Já tinha falado sobre o XPrize recentemente. Mas isso foi sobre um prémio que foi efectivamente atribuído, numa corrida que resultou porque houve um vencedor. Mas também há “corridas” sem vencedores, que são as corridas “falhadas”! Ou talvez não seja bem assim esta “coisa” do falhadas… Talvez as corridas mais importantes, são justamente aquelas que não têm vencedor ou seja, aquelas que aparentemente “falham”…

Tal como tinha explicado anteriormente e resumindo, a Fundação X Prize, administrada por Peter Diamandis, fundador e Presidente Executivo da Singularity University, organiza corridas que se pretende que possam vir a originar “revoluções” tecnológicas! Como o Ansari X Prize de que falei no artigo anterior: este X Prize foi uma competição espacial, em que a Fundação X Prize oferecia 10 milhões à primeira empresa não-governamental a lançar uma nave espacial reutilizável para o Espaço, duas vezes durante a mesma semana. Esta corrida foi lançada em 1996 e recebeu o nome Ansari porque foi financiada pelos multimilionários Anousheh Ansari e Amir Ansari.

A corrida foi ganha pelo Tier One Project, desenhado por Burt Rutan, quando este usou o SPaceShipOne com financiamento de Paul Allen, co-fundador da Microsoft, a 4 de Outubro de 2004.

Veja-se aqui a breve explicação de Peter Diamandis, em 2008, sobre o lançamento desta corrida:

E o que aconteceu com o Google Lunar X Prize? Falhou?

Falhar, não falhou… Mas não houve ainda vencedores! E o concurso já terminou. Independentemente disso, os últimos 5 concorrentes continuam a correr uns contra os outros, furiosamente. E porquê?

Explicando melhor: O Google X Prize, por vezes falado (na minha opinião erradamente) como o prémio “Moon 2.0”, foi uma competição/corrida lançada entre 2007/2018, organizada pela X Prize Foundation e financiada pelo Google. O objectivo? Desafiar empresas privadas a pousar na Lua, colocando na sua superfície um rover que conseguisse percorrer uma distância de 500 metros e transmitir vídeo e imagens em HD, de volta para a Terra.

Para os vencedores, a Google tinha reservado 30 milhões de dólares. Em concreto US$20 milhões para o primeiro prémio, US$5 milhões para o segundo lugar, US$4 milhões para um bónus técnico/tecnológico e US$1 milhão para um prémio de mérito.

A X Prize anunciou que iria extender a competição até 31 de Março de 2018. Houve fusões entre concorrentes pelo meio, como forma de robustecer a sua participação.

Ao entrar de 2018, restavam 5 equipas das 33 iniciais: A Space IL, israelita, fundada em 2011 e com um budget de 95 milhões, para concorrer ao X Prize com ajuda de financiadores privados e da Israel Space Agency, mais conhecida por Sochnut HaChalal HaYisraelit.

Moon Express says Hello!

Também “sobrou” a Moon Express, americana, formada por um grupo de investidores de Silicon Valley e de empreendedores do Espaço. Desenvolveu-se a partir de 2010, tentando apanhar boleia do Lunar X Prize, e é uma aposta ambiciosa: posicionar-se como eventual empresa de mineração na Lua, criando para isso uma base lunar onde pudesse vir a explorar o Nióbio (metal super-raro na Terra tendo o Brasil o seu principal monopólio.  É utilizado em ligas metálicas que têm que resistir a altas temperaturas e é muito procurado para a construção de aviões e reactores de foguetões espaciais); O Disprósio elemento altamente magnético, e que é utilizado nos reatores nucleares, e o Iridio, metal fortemente resistente à corrosão, utilizado em contactos de ignição, luzes Led, óculos escuros caros, componentes de lasers que cortam metal, radiografia industrial e tratamento do cancro.

Sobre os seus projectos de Arrive, Prospect and Return com o Lunar Scout podemos ver nos vídeos/simulações da sua página.

Há outro pormenor: a Moon Express foi fundada dentro do NASA Ames Research Center, onde esteve sediada entre 2010 e 2015, altura em que se mudou para a Florida, mais propriamente para Cape Canaveral. E é também uma das empresas escolhidas pela NASA para participar no Programa “Commercial Lunar Payload Services”, o que é como quem diz que será uma das empresas a ganhar contratos com alguma regularidade, tendo à partida garantido o seu financiamento… Ou seja, no que diz respeito aos americanos, esta é a “equipa da casa”!

