Durante os próximos 10 anos, o Espaço vai ser dominado essencialmente por 3 grandes países: EUA, Rússia e China. Não se trata de enviar um rover até Marte, ou um rover até à Lua, mas sim de estar a realizar no Espaço operações que venham a permitir um estabelecimento espacial permanente, fora ou para além dos limites da atmosfera do planeta Terra.

Esse domínio deveria ser exploratório e científico, mas como o Espaço representa a próxima fronteira de um ponto de vista energético, comercial (com a mineração de asteróides e afins), colonizador, etc, e estas 3 grandes potências estão a entender que esta expansão espacial não poderá estar dissociada de uma militarização do Espaço.

As declarações do vídeo acima são do General John Hyten, the Chefe do Comando Estratégico numa audiência no Reagan National Defense Fórum em Simi Valley na California, em Dezembro de 2017.

Nessa reunião o General referiu que desde 1991 que a Rússia e a China viram como as Forças Armadas dos EUA fizeram uma utilização muito bem-sucedida dos satélites em operações militares como a Guerra do Golfo, e que agora estão à procura de  maneiras de negar aos EUA e aos seus aliados, a capacidade de usar satélites em conflitos futuros.

Segundo o General Hyten, referindo-se à utilização de armamento no Espaço referiu que a Rússia e a China estão a construir armas, testando-as, desenvolvendo tecnologias para operar a partir da Terra no espaço, a desenvolver armas laser, e até sem preocupação de manter grande segredo nessas acções.

O perigo da inutilização do sistema de satélites dos EUA é por exemplo o de ser a única forma de responder e tentar precaver um ataque nuclear, lançado eventualmente pela Coreia do Norte, da qual a Rússia e a China são “simpatizantes”… Mas não só…

Os sistemas de comunicações e transportes ficaram inactivos, o que significaria o colapso do Ocidente. Portanto não há solução que não “armar o Espaço”, numa lógica de defesa, o que agrava por outro lado a enorme tensão já existente…

Sobre o uso de armas no Espaço

Em 1959 a ONU estabeleceu o Committee on the Peaceful Uses of Outer Space (COPUOS). Este comité versava principalmente a cooperação internacional para a exploração espacial. Com esta iniciativa durante a décadas de 60/70 e no seguimento de diversos acordos para impedir a utilização de armamento no Espaço exterior, incluiu-se o Tratado de Proibição Parcial de Ensaios (no Espaço Sideral e Subaquático – 1963).

Seguiu-se o Outer Space Treaty (Tratado do Espaço Sideral), ou talvez de forma mais formal conhecido como o Tratado sobre os Princípios que Regem as Atividades dos Estados na Exploração e Utilização do Espaço Sideral, Incluindo a Lua e Outros Corpos Celestes. Foi a 27 de Janeiro de 1967. Em 2008 já 98 países eram signatários deste tratado.

Mas os problemas sucederam-se: em 2008, a 20 de Fevereiro, os Estados Unidos abateram um satélite espião que transportava aproximadamente meia tonelada de combustível de foguete de hidrazina, um produto químico tóxico. Uma vez que o satélite avariou logo no início da missão, e que havia o risco destes químicos entrarem na atmosfera terrestre, optou-se por destruir com um míssil este satélite. A operação de destruição ficou conhecida como Operation Burnt Frost. Só que a questão aqui é que ficou assumido que os próprios americanos não estavam a cumprir aquilo a que se propuseram…

Portanto, e apesar de uma série de iniciativas em tentar fazer aprovar mais acordos no sentido de melhorar a transparência no sentido de não militarizar o Espaço, é sempre levantada a suspeição que alguém estará a “dizer uma coisa, enquanto faz outra”, não existindo inocentes de parte a parte.

Mas se os EUA alguma “pisaram o risco” a China fez anteriormente muito pior. Por exemplo na tarde de 11 de Janeiro de 2007 (um ano antes da Operação Burnt Frost), o Major-General William Shelton encontrava-se no California’s Vandenberg Air Force Base, com um telefone em cada ouvido a receber actualizações sobre um ensaio da China, sem pré-aviso…

Neste dia, o comando operacional estava a receber reports sobre um teste de mísseis que a China iria levar a cabo. Por volta das 15:00 os radares com sensores infravermelhos dos EUA acompanharam um míssil chinês, que levantou do Centro de Lançamento de Satélites Xichang a 800 km da Terra (a estação espacial internacional está a 500 km de altitude), e que se aproximou de um satélite desactivado chinês, tendo sido registado pelos americanos apenas um “clarão”…

O importante aqui é o tipo de ensaio tecnológico… Um teste para testar se a partir da Terra, a China conseguia destruir um satélite que orbitava a 27.000 Km/hora. E quem destrói um satélite seu em movimento, pode destruir um satélite de outrem.

