Ceres, conforme captado pela missão da NASA, Dawn, em Maio de 2015. Esta imagem foi captada quando a nave passava sobre o Hemisfério Norte. Em destaque (manchas brilhantes, devido a material exposto) a Cratera Haulani (mais á direita) e a Cratera Oxo (mais à esquerda). Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/Justin Cowart

Ceres é o maior objecto da Cintura de Asteróides (situada entre as órbitas do planeta Marte e Júpiter), e apenas em determinadas condições atmosféricas e quando a sua órbita atinge o ponto mais próximo do planeta Terra, aliado a céus nocturnos sem poluição luminosa é que se pode ver, a olho nú, o brilho ténue deste planeta anão.

Ceres é o maior dos planetas anões situados na Cintura de Asteróides, catalogados até ao momento (cerca de 950km de diâmetro, contra os cerca de 600km de Vesta, Pallas e Hygiea) e o único que se situa no interior da órbita Neptuniana. Este planeta anão é composto maioritariamente por gelo e rocha, “usando” cerca de 1/3 de toda a massa que se calcula estar “presente” em toda a Cintura de Asteróides (só para podermos ter um ponto de comparação quanto à importância de estudar e compreender a história deste corpo celeste), outra particularidade de Ceres é que também é o único objecto da Cintura de Asteróides cuja forma arredondada é o resultado da sua própria gravidade (Vesta também é arredondado, mas as forças responsáveis foram outras.).

Estruturas geológicas mais impressionantes de Ceres. Maior parte destas estruturas são crateras de impacto de diferentes idades. Estas imagens foram captadas em diferentes fases da missão Dawn da NASA. Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA

Quando Ceres foi descoberta pelo italiano Giuseppe Piazzi, enquanto este trabalhava no Observatório Astronómico de Palermo, a 1 de Janeiro de 1801, primeiro foi registado como planeta, mas em 1850 foi “despromovido” a asteróide quando se descobriu que existiam muitos outros corpos espalhados entre as órbitas de Marte e Júpiter com características idênticas, recentemente foi novamente reclassificado mas desta vez como planeta anão juntando-se a Plutão.

Dawn, a missão à Cintura de  Asteróides

Logotipo da Missão Dawn. Este logotipo representa a missão principal (ou também chamada de missão primária) do orbitador Dawn, que durante os programados dez anos de funcionamento irá estudar o asteróide Vesta e o planeta anão Ceres, corpos celestes que se acredita terem sido formados no início da história da formação do Sistema Solar.

A missão Dawn é um orbitador da NASA, lançado em 27 de Setembro de 2007, depois de anos de avanços, recuos e uma temporada na prateleira, prestes a ser esquecida.

A missão principal da Dawn consistia em estudar dois dos três protoplanetas conhecidos na Cintura de Asteróides, Vesta e Ceres (o terceiro é Pallas), pouco depois de cumprir os programados dez anos de missão, a 1 de Novembro de 2018, o orbitador ficou sem combustível e foi considerada “Reformada” (aka missão terminada), e neste momento encontra-se numa órbita descontrolada em Ceres.

Esta missão conseguiu uma série de “primeiros” da exploração interplanetária: primeira a visitar Ceres e Vesta, a primeira a visitar um planeta anão (chegou a Ceres em Março de 2015, poucos meses antes da histórica missão New Horizons chegar a Plutão), foi também a primeira nave da NASA a testar o comportamento dos propulsores iónicos em espaço profundo. A utilização destes propulsores em detrimento dos tradicionais, permitiu à Dawn entrar e deixar a órbita destes dois alvos, ao contrário de outras missões como as do programa Voyager que estavam restritas a apenas flybys.

Ceres, um possível Mundo Oceânico

Secção de um panfleto da NASA que lista os Mundos Oceânicos reconhecidos até ao momento.

Tendo em conta as medições da missão Dawn, Ceres parece ter sofrido uma diferenciação, o seu interior está “dividido” de uma forma parecida com outros corpos celestes (p.e. Terra), terá um núcleo rochoso debaixo de um manto gelado que poderá manter ainda resquícios de um antigo oceano interior. Por este motivo, Ceres foi listado como um dos Mundos Oceânicos, alvos chave para a próxima etapa de exploração espacial remota (outros ilustres desta lista são: Terra, Marte, Europa, Encélado, p.e.). A missão Dawn ajudou a analisar com detalhe a composição do manto gelado de Ceres, concluindo que este está composto por uma mistura de gelo de água e materiais hidratados como carbonatos e argilas (a presença destes compostos foram a chave para a conclusão da existência do oceano, e depois de datar estes compostos concluiu-se que estes eram relativamente recentes, o que fez com que a comunidade científica começasse a olhar para outros corpos celestes como Ceres com outros olhos, com a esperança que mesmo não sendo um planeta principal, poderiam encontrar ali as condições necessárias para albergar vida).

Imagem da Cratera Occator, captada pela missão Dawn em 2015. Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA/Max Planck Institute for Solar System Studies/German Aerospace Center/IDA/Planetary Science Institute

A Cratera Occator, com as suas características manchas brilhantes (de todas as que foram detectadas em Ceres, esta é mais brilhante de todas). Quando a Dawn começou a sua aproximação rapidamente dois pontos brilhantes chamaram à atenção, os pontos brilhantes da Occator Crater. Quando o orbitador chegou ainda mais perto, puderam-se ver muitos mais pontos, espalhados pela superfície.

O centro da Cratera Occator possuiu no seu centro, um monte brilhante de cerca de 500 metros de altura, chamado Monte Cerealia (Cerealia Dome), que se encontra completamente revestido pelo material brilhante. Esse material brilhante foi denominado por Cerealia Facula. Um grupo de manchas brilhantes mais pequenas chamada de Vinalia Faculae encontra-se na parte oriental do fundo da cratera.

Graças à suite de instrumentos a bordo do orbitador, os diversos grupos de investigação que trabalham com os dados recolhidos, conseguiram determinar a composição mais provável para o material dos pontos brilhantes é carbonato de sódio e sulfato de magnésio hidratado (entre outros sais minerais). Tendo em conta o estudo de estruturas análogas na Terra, pensa-se que o Monte Cerealia formou-se devido a actividade hidrotermal debaixo da superfície (hidrotermal = água + calor). Como estas manchas brilhantes normalmente estão associadas a crateras ou estruturas de impacto e de dirupção da superfície, pensa-se que a força do impacto poderá ter trazido à superfície estes materiais, ajudando a prolongar estes processos de evolução de materiais geológicos.

Ceres e as suas manchas brilhantes continuarão a ajudar cientistas planetários, durante décadas, a estudar a Terra e outros planetas e a perceber donde viemos e onde iremos como espécie e como planeta.

Flyby de Ceres

Ver aqui o que na Terra é semelhante a Ceres.

***Aceite a sugestão do Bit2Geek e veja a entrevista de Marta Cortesão, uma das cientistas do Bit2Geek, na RTP1