Aliás foi a primeira empresa privada a receber da FAA (Federal Aviation Administration), a aprovação para entregar cargas comerciais na superfície da Lua, o que faz da Moon Express a primeira companhia a ter autorização para ultrapassar a órbita da Terra, de acordo com as imposições do Outer Space Treaty.

Nesta competição houve muitas fusões…

A competição Google Lunar X Prize começou com 33 participantes e acabou apenas com 5 (tal como já expliquei), sem que nenhum tivesse conseguido arrecadar o prémio.

Desses 5, além da Space IL e da Moon Express, também a Team Synergy Moon chegou ao fim… Este player é o exemplo acabado dos efeitos colaterais do Lunar X Prize: em 2010 a InterPlanetary Ventures junta-se à InterOrbital Systems para lançar um concorrente único ao Lunar X Prize, chamado Synergy Moon.

Em Dezembro de 2016, com o final à vista, alguns dos concorrentes iniciais do Lunar X Prize perceberam que não iriam ser capazes de tentar disputar o prémio, e juntaram-se à Team Synergy Moon: falamos da Team Stellar (Croácia/Australia), Team Omega Envoy (USA), Team Space META (Brasil) e a Team Independence-X (Malásia).

Agora, todos juntos, são a Synergy Space Explorers!!! Mas as fusões ainda não acabaram, apesar da corrida ter chegado ao fim… Presentemente existe outro anúncio de fusão, entre a Synergy Moon e outro dos 5 “restantes”, com vista a começarem operações na Lua já em 2019. Falo da TeamIndus mas não só…

A TeamIndus ia conseguindo…

A TeamIndus é outro dos sobreviventes, e dos últimos 5 a chegar ao fim, ou melhor, a manter-se na corrida até ao fim, sem ter desistido.

Estando incorporada na Axiom Research Labs indiana foi constituída para em 2010 começar a concorrer ao Google Lunar X Prize. A TeamIndus é apoiada pela Indian Space Research Organization (ISRO), que é a agência espacial da India. A TeamIndus negociou com Synergy Space Explorers para juntar o knowhow do seu lander HHK1 e do seu rover ECA (abreviação de Ek Choti si Asha que significa “Uma pequena Esperança”), mas sem sucesso.

Além disso há outro pormenor: a TeamIndus foi a única que estava preparada para efectivamente lançar o lander lunar e o rover, mas não conseguiu angariar fundos suficientes para efectivar o lançamento ou transporte até à Lua, pelo que falhou em tempo útil.

Meet Team Hakuto…

Também chega ao fim com os últimos 5 a Team Hakuto, japonesa, que quer pousar na Lua o seu rover Sorato (ou Coelho Branco) em 2020, sendo o rover entregue pela Astrobotic Technology a bordo de um Atlas V.

Antes da competição acabar, a Team Hakuto e a TeamIndus juntaram-se para apanhar boleia no mesmo transporte, e decidirem quem era o vencedor através de uma corrida lunar entre os seus rovers. Este lançamento nunca chegou a acontecer.

Como não aconteceu, o grupo chinês iSpace investiu 90 milhões na tecnologia do rover Hakuto para o restruturar em benefício da iSpace.

Mas a corrida acabou! E se acabou, porque continuam eles a “correr”?

Continuam a correr, porque ficaram mesmo muito perto de conseguir o objectivo, e porque esta será a prova inequívoca junto dos investidores internacionais, de que vale a pena financiar os seus projectos. Se os seus projectos forem financiados, a colonização da Lua com vista á sua exploração comercial, que é o passo que se segue, será defendida e estará acautelada.

 E por isso, a X Prize Foundation vai ajudar…

A competição Lunar X Prize para 30 milhões encerrou em 2018. Mas a X Prize Foundation prolongou a competição por mais 2 anos, entendendo que durante este tempo possivelmente as 5 empresas vão conseguir o objectivo. Esta será uma competição por estatuto, e não por prémio monetário. Contudo quem o vencer, terá o reconhecimento mundial como player na área do Espaço, o que basicamente significa uma muito maior facilidade no acesso ao financiamento dos seus projectos.

2019/20 são os anos para assistirmos calmamente à colocação sucessiva de mecanismos robotizados (rovers) na Lua, com o objectivo de abrir caminho à sua exploração comercial. O X Prize assumiu-se como alavanca do empreendedorismo privado no Espaço, e é caso portanto para dizer: Agora é que vai começar a verdadeira corrida!

***Aceite a sugestão do Bit2Geek e leia Virgin Galactic, o XPrize e o Turismo Espacial: Faltam 6 meses?