Inteligência Artificial

A Inteligência Artificial está na ordem do dia. É uma tecnologia complexa, que já faz sentir os seus efeitos na sociedade contemporânea. Combinada com robótica e automação, tem o potencial de transformar o mundo em que vivemos. Quais serão os futuros possíveis? Que impactos terá no nosso futuro? Para ajudar à reflexão, sugerimos alguns livros que abordam as técnicas e problemáticas da Inteligência Artificial.

Refletir sobre Inteligência Artificial

De que falamos quando se fala de Inteligência Artificial? Discute-se muito esta tecnologia, mas será que sabemos exatamente o que é que ela é? Até que ponto a sua influência já se faz sentir nas nossas vidas? Que impactos terá, ou já está a ter, na economia e sociedade? Irão os nossos empregos vão desaparecer num futuro próximo? Poderão os trabalhadores humanos ser substituídos por algoritmos de Inteligência Artificial e robots? Seremos alguma vez capazes de criar uma inteligência verdadeiramente artificial e consciente? Será que uma verdadeira IA nos levará a uma era de prosperidade inigualável, tratar-nos-á como crianças, cuidando dos seus criadores, ou irá transcender os seus limites, potencialmente exterminando a humanidade no processo?

Será mesmo possível criar uma consciência artificial, ou esta tecnologia não passa de uma combinação de matemática complexas que analisa enormes volumes de dados, tornada possível pela evolução na rapidez do hardware de computação e na partilha de informação online. Não há respostas fáceis a estas questões. As discussões sobre esta temática nem sempre são informadas, ou refletem as reais capacidades destas tecnologias. Para ajudar a compreendê-la melhor, sugerimos estes livros, verdadeiras coordenadas GPS de um território para o qual os mapas ainda estão a ser traçados.

The Master Algorithm, de Pedro Domingos

Inteligência Artificial

É a obra inescapável em qualquer lista de leituras sobre Inteligência Artificial. Nela, Pedro Domingos, investigador português da Universidade de Washington, explora as diferentes vertentes desta tecnologia. E dá um passo adicional, mostrando como a Inteligência Artificial necessita de um algoritmo capaz de reunir as diferentes valências das correntes técnicas, tornando-se realmente inteligente. Uma inteligência que funcionará do sentido da consciência artificial, mas como ferramenta capaz de extrapolar informação a partir das vastas quantidades de dados pessoais e fornecer ajudas úteis nos domínios social e económico.

Criar uma IA unificando as suas diferentes técnicas uma proposição mais fácil de colocar do que chegar lá. É um pouco como a elusiva teoria unificadora da física, que desgraça neurónios aos físicos há pelo menos meio século. Pedro Domingos fala-nos de uma possível solução, em cujo desenvolvimento participou, deixando bem claro que é apenas um passo e não a solução. Pelo caminho, pega na mão do leitor e leva-nos a descobrir as diferentes metodologias de pensamento e análise computacional, que apesar das suas limitações nos têm dado aplicações avançadas de IA restrita.

O grande mérito deste livro é o de dar ao leitor um panorama aprofundado do corrente estado da arte no domínio da inteligência artificial. Fá-lo sem especulação, detalhando as diferentes técnicas que sustentam os algoritmos complexos que já hoje fazem sentir a sua presença na nossa vida diária. A visão é otimista e desafiadora, mas fiquem avisados, leitores: é um livro pesado.

Hello World, de Hannah Fry

Inteligência Artificial

Este livro de Hannah Fry opta por uma aproximação leve e factual aos impactos sociais da Inteligência Artificial. Os detalhes técnicos ficam para outras leituras- Quando falamos da interação entre algoritmos e humanos, o que nos vem à cabeça são os sistemas de recomendação dos agregadores de vídeo e música, ou comércio online, ou os algoritmos de seleção do que visualizamos nas redes sociais. Eventualmente, pensamos nos sistemas de condução de veículos autónomos. Não nos recordamos, ou sabemos, que sistemas de IA estão já no terreno, a apoiar as decisões de juízes ou assistentes sociais. Que em praticamente todas as áreas da economia e sociedade, da educação à arte, encontramos aplicações e implementações de IA.

Fry leva-nos num percurso que passa pela justiça, automóveis, saúde, redes sociais, crime e criatividade, dando-nos exemplos concretos de aplicação de algoritmos nestes campos. Não tem medo de apontar as questões éticas que estas ferramentas levantam. Entre os bem conhecidos enviesamentos de algoritmos à interferência nefasta dos sistemas de automação nos operadores. São problemas que têm muitas causas. Vão da fraca qualidade de dados-base para treino de IA, algoritmos mal concebidos, erros, ou foco na falta de transparência. Fry instiga-nos a conhecer e abraçar estas tecnologias com uma visão crítica proativa. Aqui, a transparência é essencial.

