O que nos torna realmente humanos? Será a imaginação? Será esta uma característica exclusiva do ser humano? Se deixarmos de imaginar deixaremos de ser pessoas? É importante pensar sobre isto, porque a gorila Koko logo que aprendeu a falar, aprendeu também a imaginar ou melhor, a mentir! Parece que a linguagem, a capacidade de comunicar com outro ser, coloca sempre em cima da mesa a possibilidade de verbalizar não um facto mas sim aquilo que com a imaginação, nos possa ser mais favorável. E não é preciso sermos “seres morais” para mentir. Os animais também mentem!

A gorila Koko nasceu no Zoo de São Francisco nos EUA a 4 de Julho de 1971, e morreu em Woodside (onde viveu praticamente toda a sua vida), a 19 de Junho de 2018.

Este gorila foi alvo de uma experiência de aculturação com os humanos, ou seja foi treinado pela Dra. Penny Patterson e de um grupo de cientistas da Universidade de Stanford para aprender a “língua de sinais americana”. Esta linguagem é a forma dominante de comunicação na comunidade de indivíduos que sofrem de surdez nos EUA, Canadá e partes do México, embora seja utilizada noutras partes do mundo.

Para quem não sabe esta língua difere da linguagem vocal na sintaxe e na gramática, tornando a comunicação mais simples, eventualmente. Actualmente a ASL ou Língua de Sinais Americana é usada por uma comunidade de 500.000 a 2 milhões, apenas nos EUA. E durante os 46 anos da sua vida, Koko foi treinado para a perceber e a usar com os humanos. A experiência foi de tal maneira bem sucedida, que originou aliás uma organização: a Koko.org

Muitos consideraram que os gestos de Koko fossem resultado de um “condicionamento operante”, porque supostamente os animais não têm sentimentos, inteligência e não podem pensar.

Mas nos vídeos a realidade parece ser outra…

Portanto é muito difícil aceitar de barato que em Agosto de 2004, e que foi notícia em diversos meios, a gorila Koko tivesse pedido ajuda para uma dor de dentes, sendo capaz inclusivamente de sinalizar aos seus tratadores qual o nível da dor de 1 a 10.

Ainda mais difícil foi explicar como em 2014 a gorila Koko, quando lhe foi explicado pelos tratadores que o “seu amigo” Robin Williams, com quem a Koko tinha gravado um vídeo em 2001 tinha morrido, poder aceitar-se que a Koko tenha na altura manifestado tristeza, mesmo sem ter estado em contacto com corpo do actor.

Ora se não foi aceite que a Koko tinha a capacidade de comunicar com humanos (tal como nos mostra o vídeo de introdução), muito menos é possível entender-se que esta gorila tivesse a capacidade de “imaginar uma resposta diferente da realidade”. No instinto, um animal não tem liberdade para negar se “quer ou não” comer, tendo em linha de vista uma resposta que o possa beneficiar no futuro…

Para um animal só com instinto, a acção é linear: se tem fome come, e se não tem fome não come, não havendo outros benefícios para além destes! Ou seja, um animal não tem a capacidade de contrariar o instinto. Ou tem?

Uma gorila não mente!

A Koko queria ter bebés, mas na raça dos gorilas tentar proporcionar-lhe essa “esperança” não é tarefa fácil. Em alternativa, e porque a Koko não se contentava com bonecas, foram-lhe oferecidos gatinhos…

Mas aquele que ficou como o seu “bebé” adoptado, o seu gato de estimação foi alvo de um episódio famoso… Após uma explosão de raiva a Koko arrancou uma sanita de aço pregada ao chão. Quando foi confrontada pelos seus tratadores sobre o que se tinha passado, a Koko sinalizou na Língua de Sinais Americana que “o gato fez isso”!

