Morbase
Digitalização por Fotogrametria aérea (Morbase/Geodrone)

A preservação digital do património utilizando tecnologias 3D é uma prática bem estabelecida. Utilizando tecnologias de digitalização 3D, por vezes combinadas com impressão 3D, é possível preservar digitalmente artefatos e vestígios arqueológicos. Em Portugal, o projeto Morbase representa uma boa prática neste domínio, trazendo o património do concelho de Montemor o Novo em 3D para a internet.

Um Projeto Discreto

 

O acaso, e os padrões ocultos na aleatoriedade que os algoritmos são tão bons a detetar, tem destas coisas. Há uns tempos atrás estava a fazer upload para o Sketchfab de alguns projetos 3D desenvolvidos com alunos e professores no âmbito da pré-história. Digitalizamos, utilizando fotogrametria, artefatos líticos de várias regiões portuguesas, e partilhamos o resultado com a comunidade. Esta não é das técnicas de digitalização 3D mais simples. Mas é a acessível numa escola onde não há orçamento para scanners 3D portáteis. Enquanto enviava e catalogava os nossos modelos 3D no Sketchfab, reparei que iam surgindo sugestões de conteúdo 3D dentro do mesmo tema. Um modelo de anta fez-me parar para observar. Tive alguma incredulidade em perceber que era de um vestígio arqueológico português. Cá também se faz disto, pensei? Foi assim que descobri o projeto Morbase.

Digitalizar em 3D para Preservar

A preservação digital de artefatos arqueológicos é hoje uma prática bem estabelecida entre aqueles que estudam a história. Digitalizar artefatos permite estudá-los sem risco de os danificar, ou utilizar meios virtuais para experiências. E, como recentemente se assistiu na Síria com a destruição intencional de vestígios arqueológicos romanos por fanáticos do estado islâmico, pode ser uma forma de os preservar em caso de destruição. Alguns anos atrás, os talibãs afegãos fizeram algo similar quando derrubaram as milenares estátuas budistas de Bamiyan à força de tiros de tanque. Perdas irremediáveis para o património cultural da humanidade, que a preservação digital pode mitigar.

Há muitos projetos que utilizam intensivamente tecnologias 3D nos domínios do património. Já cobrimos alguns aqui no Bit2Geek, caso das esculturas da Galleria Degli Uffizi disponíveis em 3D, a análise de ruínas maias recorrendo a Lidar, ou a visualização não invasiva do interior de manuscritos danificados. Não são casos únicos. Grandes museus de referência, como o Louvre ou o British Museum, disponibilizam digitalizações de alta qualidade nas suas páginas, ou em repositórios como o Sketchfab ou o Europeana. Para quem disponha de acesso a impressoras 3D, é possível descarregar muitos destes modelos e imprimir à escala, para se ter um melhor conhecimento do património cultural.

A sua utilidade não é meramente decorativa. É fácil compreender o impacto educacional de poder segurar numa estátua impressa em 3D, sentindo a volumetria de formas que a visualização de imagens bi e tridimensionais não nos dá. Outros projetos utilizam estas tecnologias para reconstruir virtualmente ruínas, ou perceber como seriam a cores policromáticas da estatuária antiga. A mais recente adição à longa lista destes projetos é a Google. Juntou-se à Stratasys para produzir impressões 3D de alta qualidade de artefatos históricos com o projeto Open Heritage.

Morbase: Património Local em 3D

O que surpreende no Morbase é descobrir que, por cá, também há projetos destes. Provavelmente, nos meios académicos de investigação universitária, haverá outros, mas ainda não demos com eles. Este projeto não se resume ao 3D. De acordo com os seus promotores, é “a plataforma online de divulgação do património histórico e cultural do concelho de Montemor-o-Novo. Através desta plataforma, o Município de Montemor-o-Novo disponibiliza em acesso livre documentários, exposições online, artigos científicos e uma base de dados de património móvel e material com origem no concelho“. O município é o seu principal dinamizador, que conta com algumas empresas parceiras.

Para o utilizador comum, a face visível do Morbase é a sua biblioteca digital e museu virtual. Este permite consultar em linha parte do espólio de relevo histórico, arqueológico, antropológico ou etnográfico do concelho. No seu site, podemos encontrar digitalizações 3D e vídeos que documentam tradições ou mostram reconstituições do património arquitetónico concelhio. Outra forma de ficar a conhecer a riqueza deste projeto é através do Sketchfab. Este serviço web de partilha e visualização de conteúdo 3D é utilizado ao máximo das suas capacidades pelo Morbase. Os modelos 3D são de alta qualidade, anotados e com navegação através de diversos pontos de vista. Isto permite aos utilizadores um conhecimento aprofundado dos artefatos. São compatíveis com dispositivos de realidade virtual, tornando-se outra forma de visualizar o conteúdo da Morbase e descobrir o património de Montemor o Novo.

Parcerias Tecnológicas

O potencial da Morbase tem sido desenvolvido graças a entidades parceira. Estas contribuem com a tecnologia para que a digitalização do património local seja possível. A Sketchfab é uma delas, graças à sua tecnologia de partilha de conteúdo 3D na web. O trabalho de arqueologia e museologia é desenvolvido com a Cromeleque. Esta é uma empresa local, dedicada a serviços na área da investigação científica em história. Também são uma das principais responsáveis pela digitalização 3D artefatos, e gestão da plataforma.

Outro contributo visível é o da Geodrone. Esta empresa portuguesa de sistemas de informação geográfica está sediada em Almada. É especialista no uso de drones para mapeamento, cartografia, levantamentos fotográficos, modelos digitais de superfície e análises de dados para ordenamento do território, estudos ambientais e urbanismo. São, tal como a Cromeleque, responsáveis pela digitalização 3D na Morbase. A sua tecnologia trata desde os pequenos artefatos, à captura aérea por fotogrametria de elementos do património arquitetónico.

O Morbase coloca na internet o património cultural e arquitetónico do concelho de Montemor o Novo. Este projeto mostra o potencial das tecnologias 3D nos domínios da preservação do património. E tem o gosto adicional de ser desenvolvido por técnicos e empresas portuguesas. Recomenda-se vivamente uma visita, para ficar a conhecer o que se faz por cá nestes domínios.

Aceite o nosso convite e leia o artigo Arquitetura, a Nova Fronteira da Impressão 3D.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.