Há almoços que servem para enviar avisos à navegação. Foi aliás isso mesmo que aconteceu dia 20 de Fevereiro no Wings Club em Nova York… Era  aliás de prever, porque o convidado especial fez rapidamente esgotar as reservas.

A verdade é que se Jeff Bezos  (o CEO da Amazon e dono da Blue Origin) aceita um convite destes nesta altura do campeonato ou seja, no ano em que vai começar o Turismo Espacial, o normal é que  no mínimo ele comente o assunto.

E não há nada de sobrenatural nisto: a Blue Origin é das empresas melhor colocadas para lançar-se no Turismo Espacial já este ano, e a principal concorrente, a Virgin Galactic, anunciou que dentro de 6 meses vai estar a transportar turistas para o Espaço.

A importância do almoço no Wings Club de Nova York…

Blue Origin
Crédito: Jeff Bezos, CEO da Amzon e dono da Blue Origin. CNBC.com

O Wings Club of New York é um clube social e profissional formado por aviadores, e que foi fundado em 1942. Este clube organiza almoços mensais e jantares anuais onde convidados são desafiados a fazer uma palestra sobre os mais variados aspectos da aviação.

Este clube assume mais dois papeis importantes: distinguir indivíduos e organizações com condecorações de mérito por feitos alcançados no campo da aviação, além de que as receitas do Wings Club servem para atribuir bolsas a estudantes de aviação.

Durante a Segunda Guerra Mundial este clube serviu de espaço de lazer para os pilotos de combate, tendo alguns deles temporariamente vivido dentro das instalações. É a “Casa” dos aviadores norte-americanos, um “Aces Club”.

E o que faz um ACES Club?

Em primeiro lugar, é um Aces Club porque foi essa a tónica desde a sua fundação. Por exemplo o primeiro Board of Directors incluía Juan Terry Trippe, o icónico fundador da Pan American World Airways, mas também Edward Vernon Rickenbacker, o Ás de Combate da Primeira Guerra Mundial, que foi bem-sucedido em pelo menos 26 combates aéreos e por isso distinguido com a medalha de Honra, por ser considerado melhor aviador de combate de toda a “Grande Guerra I”.

Neste “Aces Club”, o Wings Club, os convidados tiveram sempre que se notabilizar por feitos na aviação, por coragem ou por serem pioneiros em alguma área, tendo ajudado assim a mudar a história da aviação para sempre.

Vejamos o tipo de convidados do Wings Club:

Por exemplo Dwight Eisenhower, o General de 5 Estrelas que comandou no Norte de Africa a Operação Torch entre 1942–43 (reconquistando-a aos nazis), e que coordenou também a Invasão da França e Alemanha sob o controlo Nazi em 1944-45. Ou Henri Marie Coandă, pioneiro na aeronáutica por ter sido o inventor do primeiro avião a jacto. Ou Bernt Balchen pelos seus feitos de exploração do Ártico, e Alan Bartlett Shepard Jr., o primeiro astronauta americano a viajar no Espaço. Ou também Wernher von Braun, o cientista nazi que desenvolveu o Programa do Rocket V-2 em Peenemünde, durante a WWII. Wernher foi capturado pelos americanos durante a Operação Paperclip, tendo sido assimilado pela NASA, onde ajudou a construir o Saturno V que levou Neils Armstrong e Buzz Aldrin à Lua. Aliás, o próprio Neils Armstrong também foi palestrante do Wings Club em 1988.

E Jeff Bezos perceberá alguma coisa de aviação???

Jeff Bezos tem uma fortuna avaliada em 150 mil milhões de dólares e é mais rico que Bill Gates. É dono de 16% das acções da Amazon, que é  aliás um negócio de e-commerce que ele fundou numa garagem em Seattle em 1994. Em 2013 comprou o The Washington Post por US $250 milhões. E no ano 2000 fundou a Blue Origin, empresa de construção aeroespacial que a partir de 2015 começou a testar o New Shepard, um veículo sub-orbital  desenhado para iniciar o turismo espacial e não só.

A única ligação por isso que Jeff Bezos tem à aviação pura e dura, é mesmo o seu avião a jacto, o Gulfstream G650ER que adquiriu em 2015 e que tem um valor comercial de 75 milhões.

Portanto a única razão que levou Jeff Bezos ao Wings Club, tem que ver com o facto da Humanidade se estar a virar para o Espaço, e as naves espaciais serem a “aviação do Futuro”!

