E se pudéssemos ter uma “chuva de estrelas” provocada por acção humana, sempre que quiséssemos? Como fazer chover meteoritos sobre uma cidade, apenas por beleza, para imortalizar o momento, e sem representar nenhum perigo para o nosso planeta? Bom, em 2020 isso vai ser possível: pelo menos em Hiroshima e com os cumprimentos da Astro Live Experiences.

Esta história começou com um lançamento de sete sondas espaciais para órbita da Terra no dia 17 de janeiro, no Japão. Entre essas sondas encontra-se um pequeno satélite que foi desenvolvido para criar deslumbrantes chuvas de meteoros “artificiais”.

Essas cargas chegaram ao espaço a bordo de um foguete Epsilon, que decolou do Centro Espacial de Uchinoura, na ilha japonesa de Kyushu. Tendo tudo corrido conforme o planeado, seguiu-se a instalação em órbita da Terra, a cerca de 500 quilómetros acima do nosso planeta, dessas sondas.

O “novo” Foguetão Epsilon (originalmente um foguetão de três estágios, pesando 91 toneladas e tendo 24 metros de altura, podendo lançar satélites com peso de até 1.200 quilos) , foi lançado pela primeira vez a 14 de Setembro de 2013, levando então a bordo o telescópio espacial SPRINT-A (Hisaki), um satélite da Japan Aerospace Exploration Agency (JAXA), desenvolvido para estudar os planetas do sistema solar a partir da órbita da Terra, nomeadamente Vénus, Marte e Júpiter.

Representação artística do SPRINT-A (Hisaki). Crédito: JAXA

Este lançamento, utilizando a versão 4 do foguetão Epsilon, foi o primeiro daqueles que estão contemplados no Programa de Demonstração Tecnológica de Satélites Inovadores da Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (JAXA), e que tem como objectivo principal testar tecnologia espacial avançada, reforçando a competitividade tecnológica do Japão com as restantes agências mundiais na área da tecnologia de satélites. Estas informações podem ser consultadas no Press Kit emitido pela JAXA.

E desta vez a surpresa chama-se ALE-1…

Na verdade a carga principal do Epsilon era o satélite Rapid Innovative Demonstration Satellite 1 (RAPIS-1), cujo corpo quadrado mede cerca de 1 metro de lado. A JAXA consignou a fabricação e operacionalidade do RAPIS-1 a uma startup – a empresa japonesa Axelspace. O RAPIS-1 tem várias particularidades e uma variedade de tecnologia: por exemplo tem acoplado um painel solar em forma de pá e de membrana fina; pequenos propulsores que usam propelente de baixa toxicidade; um sensor de partículas low-cost; e software de “aprendizagem profunda” que ajudará no controle de altitude e na observação da Terra. Mas não foi esta carga que nos chamou a atenção…

Entre os seis satélites inclui-se o ALE-1, que foi construído pela empresa Astro Live Experiences, com sede em Tóquio. O ALE-1 tem 24 polegadas de comprimento por 24 polegadas de largura por 31 polegadas de altura (60 por 60 por 80 centímetros) e leva “embaladas” partículas de 0,4 polegadas de largura (1 cm) projetadas para criar um espetáculo no céu quando descem pela atmosfera da Terra .

Exactamente o que é que isto significa?

O ALE-1, bem como as restantes sondas de acompanhamento vão “investigar a viabilidade  para criar meteoritos artificiais com vista à sua comercialização”. Apesar do satélite que os vai lançar não começar a realizar experiências em menos de um ano, porque ainda é necessário juntar-lhe um dispositivo que o ajudará a mudar de altitude em cerca de 100 km, para poder realizar os shows “por encomenda”.

Ficou determinado então que esse shows se irão realizar na primavera de 2020, sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Pretende-se que estes meteoritos artificiais sejam visíveis   para mais de 6 milhões de pessoas, numa região com a extensão aproximada de 200 milhas (cerca de 320 km) de largura, segundo foi explicado pela Astro Live Experiences.

Nessa altura, os dois micro-satélites irão libertar pequenas bolas que brilham intensamente quando entram na atmosfera, simulando uma chuva de estrelas.

Enquanto o ALE-1 é um satélite (cubesat) de estudo, para ver se esta tecnologia resulta, os verdadeiros lançadores de estrelas serão colocados no Espaço em Março deste ano, e o segundo por volta do Verão. E cada destes micro-satélites poderam carregar 400 “bolinhas-estrela”, cuja fórmula química a empresa naturalmente se recusa a clarificar.

Estima-se que 400 bolas sejam suficientes para animar 20 a 30 eventos “on demand”. Mas outra novidade surpreendente é que a empresa também sugeriu o aproveitamento futuro de satélites que já estão no Espaço a realizar outras missões, para “criar estrelas gigantes”.. Esta ideia foi sugerida pelo Engenheiro-Chefe da ALE, Ko Kamachi, acrescentando contudo que esta ideia ainda se encontra em fase de pesquisa básica.

Sabe-se também que será possível fazer pequenas alterações aos ingredientes base que constituem essas bolas-estrela, para as fazer mudar de cor, oferecendo inclusivamente a possibilidade de criar “frotas” de meteoritos de várias cores.

Sem muito mais informações, aquilo que sabemos é que não só estes shows não representam nenhum perigo para a Terra, como também não serão baratos. A operação de estudo destes meteoritos artificiais está estimada em 20 milhões. E portanto, quem diz que a beleza não sai caro???

Veja aqui o esquema da Missão dos Cubesats e o lançamento do Epsilon:

***Aceite a sugestão do Bit2Geek e leia Robots já começaram a substituir humanos nos supermercados.

NOTAS:

O Bit2Geek tem convidado cientistas (portugueses e estrangeiros), que têm sido anunciados nos artigos anteriores, para começarem a assinar textos de divulgação sobre os assuntos que nos interessam, e que possam esclarecer os leitores sobre a revolução espacial que estamos a viver… Passará a fazer parte da equipa do Bit2Geek, a ANA AFONSO, que tem uma coisas muito interessantes para nos explicar… Obrigado, Ana!

A ANA AFONSO é Doutorada em Astronomia e Astrofísica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. A Ana trabalha, actualmente, como cientista de investigação júnior no Instituto Max-Planck para a Física Extraterrestre (MPE – Garching bei München, Alemanha). A sua investigação, dentro da colaboração international HETDEX (Hobby-Eberly Telescope Dark Energy Experiment), foca-se em encontrar maneiras de “iluminar” o Universo, isto é, através da descoberta e do mapeamento de galáxias entender o que é a energia e a matéria escura e quanto é que o Universo expandiu nos diversos momentos em que é possível olhar para trás. Para além das galáxias, nutre um especial interesse pelos estágios iniciais de formação estelar (projecto de licenciatura no qual fez uso de dados do telescópio espacial Spitzer da NASA), pelo papel dos quasares na astrometria (tese de mestrado ligada à missão espacial Gaia da ESA) e pelos asteróides próximos da Terra (mais conhecidos pela sigla em inglês NEAs). Em 2014, durante as suas observações no Telescópio Isaac Newton em La Palma – Espanha, ajudou a descobrir e a confirmar um das dezenas de milhares de NEAs que se estimam existir.