Chang 4

A sonda não-tripulada Chang’e 4 saiu da Terra no passado dia 7 de Dezembro, e foi lançada para o Espaço pelo foguetão Longa Marcha 3B, a partir do Centro de Lançamento de Satélites Xichang.

Pretende-se que a Chang’e 4 faça a primeira aterragem da história no “lado escuro” da Lua por volta de Janeiro, para uma aterragem na bacia do Polo Sul-Aitken (SPA), após um voo de 27 dias. Esta missão consiste de um lander estacionário e um rover, que vão realizar uma série de trabalhos científicos, bem como plantar uma bandeira em nome da Humanidade numa zona completamente inexplorada até o momento.

South Pole-Aitken (SPA) basin.
Credit: NASA/Goddard

O Lado “Escuro” da Lua

A lua está “bloqueada” na observação a partir da Terra, uma vez que o satélite natural leva aproximadamente o mesmo tempo a girar sobre o seu eixo, como o tempo que leva para orbitar o nosso planeta. Por essa razão na Terra, vemos sempre a mesma face da Lua.

Esta é aliás a razão pela qual esta missão é complicada. O facto do “outro lado da Lua” permanecer fora de vista a partir da Terra, explica porque razão essa superfície lunar se mantém “obscurecida” (embora receba do Sol exactamente a mesma quantidade de luz que a face visível), razão pela qual ainda não recebeu um visitante robotizado. Por isso, as comunicações com o lander e com o rover são complexas, porque é o próprio corpo rochoso da Lua a bloquear os sinais.

Lado escuro da Lua
Crédito: Academia Chinesa de Ciências, lado escuro da Lua fotografado pela sonda Chang’e 5 T1 módulo de serviço em 2014.

Resolver o problema das transmissões

Para resolver este problema das transmissões, a China lançou um satélite chamado “Queqiao”, em maio passado. O Queqiao estabeleceu-se no ponto 2 de Lagrange Terra-lua, um ponto gravitacionalmente estável em órbita da Lua, a partir do qual o satélite será capaz de retransmitir as comunicações o rover e o lander, com o centro de comando e controle da missão Chang’e 4 na Terra.

Se tudo correr bem, esses sinais emitidos para o Queqiao, vão ser transmitidos a partir da Cratera Von Kármán, um “buraco” com 186 quilômetros de extensão onde se espera que se dê o “landing” da Chang’e 4.

Chang 3
Crédito: Rover lunar Yutu da China, fotografada pela sonda Chang 3 em dezembro de 2013. A missão lunar Chang’e 4 foi projectada como um “backup” para a Chang’e 3.

Um estudo sério com vista à colonização…

O Chang’e 4 apresenta um total de oito instrumentos científicos.

No LANDER, vai a bordo: o (LCAM) – Landing Camera , o (TCAM) – Terrain Camera , o (LFS) Low Frequency Spectrometer e o (LND) – Lunar Lander Neutrons e Dosimetry , concebidos pela DLR – Agência Espacial Alemã.

No ROVER, vai a bordo: o (PCAM) – Câmera Panorâmica, o (LPR) – Radar Penetrante Lunar, o (VNIS) – Espectrômetro de Imagem Visível e de Infravermelhos Próximos, e por fim o (ASAN)  – Pequeno Analisador Avançado para Neutros , uma contribuição do Instituto Sueco de Física Espacial.

Credits: Swedish Institute of Space Physics Advanced Small Analyzer for Neutrals (ASAN) instrument for Chang’e-4 rover.
Credit: Institutet för rymdfysik, IRF

Este equipamento permitirá que o Chang’e 4 caracterize os seus arredores com grande detalhe. Por exemplo, o LFS irá devolver dados sobre a composição da superfície, enquanto o LPR irá mostrar a estrutura em camadas do subsolo da Lua.

Nesta informação pretende-se que os cientistas possam perceber porque o “lado escuro” é tão diferente do lado visível. Por exemplo, as grandes e escuras planícies basálticas cobrem muito do lado mais próximo da Lua, mas quase nada do lado oposto.

A Chang’e 4 também realizará alguns trabalhos de radioastronomia, aproveitando a paz e a quietude do outro lado da Lua, que está protegido das conversas de rádio vindas da Terra. Contudo estes estudos de radioastronomia de baixa frequência na superfície lunar, estão a ser considerados por alguns analistas internacionais como “intrigantes” (sem grandes explicações)… A base desta “confusão” são os argumentos patentes no artigo publicado recentemente com o título de “Os objetivos científicos e as cargas úteis da missão Chang’e-4”, da autoria de Yingzhuo Jia do State Key Laboratory of Space Weather, e do Centro Nacional de Ciência Espacial da Academia Chinesa de Ciências, onde são oferecidos detalhes sobre as metas de exploração lunar tanto do Lander como do Rover. E que não são consensuais no que diz respeito ás observações que se pretendem fazer no campo da radioastronomia.