Não é possível aos cientistas averiguar se esta foi uma mentira, ou se porventura seria uma tentativa de fugir ao assunto através do humor, uma vez que os macacos brincam, fazem partidas e revelam até um “certo sentido de humor”. É aliás por isso que apelidamos as  “partidas” de “macacadas”…

Mas a questão aqui é outra: A Koko apresentou uma realidade alternativa, fora do instinto. Tendo a capacidade de comunicar através da ASL, foi de uma maneira ou de outra capaz de imaginar uma realidade que lhe era mais conveniente…

As mentiras são más!

Vamos escolher uma definição moderna de mentira. Uma definição de 2001, na obra “Telling Lies: Clues to Deceit in the Marketplace, Politics, and Marriage” escrita por Paul Ekman, um reputado psicólogo americano, pioneiro no estudo das emoções e das expressões faciais. Ekman é também um dos 100 mais reconhecidos psicólogos do Século XX, em grande medida pela sua Teoria da Universalidade das Emoções. Nela procurou provar, utilizando como referência uma tribo da Papua Nova Guiné, que existem 7 tipos de emoções universais e que são expressas com o mesmo display facial.

E o que diz ele sobre a mentira? Uma mentira é contada quando “uma pessoa tem a intenção de enganar a outra, fazendo-o deliberadamente, sem notificação prévia do seu propósito e sem ter sido explicitamente solicitado a fazê-lo pelo alvo” (cit. página 28).

E lançar o nosso semelhante num engano, pressupõe sempre um resultado: lançá-lo numa acção errada, que não resolva o seu problema. E isso é mau, pelo menos para o “alvo”, e não pode também ser bom para quem conta a mentira, porque a inteligência fez também de nós “seres morais”. Quem mente é alguém de quem se procura distância.

Mentir é sempre mau! A menos que se esteja a jogar Poker!

No Poker é licito mentir! É bom ter uma “Poker Face”! É socialmente aceite que dentro deste campo temos o direito de saber arquitectar uma estratégia de defesa contra o nosso inimigo…

Portanto o que aconteceria se existisse uma máquina de Poker (Inteligência Artificial), capaz de tal como está representado no vídeo seguinte, perceber sempre que estamos a mentir?

Existiram limites de “defesa”??? Não podemos mentir em nenhuma circunstância? Bom, Platão diz que sim mas Aristóteles, Santo Agostinho e Immanuel Kant disseram não! Em nenhuma circunstância podemos mentir!

Avancemos portanto para o século XX, centrando-nos numa frase atribuída ao Ministro da Propaganda Nazi do Terceiro Reich, Joseph Goebbels: “é mais fácil fazer as pessoas acreditarem numa grande mentira repetida muitas vezes, do que numa pequena verdade dita apenas uma vez”.

Seria ético portanto denunciar a um grupo de nazis de armas em punho a localização de uma família judia, se questionados para o efeito? A verdade é sempre boa? Quem não diz a verdade está a mentir?

O que seria da Diplomacia sem uma realidade alternativa? O filósofo Leo Strauss debateu-se bastante com esta questão… Como se pode fazer Humor, sem recurso à mentira?

Por saber isto mesmo, o próprio Catecismo da Igreja Católica distingue as mentiras de pecado mortal das mentiras de pecado venial (ou não importantes, embora mentira, como é o caso das “mentiras sociais” – como por exemplo a de “não tenho mais cigarros”, quando não se quer oferecer outro).

E pode farejar-se a mentira!

Há actualmente algumas maneiras de perceber se alguém está ou não a mentir. A mais conhecida é possivelmente o polígrafo, uma máquina que tem a capacidade de medir o stress corporal originado por uma situação de perigo, como é o caso de poder ser apanhado a mentir!

Projeto MK-ULTRA

Aprovação do Dr. Sidney Gottlieb da utilização de LSD no projecto MKULTRA. Crédito: Wikipédia
O Projecto MK-Ultra foi alegadamente um programa desenvolvido pelos Serviços de Inteligência dos EUA para realizar experiências em seres humanos com vista a desenvolver drogas e outros procedimentos que pudessem ser utilizados nos interrogatórios, visando debilitar o indivíduo forçando assim a sua confissão.

