Primeiras evidências científicas

A presença de água em forma líquida nas luas de Júpiter não são novidade. De facto, desde a década de 1970, quando as sondas Voyager fizeram o seu primeiro contacto fotográfico com a superfície de Europa, muitos cientistas levantaram a hipótese da presença de oceanos de água líquida sob a superfície gelada.

Europa, a sexta lua mais próxima de Júpiter. Crédito da imagem (NASA/JPL/Ted Stryk)

São aliás evidências geológicas e visuais que levaram a essa interpretação. Para melhor explorarmos esse argumento vejamos outros corpos no nosso sistema solar. A nossa lua por exemplo possui inúmeras crateras de origem meteórica, assim como Marte, a Terra e Mercúrio. No planeta Terra não conseguimos ter dimensão da extensão do bombardeamento, pois temos algo que a maior parte dos planetas e luas do nosso sistema solar não possuem: Um núcleo ativo e placas tectónicas.

Mas superfície de Europa é praticamente lisa

Europa Lua
Crédito:NASA/PIA20028 Europa Surface

Quando as sondas Voyager nos enviaram as suas primeiras imagens de Europa, percebemos que sua superfície era praticamente lisa, muito semelhante à superfície terrestre.

O que só podia significar duas coisas; ou Júpiter e seu imenso campo gravitacional atrai a maior parte dos corpos celestes para sí. Desta forma, protegendo Europa de impactos de meteoros. Esta opção fora rapidamente refutada visto que outras luas de Júpiter como Callisto e Ganymede possuem inúmeras crateras de impacto em sua superfície (ver a imagem seguinte). Ou, assim como a Terra; Europa possuía actividade vulcânica presente; e talvez, tectónica de placas, o que neste caso, seria interessante do ponto de vista da astrobiologia.

Luas de Galileu. Io, Europa, Ganymede e Callisto. A superfície de Europa é claramente mais lisa do que a dos outros satélites. Crédito da imagem (NASA/JPL/DLR)

Os mistérios de Europa estão a revelar-se aos poucos…

Em 2014, quando o telescópio Hubble da NASA analisou novamente a sua superfície, tivemos uma grande surpresa. Grandes áreas emanando calor foram encontradas. Mas não somente a diferença de temperatura destes pontos quentes, ou “hotspots” intrigou os cientistas. Grandes géiseres eruptivos foram encontrados associados a estes hotspots. Corroborando a hipótese de que Europa possui atividade vulcânica suficiente para derreter  o gelo com temperaturas inferiores a 200°C negativos.

Além das evidências de água líquida e actividade vulcânica; outro aspecto tornou-se bem atrativo em relação a possibilidade de vida em Europa. Quando analisadas mais cuidadosamente, as famosas linhas avermelhadas na superfície lunar indicam a presença de compostos inorgânicos oxidados. O JPL, Laboratório de Propulsão a Jato da NASA tem conduzido uma série de experiências para tentar entender a relação entre radiação e oxidação em cristais de sal. Mesmo em estado especulativo, talvez essa oxidação possa vir a fornecer compostos químicos úteis à manutenção de ambientes potencialmente habitáveis na subsuperfície de Europa.

Os semelhantes atraem-se!

No planeta Terra, os últimos quarenta anos foram fascinantes para o estudo de organismos extremófilos. Hoje sabemos que não só existe vida nas fumarolas submarinas ou “hydrothermal vents”, como a mesma é florescente e diversificada (imagem 03). Estas estruturas trazem compostos químicos como Metano (CH4), Enxofre (H2S; S2-) e hidrogênio molecular para a superfície, permitindo a manutenção de todo um ecossistema submarino em condições de temperatura, pressão e acidez extremas.

Fumarolas oceânicas suportam uma grande diversidade animal e microbiana. Crédito: (NOAA, Pacific Marine Envoronmental Laboratory)

Para que hajam fumarolas submarinas só precisamos de dois ingredientes: vulcanismo e água em estado líquido. Europa muito provavelmente possui os dois. Logo, é apenas uma questão de tempo, até que Europa nos contemple com a resposta de um dos maiores mistérios que já assolaram a raça humana. Existe vida fora do planeta Terra? Matematicamente, sem sombra de dúvidas. Mas talvez essa resposta esteja mais próxima do que imaginamos. Bem ali, numa ínfima distancia cósmica em uma das luas de Júpiter, nosso grande vizinho planetário.

