Padrões de ativação cerebral (Smalls et al).

Os media digitais tornaram-se parte integrante do nosso dia a dia. É através deles que interagimos com o mundo, comunicamos, consumimos e produzimos informação. E poderão estar a alterar-nos ao nível neurológico nas formas como pensamos. Nos anos 60 do século XX, Marshall McLuhan intuiu que as ferramentas que criamos modificam-nos profundamente. A ciência contemporânea mostra-nos dados intrigantes. Os utilizadores intensivos de tecnologia digital pensam de forma diferente, ativando áreas cerebrais de forma mais intensiva. A memória modifica-se, passámos a utilizar os meios digitais e a internet como repositório de conhecimento. Os dados científicos apontam para o aforismo de McLuhan: modelamos as nossas ferramentas, e posteriormente as nossas ferramentas modelam-nos. Criámos o digital, e este transformou-nos.

The Media is the Message

Ver o futuro ao espelho retrovisor (Quentin Fiore)

Entre os anos 60 a 80 do século XX, um grupo de teóricos dos media começou a analisar os impactos sociais da televisão. À época, esta era o media eletrónico por excelência. Inadvertidamente, deram origem a um conjunto de ideias que se veio a aplicar naquele que se tornaria o meio eletrónico de comunicação dominante, a internet. Harold Innis, Marshall McLuhan ou Neil Postman fizeram parte de um grupo de analistas que dissecou as transformações que os media provocavam nas nossas formas de ver, pensar e atuar. Ideias que hoje aplicamos à cultura digital, como a fragmentação, amplificação de tendências, bolhas de informação ou globalização cultural, nasceram do trabalho destes autores.

Marshall McLuhan tornou-se o mais conhecido, muito por culpa do seu pendor por usar frases curtas e bombásticas para provocações intelectuais profundas. Legou-nos muitas ideias que hoje continuam influentes. A mais conhecida é o conceito de aldeia global. Algo que, para quem escrevia nos primórdios da era digital, era possibilitada pela confluência da rádio, imprensa e televisão, o que designava de electric media. Outro mcluhanismo influente é o retrovisorismo (a expressão em inglês funciona melhor, rear view mirror). Este conceito designa a nossa capacidade de antecipar o futuro assente numa extensão do passado, um olhar ao retrovisor. Outra das suas ideias influentes fala-nos das tecnologias como extensões do corpo e capacidades humanas.

Estas ideias foram exploradas em livros marcantes e intelectualmente provocadores como War and Peace in the Global Village, A Galáxia Gutenberg ou The Media is The Massage. Este último é um dos mais belos livros produzidos no século XX, um tour de force de ideias provocadoras ilustradas pelo design gráfico marcante de Quentin Fiore. Ideias e imagem em conjugação perfeita, incorporando o espírito dos insights de McLuhan.

As Nossas Ferramentas Modelam-nos

O digital como extensão do intelecto (Quentin Fiore)

Um dos insights mais provocadores de Marshall McLuhan (e teve bastantes) é o conceito de que os media que utilizamos modificam profundamente a forma como pensamos. Algo que, com habilidade linguística de um estudioso dos media amante da literatura e fã de James Joyce, postulou com a imortal frase modelamos as nossas ferramentas, e posteriormente as nossas ferramentas modelam-nos. Uma intuição que McLuhan explorou intensivamente na sua obra, mostrando que as tecnologias que fomos criando ao longo da história foram mais do que simples utensílios. Mudaram comportamentos, formas de pensar, culturas e organizações sociais. Não são processos lineares. Ganhamos novas competências, mas perdemos outras. A constante é a mudança, e nos tempos contemporâneos, a velocidade com que a tecnologia nos leva a mudar.

Talvez o uso de novos media possa alterar a forma como pensamos ao seu nível mais fundamental, o neurológico. No entanto, McLuhan era um teórico dos media, um futurólogo acidental cujas palavras encontraram na era digital uma câmara de amplificação, mas que refletia sobre imprensa, rádio e televisão. Analisou o impacto histórico dos media, mas não o cognitivo e biológico. Para isso, é necessária a contribuição de outras áreas. O que é que a ciência dura nos pode dizer sobre isto? Haverá mesmo alterações no nosso cérebro, induzidas pelas transformações dos media que utilizamos?

Em ciência, nunca há um sim imutável. Há dados que se avolumam em teorias, que ajudam a explicar melhor os fenómenos observáveis no real. Como leigos, procuramos nela respostas taxativas, verdades absolutas, mas a verdadeira ciência não nos dá isso. Dá-nos pistas, indicadores, ideias que não são certezas, podendo ser alteradas com o input de novos dados, mas que nos levam a refletir de forma informada.

O Digital e o Cérebro

Voltemos à ideia mcluhanista de que as ferramentas que usamos modificam a forma como pensamos. O que é que a ciência nos pode dizer? O estudo Your Brain on Google: Patterns of Cerebral Activation during Internet Searching dos investigadores Gary Small, Teena Moody, Prabha Siddarth e Susan Bookheimer levanta questões intrigantes. Sendo de 2008, é relativamente recente. Nele, o grupo de investigadores mediu a atividade cerebral dos seus sujeitos de investigação utilizando fMRI, técnica de imagiologia que permite obter em tempo real imagens do que se passa no interior do cérebro, sendo possível mapear que áreas cerebrais se ativam durante uma dada tarefa.