Se estes algoritmos estão, já hoje, a determinar as nossas vidas, não podem continuar a estar ocultos debaixo do véu da propriedade intelectual. Esta opacidade legalmente induzida impede os criadores de serem responsabilizados quando há erros. Também impede os afetados de saber exatamente que mecanismos sustentam as decisões algorítmicas. Em parte, isso combate-se com educação, com uma maior consciencialização do impacto desta tecnologia nas nossas vidas. Este livro foi concebido precisamente com essa finalidade.

Robótica e Trabalho: O Futuro Hoje, de António Moniz

Inteligência Artificial

Qual é o impacto da robótica, automação e inteligência artificial na realidade portuguesa? É esse o panorama que este livro se propõe traçar. Fá-lo de de forma difusa, em parte pela escassez de dados disponíveis e por estar a analisar tendências muito recentes. No entanto, deixa bem claro que está a acontecer, especialmente ao nível de médias e grandes empresas das áreas industriais. E não nas formas mais óbvias. É curioso descobrir que os trabalhadores da AutoEuropa reivindicam a sua substituição por robots nalgumas tarefas que trazem danos para a saúde. Ou a experiência de pequenas e médias empresas na área metalúrgica, que vêem na robótica um fator decisivo para serem competitivas ao nível global.

A reflexão sobre o potencial disruptivo destas tecnologias no mundo do trabalho é sóbria. Segue um meio termo entre visões utopistas e apocalípticas. Não esconde que a adoção de robots tem impactos diretos na substituição de postos de trabalho. Aponta que estas não não serem verdadeiramente autónomas, obrigando a recriar postos de trabalho ou a criar novas ocupações. Mostra casos em que trabalhadores substituídos ganham novas funções trabalhando em conjunto com robots, ou novas profissões decorrentes da necessidade de técnicos para lidar com máquinas. É uma visão fluida, longe de alarmismos. Reconhece que a robótica traz impactos ao mundo laboral, mas não numa perspetiva de extermínio de postos de trabalho.

AIQ: How People and Machines are Smarter Together, de Nick Polson e James Scott

Inteligência Artificial

Cada capítulo deste livro explora uma vertente da Inteligência Artificial partindo da história da ciência. É essa a sua grande. Mostra-nos que as técnicas e a matemática por detrás dos correntes avanços desta tecnologia têm as suas raízes na astronomia, matemática e outras ciências do iluminismo ao século XX. Surpreende observar que os motores da Inteligência Artificial, a matemática, algoritmia e probabilística, antecede em muito a corrente revolução. O que permitiu a sua explosão foi a combinação tripla de estruturas matemáticas, hardware acessível e potente, e a vastidão de dados possibilitados pela internet. O potencial desta tecnologia tornou-se possível pelo cruzamento de algoritmos com processamento e big data.

Os autores desmontam o mito da Inteligência Artificial como consciência super-inteligente. Mostram que os avanços nestas tecnologia acontecem na forma restrita. Quer sejam os algoritmos de predição de produtos com que interagimos nas lojas online, algoritmos de reconhecimento de imagem, produtos como o Alexa, que agrupam tecnologias de processamento de linguagem natural com algoritmos de pesquisa e de predição com base no perfil do utilizador, sistemas de navegação por GPS, processamento de dados financeiros (na banca, seguros, ou no IMTT, que está a usar uma ferramenta de IA para processar multas rodoviárias). Não são seres artificiais inteligentes, são ferramentas poderosas em aplicações muito específicas com um tipo de inteligência muito específico. É de notar que comportamentos inteligentes não significam consciência. Encontram-se exemplos disso na natureza. Os enxames de abelhas ou formigas apresentam comportamentos complexos e estigmérgicos, mas dificilmente de inteligência comparável à nossa.

Mentes Digitais, de Arlindo Oliveira

Inteligência Artificial

Esta é uma obra atípica no panorama nacional. Escrita pelo atual presidente do Instituto Superior Técnico, aborda a Inteligência Artificial indo para lá da tecnologia. Arlindo Oliveira analisa esta tecnologia sob perspetivas evolutivas e do domínio da consciência. Finaliza com voos especulativos sobre algumas das suas potencialidades mais exóticas. Leva-nos num périplo que começa nos primórdios da eletrónica, com a descoberta das leis do eletromagnetismo. Termina com as descoberta contemporâneas nos domínios da genética, bio-ciências e neurociências. A lógica é visível, o estabelecer de uma linha de continuidade de progresso científico que nos legou o corrente vislumbre de um futuro humano para lá do biológico. Um futuro que mistura informática avançada (robótica e IA) com virtualidades e transcendência do corpo humano. É nos dois capítulos finais que o autor se deixa ir mais longe, falando-nos de IA conscientes, ou digitalização da mente, formas de vida totalmente artificiais.