Por essa razão, nessa tarde o General William Shelton expressou a sua convicção de que esta acção “mudava tudo”!

E mudou mesmo. Logo após este ensaio, a Coreia do Norte começou a tentar desenvolver tecnologia para paralisar os satélites norte-americanos segundo os relatórios de Intelligence dos EUA. Aliás, a Space Force de Trump é em grande medida uma acção motivada pelos contínuos avisos dos líderes militares dos EUA, pelo perigo que se esconde no Espaço.

Os efeitos da “Guerra Fria” aos satélites no Espaço

Quando em 2007 a China realizou o teste de destruição de um satélite a partir da Terra,  ficaram mais de 3000 pedaços a voar a uma velocidade superior à de uma bala no Espaço,  em órbita da Terra.

Dois anos mais tarde dois satélites colidiram a cerca de 800 km da Terra, sobre a Sibéria. Um satélite comercial dos EUA, propriedade da Iridium, lançado em 1997 e com um peso de 560 kg, chocou com um satélite russo que tinha sido lançado em 1993 e que pesava cerca de uma tonelada. Esta colisão originou mais 2000 estilhaços.

De facto aquilo que se estima é que actualmente existam cerca de 150.000 pedaços/estilhaços em órbita, podendo chocar com outras sondas ou satélites e criando ainda mais lixo espacial, numa destruição em cascata.

Este lixo espacial cria o efeito Kessler, por ter sido definido por Don Kessler da NASA em 1978: esta teoria defende que este tipo de lixo espacial vá encontrando com o tempo outros alvos ou sondas, e que vá aumentando o lixo espacial, gerando uma cortina em órbita da Terra que seja intransponível durante décadas ou centenas de anos, pela nossa tecnologia.

A esta cascata de colisões que ocupam toda a órbita chamamos o efeito de Kessler, e funciona como uma prisão gravitacional, na medida em que não é possível ultrapassar a órbita da Terra sem ter um número significativo de colisões – que gera aliás ainda mais destroços.

Para se perceber melhor esta problemática, ver o vídeo seguinte da European Space Agency.

E a Terra protege-se… Mas não o suficiente!

A cada 11 anos sensivelmente, os ciclos solares fazem com que o planeta Terra receba mais energia solar. Essa quantidade de energia extra faz com que as camadas inferiores da atmosfera se “dilatem”, o que origina uma expansão dos gases na parte superior da atmosfera. Esses gases vão abrandar a velocidade dos objectos em órbita, fazendo com que estes entrem na atmosfera da Terra e sejam vaporizados.

Este mecanismo de higiene do Espaço em órbita da Terra, não é contudo suficiente para limpar todo o lixo espacial que está a ser lançado pelos humanos.

Por esta razão e porque estamos dependentes dos satélites, com todas as tecnologias que eles nos proporcionam, as agências espaciais começaram a tentar encontrar soluções para este problema.

O sistema SpaDE, um “Pulse Generator” numa plataforma de balão atmosférico, foi desenhado para provocar a perda de energia dos detritos espaciais em órbita, fazendo-os reentrar na atmosfera e portanto destruindo-os. Essa solução estudada pela Raytheon BBN Technologies (BBN) e a Universidade de Michigan parece ser a solução da NASA para limpar as diversas cinturas de detritos que inviabilizam já muitas rotas, devido à acumulação excessiva de detritos nos últimos 20 anos.

A European Space Agency está a estudar sistemas paralelos para tentar resolver o problema dos destroços espaciais, como se pode ver no vídeo seguinte.

Caso não se consiga, para além do problema do aquecimento global, a Humanidade vai debater-se com outro problema tão ou mais grave: ficar encerrada na Terra, não conseguindo lançar durante muitas décadas missões espaciais, porque estas vão colidir com o lixo espacial em órbita, criando ainda mais colisões em cascata.

Avaliando os ídolos…

A explicação do efeito de Kessler permite-nos avaliar propostas como o Starlink, onde a SpaceX de Elon Musk pretende colocar em órbita de entre 4425 (da proposta inicial) até 12000 satélites a orbitar entre 1100 and 1300 Km acima da superfície da Terra…

Será boa ideia? Haverá tecnologia suficiente para impedir o perigo de apenas 1 satélite de se avariar, provocando o caos, e impossibilitando de vez a exploração espacial?

 

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