Reconstrução do Mecanismo de Antikhytera (Tony Freeth)

A conjugação de robótica, automação, big data e inteligência artificial está a transformar profundamente a sociedade contemporânea. Vivemos num presente onde todos os dias são divulgadas inovações e tecnologias que até há pouco tempo nos pareceriam a mais especulativa ficção científica. Olhamos para trás oe perguntamos como é que os nossos antepassados viviam sem toda a nossa tecnologia avançada. Mas ao olhar profundamente para os tempos que nos precederam, descobrimos que algumas tecnologias que ainda hoje consideramos avançadas já existiram. É o caso dos autómatos, mecanismos robóticos que simulam ações humanas. Uma tradição que nos vem da antiguidade clássica e que encontrou uma expressão surpreendente da Idade Média ao mundo do século XIX

Milagre Mecânico na Catedral

Imaginem que vivem nos dias finais da Idade Média. Sem internet, televisão ou as redes de transportes no mundo globalizado através das quais partilhamos bens, ideias e cultura. Crentes fieis, ouviram falar de maravilhas lá longe, milagres que acontecem na catedral. Percorrem a pé centenas de quilómetros numa peregrinação, por caminhos ínvios e arriscando perigos vários. No fim do caminho, entram num edifício que se parece com algo nunca visto. Mas conta-se que há maravilhas dentro do edifício, que alguns dos santos, como que por magia, se movem.

É muito maior do que a igreja da aldeia ou da cidade de onde partiram. Tem uma arquitetura flamejante, que parece subir aos céus. Cada recanto é um encanto, cheio de pormenores esculpidos na pedra. À luz bruxuleante das velas, contemplam os santos e a arquitetura grandiosa. A atmosfera está pesada com o cheiro a incenso, cânticos ressoam nas naves da catedral apinhada. Penitentes que vierem para expiação dos seus pecados. Na luz difusa, contemplam a estátua que está no altar. De repente, um suspiro varre a multidão: a estátua está a mexer-se! Lentamente, os braços movem-se em posição de piedade, a cabeça vira-se e parece olhar-nos profundamente, os pés dão passos. Será um milagre? Será magia?

Monge Animatrónico

Estrutura interna do monge animatrónico.

O uso de mecanismos robóticos como forma de deslumbrar os crentes nas catedrais medievais quase foi esquecido. E.R. Truitt, no seu livro Medieval Robots, fala-nos do uso de autómatos para criar efeitos e surpreender os visitantes. Nos grandes centros religiosos, era comum haver estátuas com mecanismos internos que animavam figuras de santos ou representações de penitentes. Esta tendência esteve em voga na Europa do final da idade média. Acabou por se desvanecer quando o efeito-surpresa se perdeu, e o público deixou de se encantar com o aparente milagre. A maior parte destes proto-robots perdeu-se, sobrevivem muitos poucos preservados em museus.

Mecanismo da cabeça do monge, visto por raio X.

O Monge animatrónico é um desses raros exemplos. Não nos chega da Idade Média, datando do século XVI. Terá sido encomendado pelo imperador Carlos V, para pagar uma promessa pela melhoria da saúde do seu filho, ao relojoeiro espanhol Juanelo Turriano. Este robot é uma máquina simples mas engenhosa. Os seus mecanismos permitem-lhe mover os pés, mexer a boca, rodar a cabeça e virar os olhos. Os braços elevam-se e descem, simulando o sinal da cruz. A criatividade mecânica por detrás desta criação foi enorme. Recordando Truitt, aquilo que hoje nos parece uma maravilha isolada foi à época algo tão comum, que se esqueceu por ser banalizado. Felizmente, este raro exemplo de proto-robótica sobreviveu, e está preservado no Smithsonian. É um de cerca de três autómatos medievais que chegaram aos dias de hoje.

Robótica Mitológica na Antiguidade Clássica

Imagiologia aplicada aos vestígios arqueológicos (Antikythera Mechanism Research Project)

Esta história indicia que os primórdios da automação e robótica não são recentes. Os nossos correntes avanços nesse domínio são impressionantes, mas inserem-se numa linha de tradição milenar: o de tentar insuflar a aparência de vida em objetos inertes. Os primeiros exemplos chegam-nos da mitologia grega. Encontramos histórias como a de Talos, o guardião de bronze que protegia a ilha de Creta de piratas, ou as servas douradas de Hephaestus, deus grego da metalurgia, que nas suas forjas debaixo do monte Etna forjava mecanismos para outros deuses e armas para os mortais favorecidos pelos deuses do Olimpo. O mito de Galateia, uma estátua tão perfeita que o seu escultor por ela se apaixona e a quem Zeus dá vida, é outro exemplo vindo do substrato cultural da antiguidade clássica.

Para além dos mitos, sabemos hoje que os gregos antigos eram capazes de construir mecanismos complexos. Este não sobreviveram ao passar dos milénios, mas há vestígios arqueológicos que comprovam as capacidades da engenharia grega. O mais famoso destes é o mecanismo de Antikythera. É considerado como um dos primeiros dispositivos de computação que se conhece, um intricado mecanismo de relojoaria capaz de calcular a posição dos astros. Foi descoberto através de vestígios de mecanismos incrustados em rochas sedimentares encontrados num barco grego naufragado há dois mil anos. Um artefato que permaneceu misterioso durante muitos anos, até as recentes técnicas de imagiologia avançada terem permitido visualizar e reconstruir em 3D os seus mecanismos.

Das Maravilhas da Idade Média à Relojoaria Barroca

Da idade média chegam-nos os esquecidos santos animados, ou relatos de maravilhas mecânicas nas cortes orientais. Pássaros que batem as asas e chilream, servos mecânicos, ou uma orquestra constituída por um harpista, um flautista e dois bateristas, são descritos naquele que provavelmente é o primeiro livro sobre robótica da história: o Kitab fi ma ‘rifat al-?iyal al-handasiyya, publicado em 1260 pelo sábio árabe Al-Jazazi

Leonardo DaVinci criava autómatos e peças animatrónicas para os seus mecenas renascentistas. Há relatos de mecanismos animados usados como objetos decorativos de luxo pela nobreza, especialmente nos jardins dos palácios. Os intricados relógios das cidades europeias, com as figuras animadas em movimentos complexos, são outra forma deste tipo de proto-robótica. A criação de autómatos com mecanismos de relógio atingiu níveis de excelência inauditos nos séculos XVII e XVIII, com os autómatos de Vaucason, ou as criações dos irmãos Drozs. Sobreviveram até aos nossos dias, preservadas e a funcionar em museus.

A robótica avançada dos dias de hoje tem as suas raízes nas elegantes construções mecânicas do passado. O sonho de criar seres artificiais, com o engenho humano a sobrepor-se ao sopro divino, parece vir-nos da noite dos tempos. Não nos é difícil imaginar o espanto dos nossos antepassados ao ver uma estátua a mover-se, como por milagre, dentro de uma catedral. Basta espreitar a tecnologia desenvolvida pela Boston Dynamics, uma das ais avançadas empresas na vanguarda da robótica, para sentir o misto de espanto, fascínio e alguma empatia com o mecanismo que os nossos antepassados certamente sentiram.

Aceite o nosso convite e leia o artigo Do Unimate ao Baxter: Sete Magníficos Robots.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.