O Cometa Halley é de entre todos os cometas o mais conhecido. Isto deve-se ao facto de ser um cometa periódico, que regressa ás proximidades da Terra a cada 75 anos, marcando por isso todas as gerações e permitindo no máximo que um ser humano o possa observar apenas 2 vezes na sua vida… A última vez que esteve perto da Terra foi em 1986 e prevê-se o seu retorno a 28 de Julho de 2061.

Este cometa famoso tem o nome do astrónomo inglês Edmond Halley, que se destacou na comunidade científica por ter efectuado um estudo sobre 3 relatos de cometas que se aproximaram da Terra em 1531, 1607 e 1682, tendo concluído que essas três aparições eram de facto o mesmo cometa, e tendo conseguido por isso prever que o Halley estaria de volta novamente em 1758.

Cometa Halley
NASA/W. Liller – NSSDC’s Photo Gallery (NASA)

Cometa Halley sempre anunciou mudanças…

As interacções dos seres humanos com corpos celestes errantes acompanhou desde sempre a história da Humanidade. Por exemplo pensa-se que o primeiro registo do Halley terá sido a 467 a.c., pela duração de passagem do cometa e pelas descrições da chuva de meteoritos a ele associada. Essa aparição está aliás revisitada na obra de Donald K. Yeomans, Comets: A Chronological History of Observation, Science, Myth, and Folklore. Lá está explicado que Plínio o Velho, conhecido naturalista romano, descreveu no mesmo ano a queda de um meteoro castanho e do tamanho de uma carroça na cidade de Egospótamo, na Trácia (foz do rio Sesto, onde Lisandro derrotou a frota ateniense em 405 a.C., pondo fim à Guerra do Peloponeso.

Também os chineses descreveram a passagem de um cometa nesse ano, ficando contudo a certeza que o Halley foi detectado em 240 a.C. na crónica chinesa Shiji, tendo sido descrito como tendo aparecido no Leste e estando a dirigir-se para Norte.

Também no British Museum está registado nas tábuas de argila da Babilónia o cometa que podia ser observado “dia após dia” durante um mês em 87 a.C., acreditando-se que essa aparição esteja representada nas moedas do rei Tigranes o Grande (da Arménia), sendo representado como uma estrela de cauda curva. Essa “estrela” era vista pelos arménios como o anúncio da chegada do “Rei dos Reis”.

A Estrela de Belém

A passagem deste cometa a 12 a.C. fez alguns teólogos pensar que esta poderia ser a conhecida “Estrela de Belém”, uma vez que o cometa foi registado pelos chineses no Livro de Han, tendo sido calculado que passou a 0.16 UA (Unidade Astronómica) da Terra.

Em 847, o cometa deve ter passado a apenas 0,03 UA da Terra, cerca de 5,1 milhões de quilómetros da Terra, fazendo a sua maior aproximação até aos dias de hoje, e em 1066 foi mesmo representada na Tapeçaria de Bayeux quando foi visto na Inglaterra e considerado como um presságio. Nesse ano o rei Haroldo II (Haroldo Godwineson, o último rei anglo-saxão) foi derrotado e morto na Batalha de Hastings por Guilherme da Normandia, o Conquistador.

Cometa Halley
Tapeçaria de Bayeux mostrando o Cometa Halley no céu em 1066. Crédito: Wikipedia Commons/Myrabella

Normalmente a estrela mais brilhante do céu, a primeira estrela a aparecer depois do pôr-do-sol, é o planeta Vénus. Neste ano de 1066 o Cometa Halley foi descrito como tendo 4 vezes o tamanho de Vénus e 1/4 do brilho da Lua, tendo sido registado em petróglifos por nativos americanos da região de Chaco, no Novo México.

No Inferno de Dante

“Dante e Virgílio no Inferno”, por Bouguereau, no Museu de Orsay

Sempre envolto em polémica, o Cometa Halley foi apontado por alguns historiadores como tendo sido a fonte de inspiração para Genghis Khan ter iniciado a campanha da Europa, bem como o pintor Giotto o representou na Cappella degli Scrovegni. O rico banqueiro Enrico degli Scrovegni mandou construir esta capela em honra da Virgem Maria e do seu papel determinante na salvação das almas, em desagravo pelos pecados do seu pai, que foi representado por Dante Alighieri como protagonista no Sétimo Círculo do Inferno. Apenas a referir que o Sétimo Círculo do Inferno de Dante era destinado aos violentos, e daí a natureza pública dos crimes que fizeram Dante associar o pai do banqueiro Enrico degli Scrovegni a este círculo infernal.

Dentro da moldura do “portador de más notícias”, a aparição de 1456 esteve associada à Invasão do Reino da Hungria pelo Império Otomano. Nesse ano o Papa Calisto III numa bula pontifícia ordenou orações especiais para protecção da cidade. Calisto referiu uma estrela ardente que apareceu por vários dias anunciando pestilência grave, escassez e grande calamidade.