Depois também há outra questão: o principal concorrente, Sir Richard Branson, o dono da Virgin Galactic, é inglês e Bezos é americano. Bezos é a “equipa da casa”, e representante do orgulho norte-americano!

Nesta entrevista por exemplo, Sir Richard Branson afirma que vai começar o turismo espacial dentro de semanas e não meses, que será ele próprio a viajar a bordo e que levará a família, e que a seguir se seguirão os turistas.

E os testes da Virgin Galactic com a SpaceShipTwo ou SpaceShip Unity, estão cada vez mais ambiciosos… Mas ainda não tão ambiciosos como os da Blue Origin…

Crédito: Virgin Galactic /The Sun

Ultrapassado o limite da atmosfera terrestre, a linha Karman, a Virgin Galactic estará em pleno Espaço ou seja, algo que a Blue Origin faz com regularidade com os seus foguetes não-tripulados…

E portanto houve um “recado” no almoço do Wings Club!

Jeff Bezos aproveitou este almoço para reiterar de forma muito clara que a Blue Origin iniciará o Turismo Espacial ainda este ano, levando turistas a bordo do New Shepard.

Mas disse um pouco mais: “Esta é a primeira vez que digo este ano. E há alguns anos ando a dizer no ano que vem…”

O New Shepard voltou a passar no último teste de voo, sem pessoas a bordo (o NS-10), a 23 de Janeiro: “Nos testámos tudo e foi das coisas mais complicadas que fizemos até agora”, afirmou também. Relembre-se que o último teste do avião espacial suborbital da Virgin Galactic, previsto para 20 de fevereiro, no Mojave Air and Space Port, foi adiado por causa dos ventos. Foi contudo concluído com sucesso a 22 de Fevereiro.

Então qual é o recado?

O New Shepard normalmente ultrapassou nos testes realizados, o limite dos 100 quilómetros, uma altitude conhecida como Karman Line.

Já a SpaceShipTwo o seu pico de altitude aos 82,7 quilómetros, no voo de teste realizado a 13 de Dezembro. Este aliás foi o primeiro voo acima do limite de 50 milhas, limite esse usado pelas agências do governo dos EUA para “premiar” os astronautas.

Deixou cair então Bezos, que: “Uma das questões que a Virgin Galactic terá que resolver, eventualmente, é a de não estar a voar acima da Linha Karman, pelo menos por enquanto. Eu acho que é uma das questões que eles terão que resolver… A de como ficar acima da linha Karman.”

“Sempre encarámos como nossa missão voar acima da linha Karman, porque não queríamos ter nenhum asterisco ao lado do nome de um passageiro para sabermos se ele é um astronauta ou não”, continuou Bezos. “Portanto, isso é algo que eles vão ter que resolver, na minha opinião. Porque para aqueles que vão voar no New Shepard, não haverá “asteriscos”.

Se não percebe a conversa dos “asteriscos”, basta clicar aqui, pois é a isto que Bezos se refere (ao astronauta sem “altitude”)!

Bezos afirmou que não se deixa guiar por nenhum cronograma, e que aliás é implacável nisso: “não é uma corrida! Eu quero voar este ano com humanos, mas vamos voar quando estivermos prontos”.

O recado é simples, mas muitíssimo duro: Isto não é uma corrida, mas se quiseres que seja (para Richard Branson, da Virgin Galactic), tens que passar a Linha Karman (100 Km da Terra, limite da Atmosfera com o Espaço) e levar humanos a bordo. E se algo correr mal, a culpa é das “pressas” em querer ganhar a corrida! Agora força, vão primeiro!!!

O foguete New Glenn está pronto! E este foi o último teste a 23 de Janeiro, com a aterragem do foguete reutilizável New Glenn em terra, bem como a aterragem do veículo de transporte New Shepard (que desceu suspenso por páraquedas).

Quanto ao recado: Bom… O mundo do Espaço é feito destas subtilezas… Que por vezes até nem têm nada de subtil!!!

E por outro lado a Virgin Galactic já respondeu, há 2 dias, com outro recado: Estamos prontos para levar humanos a bordo!

Falta apenas aquela parte de “levar humanos a bordo”, mas acima da Linha Karman, ou limite com o Espaço. E isso a Virgin Galactic ainda não fez! Só ganhou a corrida nos “asteriscos”, como diz Bezos!

***Aceite a Sugestão do Bit2Geek e clique em baixo, para saber mais!!!

Virgin Galactic, o XPrize e o Turismo Espacial: Faltam 6 meses?