O papel da flora intestinal na saúde humana é reconhecido há várias décadas. Também apelidada de “o órgão esquecido”, a flora intestinal influencia processos como a absorção e a digestão de nutrientes, inflamação gastrointestinal estando também associada a obesidade, diabetes e doença de Crohn. Além disso, recentemente alguns estudos vieram acrescentar novas formas de pensar a flora intestinal, em particular, as suas implicações no cérebro.

Por exemplo, a desregulação da microbiota tem vindo a ser observada em doenças do foro neurológico, como Parkinson, depressão e autismo, levando a crer que a flora intestinal pode ter um papel central neste tipo de patologias.

Mas afinal, o que é a microbiota?

A microbiota humana é o conjunto de microorganismos que existem numa determinada pessoa. Cada ser humano tem microbiotas únicos, como se fossem impressões digitais, e que variam consoante o sistema imunitário, doenças, estilo de vida e alimentação.

Estes seres microscópicos tem connosco uma relação simbiótica, que significa uma troca-por-troca. Isto é, a microbiota usa o nosso corpo como habitat, pois damos-lhes nutrientes e temperatura óptima para o seu crescimento enquanto nos ajudam em várias funções determinantes na nossa vida.

Estima-se que tenhamos cerca de dez vezes mais células microbianas do que humanas no nosso organismo. Este elevadíssimo número (~1013) traduz-se em 3.3 milhões de genes diferentes (o Homem tem apenas 23 mil) dando-nos  assim um potencial genético imenso para os mais diversos processos biológicos, que sem a microflora não teríamos capacidade de desempenhar.

Crédito: Giphy

Apesar da sua complexidade, parece claro que o ser humano evoluiu no sentido de tirar o maior partido da sua microflora.

A influência da microflora na saúde mental

A maioria dos estudos que analisam o papel da microbiota na saúde mental usam ratinhos criados em ambiente estéril, ou seja, que não tem microbiota. Estes ratinhos, quando sujeitos a testes, como encontrar a saída de um labirinto ou reconhecer um objecto novo, demonstram défice de memória e de cognição. O que é surpreendente é que se estes ratinhos receberem a microbiota de outro (através de transplante das fezes) são capazes de reverter, pelo menos parcialmente, os sintomas neurológicos que apresentam.

Microbioma gastrointestinal – Crédito: Medium

Por ser impossível manter seres humanos sem microbiota, as descobertas feitas nesta área usando pessoas são geralmente por análise da microbiota das fezes de indivíduos saudáveis ou doentes.

Um estudo europeu que analisou a microbiota de 1000 indivíduos relacionou a presença de alguns tipos de bactérias com qualidade de vida. Géneros de bactérias como Faecalibacterium e Coprococcus estão associados a indicadores de qualidade de vida superior. Por outro lado, uma proporção baixa de Bacteriodes, Coprococcus Dialister está associada a fenomenos depressivos.

Crédito: Lactobacillus, MakeAGif

Outros estudos mostraram que a microbiota de crianças com autismo tem uma menor diversidade de microorganismos, parecendo contudo haver um enriquecimento em bactérias como Lactobacillus e Clostridium  e fungos como Candida spp.

É interessante perceber também que os sintomas gastrointestinais, como dor abdominal e diarreia, são comuns em pacientes com esta patologia. Estes sintomas são acompanhados de maior permeabilidade intestinal o que possibilita que os compostos produzidos pela microbiota – alguns dos quais toxinas – cheguem com maior facilidade às células do hospedeiro, provocando efeitos negativos.

Apesar de não se saber exactamente os mecanismos pelos quais a microbiota influencia a saúde mental, sabe-se que os compostos químicos que produzem actuam no processo.

A microbiota tem também a capacidade de produzir neurotransmissores que são os responsáveis pela comunicação entre os neurónios. O estudo acima mencionado permitiu relacionar a presença de bactérias produtoras de dopamina, que actua na capacidade de memória, no entusiasmo e humor,  com os indicadores de qualidade de vida. Por outro lado as bactérias produtoras de GABA , neurotransmissor que inibe a excitação dos neurónios, estavam mais associadas à tendência para depressão.