Cometa Halley
Ilustração da passagem do Halley em Augsburg, Alemanha em 1680. Crédito: NASA/JPL

Só a partir de século XVI o cometa Halley começou a ser entendido como objecto da investigação científica. Contudo mesmo séculos passados, e em pleno século XX, o Halley não deixou de continuar a ser conotado como portador de más notícias.

Isto aconteceu não só porque uma série de notícias da época o associava a uma calamidade, dado que a sua passagem próxima da atmosfera poderia (no entender de alguns investigadores), descongelar a cauda do cometa fazendo entrar cianeto congelado na atmosfera pondo fim à Humanidade; Mas também em 1910 outra hipótese se levantou, como a de haver um descongelamento da cauda do Halley fazendo entrar outro gás, o nitrogénio, na atmosfera (presente nos cometas), tendo sido especulado que se este se fundisse com o oxigénio, poderia eventualmente lançar na atmosfera uma descarga de óxido nitroso (também conhecido como Laughing Gas, tão conhecido pelos filmes do Batman por ser usado pelo vilão The Joker). Esta hipótese não só lançaria a Humanidade na loucura, como continua a ser objecto de estudo ainda nos dias de hoje.

Foi em Março de 1986

A 13 de Março de 1986 a Sonda Giotto fez a sua aproximação máxima ao Cometa Halley (596 km). Esta sonda recebe o nome do pintor Giotto, que está representado numa estátua nas Galerias degli Uffizi, de que aqui já falámos.

Giotto Cometa Halley
Representação artística da Sonda Giotto, por Andrzej Mirecki

A Giotto foi uma missão da ESA – Agência Espacial Europeia e foi lançada por um foguete Ariane 1. Este foguete foi o primeiro da sua família (Ariane), apresentando uma carga total 210 toneladas e com a capacidade de colocar satélites em órbita geo-estacionária até um peso total 1.850 quilos. A Sonda Giotto foi lançada a 2 de Julho de 1985, tendo alcançado o seu objectivo a 13 de Março de 1986.

Nunca se esperou que a Giotto pudesse sobreviver, até porque teria de atravessar a cauda do Halley. A libertação de partículas da cauda e o seu consequente impacto na sonda surpreendentemente não avariou a Giotto, tendo esta sido redirecionada para interceptar um segundo alvo, desta feita o cometa Grigg-Skjellerup.

A distância da Giotto do Sol (na altura do encontro com o Cometa Halley) era de 133.142.105 Km ou 0.89 Unidades Astronómicas, e estava a uma distância da Terra de 146.605.913 Km ou 0.98 UA.

Os objectivos da Giotto eram os de obter fotos coloridas do núcleo do cometa, determinar os seus elementos químicos através da análise da cauda. Caracterizar física e quimicamente a atmosfera e ionosfera do cometa, e investigar a libertação de gás e fluxo de plasma aquando da intercepção com o Sol.

A importância da Giotto na Armada Halley

Cometa Halley Halley Armada
Representação artística da Halley Armada:Giotto, Vega 1, Vega 2, Suisei & Sakigake.

A Giotto foi a primeira missão de Espaço profundo europeia, e foi também a primeira missão a obter fotos de perto de um cometa. Aliás, e porque foi redireccionada para o Grigg-Skjellerup, foi também a primeira sonda a interceptar 2 cometas.

Mas há mais, porque cientificamente para que a sonda pudesse regressar com os dados para perto da Terra, foi também a primeira sonda a fazer uso da assistência gravitacional.

E se a Giotto já tinha sido ousada (uma vez que no Espaço/vácuo, 596 km é muito perto de um cometa) com o Halley, ainda foi muito mais ousada com cometa Grigg-Skjellerup, do qual ficou apenas a uma distância  de 200 km.

Acompanhava a Giotto a sonda Vega 1 (que antes largou um lander em Vénus, dirigindo-se posteriormente para o Halley). Esta sonda que ficou a 8,889 km do Halley é de concepção URSS/França e dinamizada pelo Programa Intercosmos. Foi lançada uma segunda sonda, a Vega 2, que ficou a 8,030 km do Halley.
Fez também parte da Armada a sonda Suisei, conhecida com PLANET-A da responsabilidade da JAXA. Esta sonda estudou o cometa a uma distância de 151.000 km, tendo chegado ao seu objectivo a 8 de Março de 1986. Apesar da distância a que estava do cometa, a Suisei sofreu dois impactos de poeiras libertadas pela sua cauda.
A Suisei foi ainda acompanhada pela Sakigate (também japonesa, e da responsabilidade do Institute of Space and Astronautical Science, que mais tarde se transformou na JAXA). Esta observou o cometa a uma distância de 7 milhões de Km.

A próxima visita do Halley tal como mencionado no início deste artigo será a 28 de Julho de 2061, altura em que será visível em todo o planeta Terra, porque vai voltar passar muito próximo.

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