Crédito: Washington Post

 

Enquanto isso, ficaremos na expectativa dos primeiros dados da quinta missão para Europa. A Clipper, da NASA, será lançada em 2023 para estudar o oceano líquido desta lua.

***Aceite a sugestão do Bit2Geek e leia Vestígios orgânicos no sistema solar são mais abundantes do que se pensava…

NOTAS:

O Bit2Geek tem convidado cientistas (portugueses e estrangeiros), que têm sido anunciados nos artigos anteriores, para começarem a assinar textos de divulgação sobre os assuntos que nos interessam, e que possam esclarecer os leitores sobre a revolução espacial que estamos a viver… Passará a fazer parte da equipa do Bit2Geek, o Bruno Ribeiro, que nos vai surpreender com as suas investigações. Obrigado, Bruno!

Bruno Ribeiro é doutorado em Astronomia e Cosmologia pela Universidade de Aix-Marseille em França e, actualmente, trabalha como investigador de pós-doutoramento no Observatório de Leiden na Holanda. Membro das colaborações internacionais como o VUDS (VIMOS Ultra-Deep Survey) e o MUSE (Multi-Unit Spectroscopic Explorer), nomes de instrumentos instalados no Very Large Telescope do ESO, passa muitas horas a obter, trabalhar e a entender o que as impressões digitais das galáxias (os espectros) e as suas formas nos dizem sobre a sua natureza e os seus constituintes. Perceber como se formaram e evoluíram as galáxias, principalmente nas fases iniciais da história do Universo, é um dos seus maiores interesses. Neste momento, o Bruno foca-se em combinar esforços entre os vários telescópios terrestres e espaciais, no qual se destaca o telescópio espacial Hubble, para, através de exposições muitos longas, detectar e estudar galáxias nos primeiros 3 mil milhões de anos do Universo. Estas serão cruciais para puxar pela ciência que será possível fazer telescópio espacial James Webb (NASA e ESA) e entender o nosso lugar no cosmos.

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Andrey Vieira é brasileiro, natural do Rio de Janeiro. É licenciado em ciências biológicas pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com enfoque em bioquímica e Geoquímica Orgânica. Durante sua graduação foi selecionado como estudante de alta performance para poder realizar um intercâmbio académico na Universidade Estadual de Montana, nos Estados Unidos, na área de Astrobiologia, Origem da Vida e Biogeoquímica. Essa escolha acabou por lhe render uma oportunidade de trabalho como assistente de pesquisa no NAI (NASA Astrobiology Institute) no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Durante o tempo de pesquisa no MIT, o Andrey realizou uma série de estudos sobre o funcionamento das moléculas que conferem resistência a altas temperaturas em organismos extremófilos (Organismos que possuem preferência fisiológica por condições geoquímicas extremas, como altas temperaturas ou acidez extrema). Atualmente reside na Dinamarca como estudante da Universidade de Aarhus, e trabalha na sua Tese de Mestrado no Instituto Max-Planck de Biologia Marinha. Seu trabalho atual foca na bioquímica e fisiologia de bactérias poliextremófilas (Células que possuem preferência não só por uma condição específica, mas por um conjunto de fatores extremos concomitantemente) e como esses microrganismos podem vir a ser usados não somente para compreender como a vida teria se originado no planeta Terra, mas também como o estudo dessa fisiologia única pode vir a levar a criação de novas ferramentas biotecnológicas de grande relevância, nomeadamente para a indústria da construção civil e petroquímica. Andrey Vieira também é um entusiasta da astrofísica e epistemologia, possuindo mais de dez cursos em assuntos relevantes na área de exploração planetária e cosmologia, conferidos por diferentes instituições de pesquisa no Brasil e no mundo inteiro. Como comunicador científico, atuou por dois anos como auxiliar na disciplina de epistemologia da UFF e mediador/bolsista no projeto “Ciência sob tendas” levando a comunicação de ciência e tecnologia para escolas e comunidades carentes no estado do Rio de Janeiro.