Por outro lado, sabe-se também a microbiota converte a fibra ingerida na dieta em compostos mais simples chamados ácidos gordos de cadeia curta (AGCC). Os AGCC são moléculas com um potencial biológico imenso pois são a fonte de energia preferida das células da parede do cólon e actuam na regulação do apetite e da glucose. Sabe-se agora que estes compostos tem propriedades neuroprotectoras, estimulando a capacidade de aprendizagem e diminuindo a ansiedade.

Um olhar para o futuro

Crédito: chilecientifico.com, Microbiota

A compreensão profunda das doenças psicológicas não pode estar cingida ao sistema nervoso mas tem que ser olhada de forma integrada para o organismo no seu todo, com foco na microbiota, que ao que tudo indica tem um papel preponderante na saúde mental.

Apesar das evidências que relacionam a flora intestinal com saúde mental, não são conhecidos os mecanismos por detrás desta acção. Na realidade, não se sabe quais os microorganismos bons ou maus, como também não se conhece ao certo quais os compostos produzidos por eles que regulam estes efeitos. Existe portanto uma clara necessidade de se desenvolverem estudos nesta área, para que melhor compreendamos esta comunidade de microorganismo que em tanto influenciam a nossa vida.

No futuro, este conhecimento poderá permitir que se diagnostique especificamente as perturbações na microbiota e consequentemente, se desenvolvam  soluções preventivas e terapêuticas que incluam probióticos (suplementos com microorganismos vivos) de acordo com as necessidades de cada um.

Como em tudo, várias questões se levantam. Aqui ficam algumas:

Serão as perturbações na microbiota uma causa ou uma consequência das doenças mentais? Se por um lado os ensaios com ratinhos indicam que há uma relação causa-efeito, os estudos com humanos não permitem ainda estabelecer o efeito causal ou se é apenas devido a questões de alimentação das pessoas envolvidas.

Valerá a pena tomar probióticos para melhorar o funcionamento cerebral se não sabemos ao certo que microorganismos benéficos? Poderão estes suplementos ter efeitos negativos?

Preocupações da NASA: Com a perspectiva da exploração e colonização de outros planetas (de que Marte é um exemplo ), o que será que vai acontecer à nossa microbiota? Terá capacidade para sobreviver? Desempenhará o mesmo “papel”? A sua alteração vai afectar a nossa capacidade de sobreviver noutros ambientes? Que precauções teremos de tomar?

Como em tudo o que envolve descoberta e novas abordagens, tal levanta várias questões, também elas fundamentais para a procura constante de novas soluções

É isso também que move o conhecimento e a descoberta.

 

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Estão ser ser inventados sensores para … serem engolidos!

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Ana Carolina Cordeiro é licenciada e mestre em Bioquímica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Em 2015 ganhou o prémio de mérito académico da FCUL, atribuído ao Melhor Aluno dos mestrados do departamento de Química e Bioquímica. Desde Abril de 2017 é estudante de Doutoramento no ITQB-NOVA e o seu projecto visa decifrar os mecanismos de homeostase e destoxificação de metais essenciais em fungos patogénicos oportunistas. Em 2017 esteve envolvida numa colaboração internacional, onde lhe foi atribuída uma bolsa de investigação para trabalhar no Institut Curie em Paris. Este projecto tinha como objectivo encontrar novas vias de destoxificação de arsénio (um metal altamente cancerígeno, considerado o maior poluente de agua potável) na levedura do pão e da cerveja, Saccharomyces cerevisiae. A levedura, o primeiro organismo eucariota a ter o genoma sequenciado, é um excelente organismo modelo fulcral para a descoberta das causas de inúmeras patologias humanas.   É autora de publicações em revistas cientificas internacionais e foi já seleccionada para palestrar em conferencias internacionais da sua área.   É apaixonada por ciência e considera que é um dever dos cientistas comunicar e educar para a ciência. Quando não está a estudar fungos mortais, adora viajar, ler e puxar pela cabeça a jogar jogos de tabuleiro.