Cérebro
Visualizar a atividade cerebral para transformação em ritmos musicais, no sistema concebido pela Artica Creative Computing.

O panorama cultura lisboeta está generoso para aqueles que se interessam pela interseção entre a arte e ciência. Até 22 de abril continua no MAAT a exposição Hello Robot, que nos leva a refletir sobre a nossa relação com a robótica através de artefatos da história da computação, design, tecnologia e experiências artísticas. Agora, aproveitando a comemoração do 150º aniversário de Calouste Gulbenkian, a venerável Fundação Gulbenkian traz ao público a exposição Cérebro: Mais Vasto que o Céu. Nela, os visitantes são convidados a descobrir talvez aquele que seja o mais importante órgão do corpo humano.

Da Biologia à Robótica

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Modelo de neurónio.

O percurso expositivo, muito aberto, mostra várias áreas da investigação em neurociências. Pode-se ficar a conhecer melhor o cérebro através de artefatos que vão da neurociência à história da medicina, passando pela interseção com a tecnologia e explorações artísticas. Esta exposição tem uma fortíssima componente pedagógica, e nisso sofre um pouco por ser excessivamente expositiva. Esta vertente é essencialmente explorada através do design gráfico, com texto e imagem que, francamente, é melhor lido e apreendido tranquilamente através do catálogo, que as reproduz, do que no bulício da sala de exposições.

É na interação com artefatos artísticos e tecnológicos que esta exposição ganha interesse. Os mais icónicos, significativamente, abrem e fecham o percurso expositivo. O final da exposição dá-nos a conhecer os BeBots, robots pintores de Leonel Moura. Mas, logo à entrada, contemplamos a extraordinária visualização do cérebro que é o trabalho Self Reflected. Este é o resultado da parceria entre o artista plástico Greg Dunn e o neurocientista Brian Edwards. Pegando nos trabalhos de mapeamento dos neurónios cerebrais, Dunn mistura diferentes técnicas numa visualização em microgravura em ouro que nos mergulha nas intricadas redes neuronais do cérebro humano. É uma peça impressionante de multimédia, que nos trava ao entrar no espaço.

Conhecer a Evolução da Investigação em Neurociências

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Representação gráfica de neurónios, desenhada pelo médico espanhol Ramón y Cajal.

Nesta exposição, mergulhamos na neurociência, com um percurso concebido para nos apresentar uma caracterização do cérebro. Através dele fica-se a conhecer um pouco sobre a sua evolução e constituição. Algo que é conseguido através de uma mistura de visualizações e mostra de artefactos da história da medicina. E, também, por uma das peças centrais desta exposição. Numa localização estratégica, servindo de fio condutor e barreira ao percurso, um neurónio gigante transfere para a macro-escala as estruturas microscópicas dos elementos que possibilitam a nossa capacidade de pensar. A estrutura é interativa, com sensores e leds que reagem à presença dos visitantes.

O como o cérebro funciona é explorado através do relato de experiências científicas que medem tempos de reação, ou o sempre fascinante campo das ilusões de ótica. Aqui, o mundo artístico interseta.se com a perceção visual, e a escolha de uma obra de Bridget Riley, um dos expoentes da OpArt, serve como contraponto à frieza científica. Nesta vertente da exposição, o convite ao visitante é o de perceber as várias dimensões biológicas e percetivas do cérebro humano.

Dealbar das Inteligências Não Humanas

O término do percurso confronta-nos com as noções de inteligência artificial e não-humana, feito através do trabalho de Leonel Moura. Este artista português é um dos pioneiros da arte digital em Portugal. E, provavelmente, dos seus poucos praticantes por cá, embora veja o seu trabalho bem reconhecido no exterior. Um dos aspetos mais marcantes da sua obra é o projeto que desenvolve com robots, complementando a sua programação base para deslocação e desvio de obstáculos com algoritmos estigmérgicos. O resultado são os seus BeBots, robots-pintores que se deslocam de forma autónoma numa área confinada, executando traços como reação ao seu ambiente. As suas trajetórias e pinturas não são pré-programadas.

Este é um trabalho artístico que coloca em questão as relações entre arte e humanidade. Quem é, aqui, o artista? O robot autónomo, ou o humano que cria a sua programação-base? Ao longo desta exposição, os robots irão executar uma pintura a cada cinco dias. Uma das obras criadas por esta parceria homem-máquina está em exposição, desafiando a percepção dos visitantes.