Resumindo muito esta investigação, os cientistas dividiram os seus sujeitos em dois grandes grupos. Um com pessoas pouco habituadas ao uso de internet, e outro com pessoas muito habituadas a este tecnologias. Foram-lhes dadas duas tarefas cognitivas, ler um texto e efetuar uma pesquisa online. As conclusões, medidas através de imagiologia, foram surpreendentes. As regiões cerebrais ativas durante as tarefas eram diferentes para cada grupo de sujeitos. Para mais, nas atividades de pesquisa online, os sujeitos habituados a usar media digitais mostraram sensivelmente o dobro das ativações das áreas cerebrais durante o desempenho da tarefa de pesquisa online, em relação aos utilizadores mais tradicionais. Um pormenor curioso: este estudo é na área da geriatria e foi feito com residentes de lares de terceira idade.

O Cérebro e o Digital

Padrões de ativação cerebral (Smalls et al).

Estas conclusões dão que pensar. Sugerem que os utilizadores de media digitais pensam de forma fundamentalmente diferente daqueles que usam media clássicos. Um pensar diferente que não se traduz ao nível das ideias, mas ao nível elementar da biologia cerebral. Vivendo como vivemos numa era saturada de media, especialmente nas novas gerações, para quem o digital é um elemento fundamental da sua identidade, é impossível não concluir que o uso dos media digitais, da internet, mudou mais do que a nossa economia e sociedade. Alterou radicalmente a nossa forma de pensar. Este foi um estudo exploratório, com uma amostra pequena. Requer aprofundamento noutros campos de investigação, mas aponta para uma base neurológica para a intuição de McLuhan. Este alicerçou a sua intuição na história da tecnologia e costumes. A ciência deu-nos provas tangíveis, medidas por imagiologia com fMRI.

Memória Digital Externa

Outra maneira subtil como a internet altera os nossos comportamentos relaciona-se com a forma como utilizamos a memória. Tradicionalmente, sempre colocámos grande importância na memorização de conhecimentos. Mas, o que é que acontece quando dispomos de meios digitais que nos permitem rapidamente obter respostas, pesquisando factos na internet? O estudo Google Effects on Memory: Cognitive Consequences of Having Information at Our Fingertips de Betsy Sparrow, Jenny Liu, e Daniel M. Wegner dá-nos algumas pistas interessantes.

A investigadora mostra-nos como a internet se tornou um poderoso elemento do que se chama memória transitiva. Este tipo de memória refere-se não ao que memorizamos, mas ao que sabemos onde encontrar. É algo comum nas relações sociais e organizações. Em muitas situações, não precisamos de saber todos os factos, porque sabemos quem tem o conhecimento específico sobre uma determinada área. O que esta investigação nos mostra é que, cada vez mais, usamos a internet como repositório de informação memorizável. É-nos mais útil saber onde encontrar informação, colocando em marcha competências de pesquisa, do que saber toda a informação.

Memorizamos onde e como aceder aos elementos que poderemos vir a necessitar, e não a informação em si. A investigadora observa que “the Internet has become a primary form of external or transactive memory, where information is stored collectively outside ourselves”. Isto sublinha que os meios digitais amplificam mecanismos já existentes na partilha social de informação. Curiosamente, desde o início do século XXI que o escritor e argumentista Warren Ellis se refere aos meios digitais que utiliza como a sua memória externa. Por vezes, a literatura especulativa antecipa-se à ciência.

O Digital, Extensão do Humano

Estes dados sublinham um que temos um grande nível de dependência simbiótica com os nossos dispositivos computacionais. Dando-nos acesso aos bancos de informação online, liberta-nos da memorização elementar e tornam-se memórias coletivas externas. É-nos mais eficiente recordar onde encontrar informação, e não a informação por si. Agilizam formas de pensar, dotando-nos de processos cognitivos neurologicamente diferentes das gerações que nos precederam, ou daqueles que não fazem uso intensivo de tecnologias digitais. O fosso tecnológico deixa se ser o elementar ter ou não acesso à tecnologia, torna-se uma divisão cognitiva e cultural.

Se conjugarmos estes dois conceitos, emergem algumas ideias provocadoras. A internet e os meios digitais, alteram profundamente a forma como pensamos. Uma dessas formas é a externalização da nossa memória. Os dados são relegados à informação online e a memorização passa a basear-se em competências de pesquisa. McLuhan sugeriu que as ferramentas que criamos modificam-nos, como indivíduos e sociedades. A ciência mostra-nos que, de facto, as tecnologias que utilizamos estão a alterar profundamente a forma como pensamos.

Aceite o nosso convite e leia o artigo sobre Autómatos da Idade Média.

Artigo anteriorLago Vostok: um análogo terrestre para a vida extra-terrestre
Próximo artigo100 novos mundos para explorar
Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.