Mentes Digitais é provocador e interessante, bem como uma profunda lição sobre a evolução e momento contemporâneo de algumas áreas da ciência. Foca-se numa perspetiva de potencial transcendência dos limites naturais através da tecnologia. Algo que, de fato, tem sido o motor do progresso human. Mas, pela primeira vez, nos oferece o potencial de ultrapassar as limitações biológicas.

La chute de l’Empire humain, de Charles-Edouard Bouée e François Roche

Inteligência Artificial

A discussão sobre os impactos da inteligência artificial, robótica e automação geralmente termina numa de duas conclusões. Ou as do caos nos sistemas sociais, com a redundância do ser humano numa economia automatizada, ou as utopias singularitárias que prometem libertação e transcendência dos limites humanos graças aos avanços tecnológicos. A inteligência artificial de que hoje já dispomos potentes exemplos distingue-se pelo poder de computação, pela capacidade de analisar enormes quantidades de dados com uma rapidez e eficácia impossíveis aos humanos.

É essa a sua grande promessa. Com isso, ser capaz de aumentar as capacidades humanas. No entanto, quando olhamos para lá do deslumbre para os sistemas saídos da IA Watson da IBM, com utilização em apoio a actos médicos, para as proezas das IAs específicas que analisam possibilidades e probabilidades concatenadas com sistemas de aprendizagem, notamos uma singular fraqueza. Ser capaz de analisar quantidades imensas de dados não é equivalente a gerar novos dados. Para isso, é precisa a intuição e conhecimento humano. São todas as nossas dimensões de inteligência que estão para lá do processamento de informação. Analisar dados, com a potência já disponível hoje nos produtos de inteligência artificial, é uma capacidade imensamente útil, capaz de auxiliar humanos na análise e diagnóstico de situações. Resta a questão da origem dos dados a analisar.

Uma Visão Francófona

Uma ideia que é sublinhada quase na conclusão deste intrigante ensaio. Ao traçar cenários possíveis de evolução social sob impacto de IA, robótica e automação, Bouée faz notar que para além da quasi-religiosidade da transcendência singularitária e da potencial obsolescência de uma humanidade condenada ao desemprego. Um futuro dominado por Inteligência Artificial seria eminentemente estável. O imprevisto e o desconhecido não são quantificáveis. IAs evoluídas a partir de software analítico teriam uma tendência a estabilizar o conhecimento. Não produzindo nada de novo, aconselhariam os humanos com base em padrões estáveis.

Bouée começa por nos levar aos primórdios da computação para nos guiar no desenvolvimento potencial da Inteligência artificial. Foca-se nas tendências que hoje a caracterizam. IAs de apoio decisório, robótica industrial mas também pessoal e afetiva, automatização da economia, controle de sistemas sociais com base em algoritmos. São elementos que já hoje se fazem sentir. Projetando um futuro próximo, segue o óbvio caminho da aquisição de consciência por parte do software. No entanto, sublinha o potencial estagnador da IA. Querendo terminar numa nota optimista, imagina que as instituições políticas e sociais do futuro serão capazes de reagir e travar este progresso, visto como perigoso para a sobrevivência da espécie humana.

Outras Leituras

Esta curta lista não esgota as reflexões sobre este tema. Muitos outros livros haveria para recomendar. Para terminar este artigo, sugerimos mais alguns. Em Life 3.0: Being Human in the Age of Artificial Intelligence, o matemático Max Tegmark analisa o potencial da Inteligência Artificial entre perigos e benefícios. Assinala que são as decisões humanas que, em última análise, condicionam o impacto desta tecnologia. Para se ficar a conhecer os riscos associados com o enviesamento de dados em sistemas de Inteligência Artificial, Weapons of Math Destruction de Cathy O’Neill é a leitura obrigatória.

Finalmente, e porque não descobrir o impacto da automação no mercado bolsista em modo de romance? Em Flash Boys, Michael Lewis fala-nos do trading algorítmico. Foca-se na bolsa de valores, utilizando ferramentas computacionais que atraem os melhores cérebros matemáticos a Wall Street. A imagem romântica do corretor de bolsa no fervilhar do mercado já não corresponde à realidade. Hoje, a compra e venda em bolsa é feita cada vez mais por algoritmos complexos. Estes trocam dinheiro entre si a velocidades impensáveis. São histórias onde a diferença entre perder e ganhar se mede em frações de milisegundo.

Aceite a nossa sugestão e leia o artigo Pode a Inteligência Artificial criar arte? Os robots pintores mostram-nos como.

 

Artigo anteriorHá uma corrida para chegar primeiro a Marte?
Próximo artigoHabitação em Marte: o que oferecem as primeiras propostas?
Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.