Como pormenor técnico, o suporte tecnológico do projeto BeBot são robots Bot’n’Roll. São desenvolvidos por uma empresa portuguesa, pensados como uma plataforma de robótica DIY para a educação. Anualmente, equipes de alunos do ensino secundário e superior aprendem a construir e programar estes robots na competição Roboparty, organizada pela universidade do Minho. Os que Leonel Moura utiliza são uma expansão do kit Bot’n’Roll One, com sensores de ultra-sons e sistema para elevar e baixar a caneta. Para quem conhece bem este tipo de robots. suas aplicações, e trabalha com hardware similar, sejam mBots, Lego, Anprino ou outros, vê-los interagir com elevado nível de precisão é interessante e inspirador.

Robots Artistas, Finalmente na Gulbenkian

É sintomático da apatia do mundo artístico português relativamente às questões levantadas pela tecnologia a presença de uma obra destas numa exposição com temática científica. É o próprio Leonel Moura que levanta esta questão. Observou num post em redes sociais que a sua arte chegou, finalmente, à Gulbenkian, mas integrada numa exposição sobre ciência e não como arte por mérito próprio. Que a venerável instituição não está muito preparada para exposições em que o lado tecnológico predomina estava patente nalguns aspetos desta. Visitei-a no primeiro dia. Um dos robots pintores estava bloqueado (provavelmente, um problema no sensor ultrassónico). Ninguém intervia, assumindo provavelmente que a paralisia do robot fazia parte da instalação.

Tecnologia, Cérebro e Avarias

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NAO ao serviço do estímulo comportamental e empático a crianças autistas, no projeto AST do Instituto Superior Técnico.

Noutra área da exposição, um robot NAO demonstrava o projeto ASK, desenvolvido pelo Instituto Superior Técnico. Este utiliza um andróide, combinado com sensores kinect, para estimular empatia em crianças autistas através da imitação de gestos. No entanto, o seu funcionamento não era claro, ou rápido. As funcionárias da instituição presentes comentavam que estavam à espera de técnicos para verificar a questão.

Algo similar se passava na área central. Ali, os visitantes interagiram com um dispositivo que media a atividade eletroencefalográfica e a traduz em gráficos e partituras. A identificação do projeto não era clara ou visível. Perguntar que dispositivo era à solícita e simpática assistente mostrava que estes não estavam preparados para responder. Foi preciso consultar o catálogo para perceber que se está a interagir com um projeto da Artica.cc. Este é outro dos nomes de referência em Portugal na interseção entre arte e tecnologia. Nesta experiência criada em colaboração com o compositor Rodrigo Leão, a leitura EEG controla a criação de uma peça musical.

Uma Exposição Ambiciosa

A exposição Cérebro: Mais Vasto que o Céu tem sido publicitada como uma experiência única e marcante. Na verdade, não o é, embora se possa interagir com alguns projetos artísticos muito interessantes, na interseção entre neurociências, arte e tecnologia. Está carregada com um didatismo que talvez passe despercebido a boa parte dos visitantes. Alguns dos espaços surpreendem, outros perdem-se num ambiente algo soturno. O negro é o tom dominante da exposição, que se traduz num espaço pouco luminoso.

Partes da exposição são melhor exploradas através da leitura do seu catálogo. Este livro é abrangente. Reproduz boa parte dos elementos gráficos da zona expositiva. Estes são complementados por texto introdutórios a algumas das suas premissas. Contrariando a tendência neste tipo de iniciativas, tem um preço acessível. Por comparação, o catálogo da Hello Robot, também um documento muito interessante que vai para lá da listagem de projetos em exposição, tem um preço demasiado elevado.

No entanto, não deixa de ser uma excelente reflexão sobre o cérebro. Mostra-nos um pouco de ciência, e leva-nos a refletir sobre a cada vez maior preponderância da tecnologia. Através dela, conseguimos perscrutar o interior do suporte biológico da nossa mente e do nosso ser. E as tecnologias estão a permitir-mos conceber a possibilidade de criar inteligências não-humanas. Algo que traz novos dilemas éticos e morais às tentativas de responder a uma questão que ainda hoje nos parece elusiva: o que define, realmente, inteligência e consciência. Nesta comemoração do aniversário do seu fundador, a Fundação Gulbenkian mostra-nos o melhor do seu serviço público. Esta exposição é uma iniciativa abrangente entre educação, cultura, ciência, arte e tecnologia. 

Algumas Imagens:

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Pintura criada pelos robots-pintores de Leonel Moura.
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BeBot: robot pintor de Leonel Moura.
Cérebro
NAO ao serviço do estímulo comportamental e empático a crianças autistas, no projeto AST do Instituto Superior Técnico.
Cérebro
As ilusões de ótica e a forma como nos ajudam a compreender o cérebro. Pintura de Bridget Riley.
Cérebro
Um neurónio gigante que reage à presença dos visitantes.
Cérebro
Primeiros indícios do cérebro, em vestígios fósseis.

***Aceite o nosso convite e leia o artigo Utilizar Inteligência Artificial para Compreender a Criação Artística. Ou clique em baixo para saber mais,

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