*Este artigo foi publicado ontem no Sapo 24

Recentemente começamos a assistir a um alinhamento de vontades por todos os intervenientes do Espaço, tanto novos como antigos, mas com um objetivo de há 50 anos: a Lua. E este é o motivo.

No dia 5 de agosto de 1930, nasceu um dos maiores pioneiros da história da Humanidade e da exploração espacial, Neil Alden Armstrong. Descendente de imigrantes e apenas o segundo da família a frequentar a universidade, desde muito cedo mostrou interesse pelos campos da engenharia e aviação, que eram áreas na altura reservadas a uma pequena elite e a militares. Mas Neil sonhava voar, mais rápido e mais alto que todos os outros, o que fez da sua vida uma corrida de obstáculos, perdas e conquistas, que no final o levaram a ser o primeiro ser humano a pisar outro corpo celeste, o nosso satélite natural: a Lua.

A Corrida Espacial levou 12 homens à Lua e foi o culminar de uma guerra “de substituição” ou Proxy War, entre os Estados Unidos da América e a União Soviética (como muitas outras que se seguiram, mas nenhuma com um impacto tão positivo como esta). Mas também foi o materializar do sonho de dois homens, um de cada lado do oceano, de cada lado das “trincheiras”: Em concreto, Wernher von Braun e Sergei Korolev.

Foto oficial de Neil A. Armstrong a 1 de Julho de 1969, dias antes do lançamento da Apollo 11. (Crédito: NASA)

Quando Neil Armstrong pisou a Lua pela primeira vez proferindo a famosa frase “One small step for a man, one giant leap for Mankind” [Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a Humanidade], ele estava verdadeiramente a falar por toda a Humanidade, pois nesse preciso momento numa sala fechada com cosmonautas e figuras importantes do programa espacial soviético também se celebrou (com uma pontinha de inveja como mais tarde recordou Alexei Leonov, o primeiro homem a realizar um passeio espacial), enquanto assistiam à transmissão em direto, juntamente com mais de 600 milhões de pessoas por todo o mundo.

A verdade é que o desenvolvimento da aviação inspirou Neil Armstrong a tirar a licença de piloto antes da carta de condução, e da mesma forma a exploração espacial inspirou também as gerações vindouras, que passaram a olhar as estrelas e para o Universo não como umafronteira do conhecimento, mas como um desafio à espera de ser conquistado.

Por exemplo, um pequeno satélite lançado pela União Soviética, chamado Sputnik, em 4 de outubro de 1957 levou à criação de grupos de trabalho nos Estados Unidos da América que de forma detalhada propuseram a criação “com a maior urgência” de uma base lunar e que esta deveria estar a operar de forma permanente em dezembro de 1966 com 12 pessoas, o chamado Project Horizon. Este plano foi abandonado aquando da formação da NASA, sendo dada a preferência a um plano mais modesto, o Programa Mercury, seguido do Programa Gemini, e culminando no Programa Apollo que nos “deu” a Lua.

Mas em 1972, o programa espacial americano foi vítima do seu próprio sucesso e do propósito pelo qual foi criado. A Corrida Espacial estava ganha, os soviéticos derrotados e incapazes de fazer chegar cosmonautas à Lua (devido aos sucessivos falhanços do seu foguetão N1, o equivalente do foguetão Saturn V dos americanos), e o interesse do público e do poder político havia esmorecido. A exploração da Lua tinha deixado de ser entusiasmante e depois da Apollo 17 (lançada em dezembro de 1972), nunca mais nenhum humano pisou a Lua.

Saltando para 2019, às portas do 50.º aniversário dos primeiros passos de Armstrong na Lua, 8 anos depois de o programa do Space Shuttle (Vaivém Espacial) ter terminado, e numa altura em que a única forma da maioria dos países com capacidade espacial conseguirem colocar alguém em órbita é usando as cápsulas Soyuz, cujo design tem cerca de 60 anos, eis que surge mais uma leva de pessoas com um sonho. O sonho de levar a Humanidade a conquistar aquilo que havia sido prometido nos anos 60 ou seja, de conquistar o Sistema Solar e de com isso levar a própria Terra e os seus habitantes diretamente para o Futuro.

Se com apenas 6 viagens a aterrar na Lua, e uma mão cheia de estações espaciais conseguimos a tecnologia que hoje possuímos, imaginem por momentos que o Project Horizon havia sido concretizado e que desde os anos 70 havia uma base lunar permanente.

Crédito: Representação artística do que seria o Project Horizon em Dezembro de 1965, pronto a receber a sua primeira tripulação permanente de 12 pessoas. créditos: False Steps.files.Wordpress.com

Desta vez o objetivo não é militar, nem apenas de derrotar um adversário. Com o renascimento da Corrida Espacial que estamos a viver, iremos conseguir finalmente cortar a nossa ligação à Terra e, tal como os navegadores da época dos Descobrimentos, iremos agora poder usar a nossa tecnologia para deixar de “navegar” com Terra à vista e passar a “águas” mais profundas e mais longínquas…

Quando surgiram as primeiras empresas privadas, que não tinham toda a maquinaria burocrática das agências espaciais mais antigas, nem o receio de investir e arriscar o seu orçamento, estes projetos pareciam apenas sonhos de milionários que nada iriam fazer de novo… Até que a SpaceX de Elon Musk conseguiu fazer algo que iria revolucionar o transporte espacial. Depois de múltiplas tentativas em 2015, conseguiu aterrar em terra o primeiro estádio (first stage) de um foguetão Falcon 9 e no ano seguinte repetiu a proeza mas em alto mar e num navio automatizado (drone ship, neste caso chamado Of Course I Still Love You).

Só os Estados Unidos da América conseguiram colocar astronautas na Lua, apenas três países conseguiram colocar rovers na superfície da Lua (China, EUA e Rússia – com uma menção que dentro de pouco tempo Israel poderá juntar-se a este grupo) e seis países conseguiram enviar e colocar orbitadores a estudar a Lua (Japão, India, Europa, Rússia, EUA e China), maior parte deles só nos últimos anos é que começaram a desenvolver os seus Programas Espaciais.

Os intervenientes tradicionais (Rússia e EUA) começaram a ver outras potências lentamente a alinhar os seus planos de exploração em direção a Marte e depois à Lua como stepping stonepara o planeta vermelho. Isso acordou os veteranos para a necessidade em fazer algo, teriam que arriscar e deixar o conforto de glórias passadas e tecnologia fiável, mas antiquada…

Recentemente começamos a assistir a um alinhamento de vontades por todos os intervenientes do Espaço, tanto novos como antigos, mas com um objetivo de há 50 anos, a Lua, pelo enorme potencial que revela na exploração espacial. Só que desta vez será para ficar, para testar tecnologias de habitats e de sustentabilidade da permanência humana noutro corpo celeste para além da Terra. Será nos próximos cinco anos, como anunciou Mike Pence? Não, mas o futuro já não está muito longe… o futuro está cada vez mais perto e nele podemos já vislumbrar bases lunares e o primeiro humano em Marte a proferir uma frase que se irá juntar às palavras de Neil Armstrong.


Leitura Complementar: Jawin, E. R., Valencia, S. N., Watkins, R. N., Crowell, J. M., Neal, C. R., & Schmidt, G. (2019). Lunar science for landed missions workshop findings report. Earth and Space Science, 6, 2–40.

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