(Crédito: ESO/B. Tafreshi)

Um dos principais fios condutores da astrobiologia e da busca de vida no Universo tem sido sempre : “Follow the Water” (Seguir a água). A existência ou ausência de água líquida num corpo celeste é um dos principais factores em conta para definir se este tem ou teve (num momento da sua história), capacidade para sustentar e promover vida.

Mas um artigo recentemente publicado na Revista Nature, no passado dia 12 de Novembro de 2018, veio alterar a imagem que naturalmente nos surge na mente quando se lê os títulos de muitas das notícias que saíram sobre este deserto “primeiras chuvas em Atacama em séculos”. Imagens de planícies a perder de vista recobertas de flores…

Deserto do Atacama florido após chuvas (Crédito: Javier Rubilar)

Mas a realidade foi bem mais intrigante do que o esperado segundo um dos autores do artigo. Alberto Fairén (investigador do Centro de Astrobiologia INTA-CSIC e astrobiólogo visitante da Universidade de Cornell) comenta: “Quando as chuvas chegaram a Atacama, esperávamos blooms magestosos e o próprio deserto despertar para a vida. Mas em vez disso, descobrimos que aconteceu exactamente o contrário, detectamos que estes episódios de chuva no “coração” hiperárido do deserto do Atacama provocaram uma extinção em massa da maioria das espécies microbianas que aí existiam.” Fairén acrescenta ainda: “Os solos hiperáridos eram habitados por cerca de 16 diferentes espécies de micróbios primitivos. Depois da chuva, apenas conseguimos encontrar entre 2 e 4 espécies nas lagoas temporárias que se formaram devido à precipitação. Este evento de extinção foi massivo.”

Uma pequena lagoa temporária mesmo no “coração” do “hiperárido” deserto de Atacama. (Crédito: Carlos González-Silva)

O “coração” do Atacama raramente (para não utilizar o termo nunca) assiste a episódios de chuva, mas devido à alteração/perturbação de padrões climáticos sobre o Oceano Pacífico, choveu nessa zona a 25 de Março e 9 de Agosto de 2015. Choveu novamente a 7 de Junho de 2017. Depois de um aprofundado estudo da história daquela zona, chegou-se à conclusão que não chovia em Yungay pelo menos há 500 anos, e agora em menos de 3 anos assiste-se a 3 episódios de chuvas (demonstra que claramente algo se está a alterar em termos climáticos nessa zona, o que poderá colocar em risco ecossistemas inteiros).

Episódios de chuva no deserto de Atacama. Esquerda: Mapa com o “coração” marcado a vermelho. Direita: Imagens de satélite que mostram a passagem das nuvens de chuva que levaram chuva e neve a locais do deserto que nunca haviam assistido a esses episódios em séculos. (Crédito: Nature)

O deserto de Atacama, localizado no norte do Chile e que ocupa uma área de cerca de 105mil quilómetros quadrados. A zona hiperárida a que os investigadores designaram como “coração” de Atacama tem sido árida (outra forma de dizer que existe pouca água disponível, equivalente a um clima desértico) há 150 milhões de anos, mas nos últimos 15 milhões de anos passou a ser ainda mais árida, passando a ser definida por hiperárida. Isto porque a precipitação média anual nesta zona é extremamente reduzida, com valores médios maioritariamente abaixo dos 4mm/m2 (para podermos comparar, no ano 2017 no Porto o valor foi de 816,7mm e em Lisboa foi de 505,1mm (Dados: IPMA/MM, PORDATA). Devido a esta aridez extrema, a zona Yungay localizada no “coração” do deserto foi proposta em 2003 como um bom modelo análogo para Marte.

Modelo da Viking 2 que aterrou em Marte a 3 de  Setembro de 1976 (Crédito: NASA)

Os estudos realizados em 2003, duplicaram as experiências feitas em Marte, a bordo das naves Viking 1 e Viking 2, em Yungay no “coração” do Atacama. E tal como as experiências feitas décadas atrás tentaram detectar sinais de vida sem sucesso, mas ao contrário de Marte, os cientistas sabiam que naquela zona hiperárida existia vida altamente especializada e adaptada àquele ambiente. Com a publicação deste novo artigo, abrem-se novas portas e novas oportunidades de interpretação para estas experiências que na altura foram consideradas de “inconclusivas”.

Esta zona terrestre é única e é constantemente visitada e utilizada pela NASA para testar instrumentos que irão voar rumo ao planeta vermelho. Mas como ainda não conhecemos na totalidade o nosso planeta, podemos no futuro encontrar mais locais para poder estudar Marte e outros corpos celestes aqui mesmo, quase sem sair de “casa”.

Tal como a Terra, Marte tem uma história complexa de alterações climáticas. No início, o planeta vermelho teve uma hidrosfera (o termo hidrosfera engloba rios, lagos, oceanos, etc) complexa e activa, depois foi transicionando para condições cada vez mais áridas à medida que o planeta perdia a sua água. Pontualmente, as condições áridas que persistem até hoje, foram interrompidas por episódios pontuais em que enormes massas de água inundavam regiões inteiras e escavaram muitas das estruturas que podemos observar.

Delta da Cratera de Jezero em Marte (que hoje foi eleito como o local onde o rover MArte 2020 irá aterrar). Imagem captada pelo MRO e pelos instrumentos CRISM e Context Camera. Créditos: NASA/JPL/JHUAPL/MSSS/Brown University

Em consequência e num paralelismo entre o que aconteceu em Yungay, os ecossistemas que poderiam existir nessas regiões e que se haviam adaptado à ausência de àgua podem ter sido dizimados. Isto em contraste com a ideia que geralmente muitos astrobiólogos defendem, que estas inundações pontuais poderiam ser oportunidades para a vida poder “despertar” e se desenvolver.

Fica por isso a questão: Onde será o melhor lugar para procurar vida em Marte? e Deveremos continuar a seguir a água? Ou por vezes a água pode ser um dos inimigos da vida?

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FONTENature Magazine
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Joana Neto Lima é Licenciada em Ciências do Meio Aquático pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (Universidade do Porto). Desde Outubro de 2014 que está a trabalhar no Departamento de Planetologia e Habitabilidade do Centro de Astrobiologia INTA – CSIC, em Torrejón de Ardoz (Madrid). Este é o primeiro centro fora dos EUA a fazer parte do NAI (NASA Astrobiology Institute) e ainda hoje colabora frequentemente em várias das missões espaciais desta agência (de salientar as contribuições do CAB para os rovers marcianos com o instrumento ambiental REMS e TWINS). Tanto o CAB como o INTA (Intituto Nacional de Tecnologia Aeroespacial) colaboram também em missões da agência espacial europeia ESA como Rosetta-Phillae, JUICE e EXOMars, só para nomear alguns dos mais emblemáticos.   Actualmente está a trabalhar em Mundos Oceânicos e nos processos geoquimicos que podem estar por detrás de fenómenos como geisers (ou plumas planetárias) nas luas geladas (Encélado e Europa) e alguns minerais e estruturas encontrados/detectados por missões espaciais em antigos Mundos Oceânicos como Ceres (um planeta-anão no Cinturão de Asteróides) e Marte (este sem necessidade de apresentações).