O Queqiao por sua vez também está a colectar dados astronómicos, usando um instrumento a bordo chamado Explorador de Baixa Frequência, resultado de uma parceria entre a Holanda e a China.

A nave espacial Chang’e 4 também leva a bordo uma experiência biológica: Não só transporta sementes de batata, tomate e plantas de Arabidopsis (uma pequena planta relacionada com o repolho e com a mostarda), como também leva uma pequena lata (lata cilíndrica, feita de materiais especiais de liga de alumínio, que pesa aproximadamente 7 libras ou 3 quilos), contendo ovos de bicho-da-seda. O objectivo é perceber como é que estes organismos reagem à radiação na superfície lunar.

A Deusa Chang

A linha de missões lunares não-tripuladas Chang’e da China, recebeu o nome de Chang’e em honra de uma deusa da Lua na mitologia chinesa.

Deusa Chang, divindade lunar

A Chang’e 1 e Chang’e 2 foram enviadas para a órbita lunar em 2007 e 2010, respectivamente. Em dezembro de 2013, a Chang’e 3 colocou um lander e um rover chamado Yutu, no lado mais próximo da lua. (Chang’e 4 foi originalmente desenvolvido como um backup para Chang’e 3, mas foi reaproveitado para a missão Chang’e 4 após o sucesso deste último.

Chang'e 3
China’s Chang’e 3 lander e Yutu rover na missão de Dezembro de 2013

E em outubro de 2014, a China lançou o Chang’e 5T1, que enviou uma cápsula de teste numa viagem de oito dias ao redor da lua que terminou com aterragem de paraquedas na Terra.

As autoridades chinesas afirmaram que querem “pousar” humanos na superfície da Lua no início dos anos 2020. Parece ser um cronograma apertado, uma vez que a China se vai concentrar agora no desenvolvimento conjunto com a NASA, ESA e ROSCOSMOS do Portal Interplaneário na órbita Cis-Lunar chamado Lop-G Gateway e que irá substituir a ISS que se despenhará na Terra em 2024.

***Aceite a sugestão do Bit2Geek e leia LOP-G Gateway: O primeiro passo para colonizar a Lua foi ontem

Importante:

O Bit2Geek convidou alguns cientistas (portugueses e estrangeiros), que têm sido anunciados nos artigos anteriores, para começarem a assinar textos de divulgação, que possam esclarecer os leitores sobre a revolução espacial que estamos a viver… Estamos no início da conquista do Espaço, e isso não pode passar despercebido… Por isso o Bit2Geek voltou a fazer uma aquisição de peso para nos ajudar a perceber melhor estes assuntos, e que passo a apresentar:

Andrey Vieira
Andrey VieiraAndrey Vieira é brasileiro, natural do Rio de Janeiro. É licenciado em ciências biológicas pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com enfoque em Bioquímica e Geoquímica Orgânica. Durante sua graduação foi selecionado como estudante de alta performance para poder realizar um intercâmbio académico na Universidade Estadual de Montana, nos Estados Unidos, na área de Astrobiologia, Origem da Vida e Biogeoquímica. Essa escolha acabou por lhe render uma oportunidade de trabalho como assistente de pesquisa no NAI (NASA Astrobiology Institute) no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Durante o tempo de pesquisa no MIT, o Andrey realizou uma série de estudos sobre o funcionamento das moléculas que conferem resistência a altas temperaturas em organismos extremófilos (Organismos que possuem preferência fisiológica por condições geoquímicas extremas, como altas temperaturas ou acidez extrema). Atualmente reside na Dinamarca como estudante da Universidade de Aarhus, e trabalha na sua Tese de Mestrado no Instituto Max-Planck de Biologia Marinha. Seu trabalho atual foca na bioquímica e fisiologia de bactérias poliextremófilas (Células que possuem preferência não só por uma condição específica, mas por um conjunto de fatores extremos concomitantemente) e como esses microrganismos podem vir a ser usados não somente para compreender como a vida teria se originado no planeta Terra, mas também como o estudo dessa fisiologia única pode vir a levar a criação de novas ferramentas biotecnológicas de grande relevância, nomeadamente para a indústria da construção civil e petroquímica. Andrey Vieira também é um entusiasta da astrofísica e epistemologia, possuindo mais de dez cursos em assuntos relevantes na área de exploração planetária e cosmologia, conferidos por diferentes instituições de pesquisa no Brasil e no mundo inteiro. Como comunicador científico, atuou por dois anos como auxiliar na disciplina de epistemologia da UFF e mediador/bolsista no projeto “Ciência sob tendas” levando a comunicação de ciência e tecnologia para escolas e comunidades carentes no estado do Rio de Janeiro.