma ferramenta preciosa para quem estuda o passado.

A Antiga Civilização Maia, Revista por LIDAR.

Esta  foi uma notícia que transvasou para lá dos círculos da história e arqueologia. Utilizando meios digitais, arqueólogos descobriram uma vasta rede de vestígios arqueológicos da civilização Maia na Guatemala.

O projeto chama-se Pacunam Lidar Initiative. Utilizou aviões equipados com LIDAR para mapear cerca de dois mil quilómetros quadrados da biosfera maia de Petén. É uma área já bem estudada pelos arqueólogos. No entanto, o uso da tecnologia permitiu fazer descobertas surpreendentes. Graças à tecnologia, conseguiram descobrir um enorme acervo de vestígios arqueológicos, mesmo em zonas consideradas bem estudadas.

Complexo arqueológico de Tikal, visto em Lidar (Canuto & Auld-Thomas/PACUNAM via Associated Press)

Utilizaram um avião, que mapeou quadrantes da área estudada. Estava equipado com um Teledyne Optech Titan MultiWave. Este é um sistema multicanal, multiespetro de pulso estreito. Dado o tamanho da zona e a especificidade do equipamento, o uso de drones foi desconsiderado. Este Lidar tem potência suficiente para penetrar sob as camadas de vegetação das zonas de selva.

Diferentes imagens a combinar para análise pelos arqueólogos (PACUNAM)

As diversas imagens foram agrupadas e analisadas em busca de vestígios arqueológicos. Esse processo, de acordo com os investigadores, durou dois anos. Se a tecnologia de ponta foi fundamental para obter as imagens e mapear potenciais vestígios, não há ferramentas que permitam identificar automaticamente  vestígios. As imagens foram analisadas minuciosamente, utilizando ferramentas de processamento de imagem para realçar sombras e com isso melhor compreender o seu conteúdo. No final do processo, 61000 novas estruturas foram descobertas. Representa um avanço no domínio científico específico. Mas, também, um enorme salto no domínio das tecnologias que permitem aos arqueólogos compreender o passado.

Imagiologia: Múmias ao Raio-X

Visão de alta resolução do interior de vestígio de múmia (Romell et al, 2018)

Outra forma de estudar o passado com imagiologia utiliza Raios X, TAC e Ressonância Magnética para perscrutar o interior de vestígios. Algo que os egiptólogos fazem há muito, e que recentemente teve uma evolução tecnológica.

Investigadores do KTH Royal Institute of Technology na Suécia aplicaram um tipo de imagiologia por Raio X, phase contrast imaging, a uma mão mumificada. Esta técnica, funciona medindo a mudança de fase nas posições de um raio de luz, produzido maior contraste nas imagens resultantes. Com isto, conseguiram analisar o vestígio com níveis de detalhe até agora impossíveis de obter.

Nestes contextos, o uso de tecnologias de imagiologia avançada possibilita a análise não-invasiva de vestígios arqueológicos. Algo fundamental, quando se tem de lidar com artefatos raros, danificados, ou frágeis.

Arqueólogos Conseguem Ler Manuscritos Perdidos

Pergaminho danificado, tornado legível com imagiologia (Unversidade de Cardiff)

A combinação de imagiologia e algoritmos possibilita aos investigadores ir ainda mais longe. Permite ler o que até agora se julgava perdido. Recentemente, cientistas da universidade de Cardiff utilizaram TAC para criar imagens de um documento em rolo datado do século XVI. Este estava fortemente danificado por um incêndio.

Após a digitalização do artefato, aplicaram algoritmos avançados de processamento digital para colar virtualmente as imagens obtidas. Com isso, fizeram um desenrolar virtual do documento. Com esta técnica, esperam contribuir para que museus e bibliotecas de todo o mundo possam conseguir ler o conteúdo de documentos, papiros e livros que estão demasiado frágeis ou fortemente danificados, permitindo-nos descobrir o seu conteúdo. Um exemplo possível são os lendários papiros de Herculaneum. É a maior biblioteca sobrevivente da era romana, descoberta sob as ruínas da explosão vulcânica que destruiu Pompeia. São demasiado frágeis, e danificados pela cinza vulcânica, para serem analisados por métodos tradicionais.

Utilizando métodos avançados de imagiologia, o olhar digital permite aos arqueólogos e investigadores do passado descobrir e aprender. Recupera o que foi esquecido ou se julgava perdido para sempre. Não temos máquinas do tempo, mas a tecnologia  permite-nos perscrutar o passado com cada vez maior nitidez.

Intrigado com o potencial das tecnologias digitais de imagiologia? Leia o nosso artigo sobre Diagnósticos Médicos Mais Eficazes Utilizando Inteligência Artificial.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.