HIV (amarelo) a infectar uma célula imunitária humana (azul). Créditos: NIH/SPL.

*Artigo publicado ontem no Sapo 24

O HIV, o vírus que causa a doença SIDA continua a ser atualmente um dos maiores desafios de saúde mundial. Em 2017, cerca de 36,9 milhões de pessoas (0.5% da população mundial) eram portadores desta doença, que resultou em 940 mil mortes. Apesar de ainda não existir uma cura para o HIV/SIDA, os atuais tratamentos antivirais prescritos conseguem uma diminuição drástica no nível de vírus detetado, reduzindo o risco de transmissão e permitindo aos doentes uma vida quase saudável.

O HIV é um vírus que utiliza as células imunitárias ou seja, as defesas do corpo que infetou, para se multiplicar e se espalhar para outras zonas do corpo.

Para entrar nas células imunitárias, o HIV recorre a uma proteína chamada CCR5. Esta proteína pertence a um grupo grande de proteínas presentes na superfície das células imunitárias, e que são responsáveis por detetar sinais de perigo do nosso corpo, transmitindo essa informação às células imunitárias para que desempenham a sua função.

Um Vírus (verde) a entrar e infectar uma célula imunitária, a usar a maquinaria da célula para se multiplicar, e a sair da célula para infectar o resto do corpo. By Waglione – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4669253

Existe na população Humana uma mutação que ocorre naturalmente no gene do CCR5 que faz com que quando a proteína CCR5é produzida, ela não funcione, como se não existisse.  

O nosso material genético, o DNA, está duplicado: uma cópia que herdámos da nossa mãe e uma cópia do nosso pai. Cerca de 1% dos Europeus apresenta esta mutação nas duas cópias do DNA, causando a total perda de CCR5 funcional. Por outro lado cerca de 10% apresenta a mutação em apenas uma das cópias do DNA, causando apenas 50% da perda desta proteína.

Pensa-se que o primeiro grupo, com a mutação total, é “imune” ao HIV enquanto que o segundo grupo apresenta menos sintomas do que uma pessoa sem mutações ou seja, que esta mutação poderá ter efeitos benéficos, em vez de nos trazer complicações como na maior parte dos casos.

Com base nesta ideia, o cientista chinês He Jiankui inseriu alegadamente uma mutação no gene CCR5 em dois embriões causando a sua disfuncionalidade de forma parecida como a variante natural acima referida. Este processo foi supostamente conseguido usando o sistema de edição genética CRISPR/Cas9. Após esta alteração, o cientista afirmou ter reinserido os embriões no útero da respetiva mãe, levando a que os bebés nascessem em novembro 2018.

Estes serão os primeiros bebés, que temos conhecimento, que tiveram manipulações genéticas no seu DNA enquanto embriões, visto que este procedimento continua a ser ilegal. He Jiankui visou apresentar esta conquista médica como forma de mães portadoras de HIV poderem ter bebés saudáveis, imunes ao HIV. No entanto, a clara falta de provas para sustentar as afirmações do cientista He Jiankui deixam muitas dúvidas quanto à sua veracidade. Para além das implicações éticas, estaforma de edição genética apresenta também riscos, pois não é infalível, podendo causar edições noutros genes que não o gene desejado.

Em 2007, o médico alemão Gero Hütter tomou uma decisão revolucionária para curar o seu paciente, Timothy Ray Brown (também conhecido como o Berlin patient) que era portador de HIV e sofria de leucemia. Timothy não estava a responder bem ao tratamento de leucemia e precisava de um transplante urgente de medula óssea (também conhecido como transplante de células estaminais). Quando procurava um dador de medula óssea, Gero decidiu procurar entre os dadores se algum era portador desta mutação natural no gene CCR5, e encontrou. Em 2007 Timothy recebeu o transplante deste dador, continuando ainda hoje, 12 anos depois, curado de ambas as doenças.

Em 2017, Ravindra Gupta decidiu tomar uma decisão parecida, quando o seu paciente que estaria a sofrer de Lymphoma de Hodgkins (outro tipo de cancro do sangue) , bem como de HIV, não estava a responder ao tratamento de quimioterapia. Este paciente conhecido como o London Patient, deixou de tomar os comprimidos antivirais para tratar o HIV depois de receber um transplante de medula óssea com a mutação no CCR5, permanecendo após 18 meses, livre do vírus.

Apesar dos resultados extremamente promissores dos pacientes Berlin e London, esta intervenção médica não é viável para a maior parte dos pacientes HIV, dado que transplantes de medula óssea são perigosos e invasores, e tendo em conta o sucesso das atuais terapias em reduzir os sintomas dos pacientes HIV.

No entanto, estes resultados têm deixado por outro lado a promessa de que terapias que inibam o CCR5, poderão ser usadas no tratamento do HIV. Maraviroc, por exemplo, um inibidor de CCR5, é um fármaco atualmente prescrito a doentes HIV nos Estados Unidos e na Europa, mas que tem que ser tomado em conjunto com outras terapias antivirais visto que não atinge a total inibição da proteína (isto é, não consegue imitar totalmente o efeito da mutação).

Em resumo, e numa perspetiva futurista, espera-se que os próximos avanços na cura do HIV passarão pelo desenvolvimento de outros fármacos maispotentes na inibição do CCR5 e por novos procedimentos de edição genética de células imunitárias, para inserir a mutação no CCR5 em pacientes de HIV.

***Aceite a sugestão do Bit2Geek e clique em baixo para saber mais

IA que emite sinais de rádio para ver pessoas através das paredes

Artigo anteriorA evolução do VR headset e a telepresença no Espaço
Próximo artigoA NASA conseguirá colocar astronautas na Lua já em 2024?
Rebeca identifica-se com as plantas e sempre que pode apanha sol para recarregar as baterias. Depois da licenciatura em Bioquímica na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) partiu para Londres para fazer um mestrado na University College London (UCL) em Ciências Biomédicas onde recebeu um prémio monetário pelo melhor projecto de tese. Após o mestrado, trabalhou no Laboratory for Molecular Cell Biology no University College London (UCL) como investigadora em laboratórios especializados em doenças genéticas raras, relacionadas com o cérebro (Battens Disease) e com o sistema digestivo (ARC Syndrome), respectivamente. Ambas estas doenças têm mutações em genes que originam proteínas de função ainda desconhecida. Os projectos nos quais esteve envolvida fizeram avanços na descoberta da função destas proteínas e resultaram em publicações em revistas científicas internacionais. Esse período permitiu-lhe ganhar autonomia a trabalhar em diversos modelos celulares desde da levedura às células estaminais.   Em 2017 iniciou o Doutoramento no Imperial College, no London Institute of Medical Sciences. O seu projecto tem como objectivo estudar melhor a regulação e função do AMPK, uma proteína essencial na manutenção dos níveis de energia das células. Isto terá implicações no tratamento de doenças como a Obesidade e Diabetes.