GauGAN
Preenchimento interativo de formas desenhadas com imagens realistas (Nvidia).

Imagine que está a passar os olhos pelos feeds das redes sociais, e algo lhe desperta a atenção. O olhar pára, contemplando uma belíssima fotografia de uma paisagem absolutamente deslumbrante, um daqueles locais de sonho onde a natureza e a luz se conjugam na perfeição. Mas essa paisagem pode não ser existir. A foto pode ser gerada por Inteligência Artificial. E nunca conseguirá perceber se é real, ou falsa. Distinguir o real do falso em imagens digitais acabou se de tornar ainda mais difícil, graças à Nvidia. O fabricante de placas gráficas acabou de revelar uma tecnologia de geração automatizada de imagens que recorre a inteligência artificial. Chama-se GauGAN, nome que homenageia o pintor pós-impressionista Paul Gauguin. O sistema utiliza o poder das redes adversariais generativas aliado a uma base de dados com um milhão de fotografias, para permitir criar cenários artificiais hiperreais com uns poucos cliques de rato.

Pintar Cenários Irreais

O interface da GauGAN é enganadoramente simples. À esquerda, um ecrã permite desenhar de forma rudimentar formas no ecrã. Seleciona-se o tipo de elemento a aplicar e à direita, a aplicação mostra-nos o resultado  numa imagem realista, enchendo os espaços com fotografias que se mesclam de forma quase perfeita. O efeito final é muito real, mas nada do que vemos na imagem existe mesmo. Essencialmente, o utilizador apenas tem de fazer um rascunho no ecrã, selecionar temas e efeitos ambientais. A Inteligência Artificial faz o resto, alterando os resultados em tempo real, de acordo com a interação de quem a utiliza.

Pelo que é visível nas demonstrações, o sistema é avançado. Não se limita a clonar fotografias nas áreas definidas pelo utilizador. Adapta-se às formas desenhadas, ajustando as imagens sintéticas que produz. Utiliza algoritmos de aleatorização para que os resultados sejam mais realistas.

Redes Neuronais na Ponta dos Dedos

GauGAN
Com alguns rascunhos, o sistema é capaz de gerar uma queda de água realista (Nvidia).

Por enquanto, a GauGAN, demonstra o potencial do trabalho que a Nvidia está a desenvolver com redes neuronais. O sistema corre sobre a Tensor, uma plataforma de computação com algoritmos de inteligência artificial. No entanto, por enquanto, é necessário um computador com uma GPU potente para correr esta aplicação com rapidez e resultados em tempo real. A Nvidia está a trabalhar para que seja acessível a sistemas menos poderosos, e até mesmo correr a partir do CPU.

A rede neuronal que suporta a GauGAN foi treinada com cerca de um milhão de fotografias do Flickr. Com esta quantidade de dados, não só foi treinada para reconhecer as variações das paisagens, como sintetizar objetos e as suas relações no mundo real, adaptando as suas produções para criar imagens realistas. No entanto, ainda não atingiu o fotorealismo. As suas criações, se observadas minuciosamente, apresentam imperfeições e inconsistências. Mas o algoritmo continua em desenvolvimento, prevendo-se que obtenha resultados progressivamente mais realistas.

Cenários Virtuais Realistas

GauGAN
Rascunhar para gerar imagens realistas (Nvidia).

Um ponto interessante neste sistema é que contraria a tendência do uso de algoritmos de Inteligência Artificial na produção de imagens. A geração pictórica usando GANs e outras técnicas tem-se concentrado na criação de figuras que nos parecem estranhas e surreais. As estéticas de transferência de estilos que produzem iconografias inquietantes. No entanto, a GauGAN segue o caminho diametralmente oposto, procurando criar imagens com um elevado nível de realismo.

Este realismo está diretamente relacionado com as finalidades deste sistema. Esta ferramenta foi pensada como utilitária. A geração automatizada de imagens é útil como forma de facilitar a criação de cenários para jogos ou aplicações multimédia. Permite aos designers e artistas gráficos poupar tempo no fluxo de trabalho. No entanto, as implicações nos domínios da veracidade e fiabilidade da imagem digital não passam despercebidos aos criadores da GauGAN. Utilizado-a, torna-se ainda mais fácil produzir imagens falsas, indutoras de informação falsa online. Da próxima vez que ver numa página web ou rede social uma foto com uma deslumbrante paisagem, recorde-se: pode ser uma imagem gerada por Inteligência Artificial. E nunca conseguirá perceber se é real, ou falsa.

Aceite o nosso convite e leia o artigo Seis Livros Para Descobrir a Inteligência Artificial.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.