Pensa-se que terão sido administradas mescalina e LSD, entre outras drogas psicoactivas.

Esta tese foi defendida no livro “Torture and Democracy” de Darius Rejali, onde menciona também os Manuais KUBARK como repertório das técnicas utilizadas em Abu Ghraib, contra o terrorismo.

Verdadeiramente estas técnicas modernas de “fazer dizer a verdade”, como as utilizadas em Abu Ghraib e Guantanamo, são resultado do longo período de Guerra Fria seguido pela ameaça do Terrorismo. Saltou-se nas mentalidades uma barreira ética, e a verdade passou a ser uma questão de sobrevivência.

Mais saudável é a Teoria da Universalidade de Expressões de Ekman, ou melhor de micro-expressões, que acredita que se pode identificar a mentira através da perturbação facial. Há ainda neurocitentistas que acreditam que a mentira activa estruturas do cérebro, que podem ser identificadas por ressonância magnética, embora isso não seja prático.

O Fim da Busca pela Verdade!

Existem muitas razões para se tentar identificar a mentira. São elas a traição, o engano, a desinformação, a duplicidade, a fraude, a sedução, a astúcia, a dissimulação, etc…

E existe pelo menos uma para a manter: a defesa! A defesa numa guerra contra um inimigo, por exemplo. Como poderemos defender-nos por exemplo de um efeito imprevisto da Inteligência Artificial, se ele souber identificar sem sombra de dúvida que estamos a mentir? Este assunto foi magistralmente imortalizado na avaria do computador central Hal 9000, na obra de Stanley Kubrick 2001 Odisseia no Espaço:

Hal 9000 detecta as micro-expressões de Dave e movimento dos lábios, e resolve actuar no sentido de provocar a morte do astronauta.

Uma Inteligência Artificial que detecta a Mentira!

A verdade pode ser boa para determinar se se é inocente ou culpado em tribunal, mas estamos a avançar para um paradigma onde a única maneira de o fazer é através da utilização de uma rede neuronal ou melhor, através da Inteligência Artificial.

E será bom deixar a verdade ou mentira nas mãos da Inteligência Artificial? A esta pergunta respondeu antes de morrer Stephen Hawking

Mas recentemente foi anunciado por investigadores da Universidade de Maryland (UMD) que desenvolveram um “Mecanismo de Análise e Raciocínio da Decepção (DARE)“, um sistema que usa inteligência artificial (IA) para detectar autonomamente fraudes em vídeos de julgamentos em tribunais. A equipe de cientistas da UMD, liderada pelo coordenador do Center for Automation Research (CfAR), Larry Davis, informou recentemente que a sua IA que detecta a mentira, embora o estudo que levou a estas conclusões ainda tenha que ser analisado por mais colegas.

O DARE foi ensinado a procurar e a classificar micro-expressões humanas como lábios protuberantes e sobrancelhas franzidas, bem como a analisar a frequência audio para detectar padrões vocais indicadores se a pessoa está a mentir ou não.

E o DARE é fiável? Actua com precisão?

A palavra “precisão” aplicada ao DARE não é possivelmente a melhor.  Terá mais sentido falar em probabilidades.  O AUC (Area Under the Curve) do DARE ou seja, a sua “precisão” e probabilidade de um comportamento, é assente num conjunto de classificação de vários comportamentos que poderão ser indicativos de um padrão, tal como está na figura:

Crédito de imagem: Larry Davis, et al./UMD

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma das investigadoras da UM, Bharat Singh, refere no que diz respeito ao cálculo de probabilidades, que o DARE obteve uma AUC de 0,877 que, quando combinada com anotações humanas de microexpressões melhorou para 0,922. Normalmente as pessoas comuns têm uma AUC de 0,58, apontou Singh.

A Universidade de Maryland não é a única a correr atrás da construção de um “polígrafo” online, pelo que esta tecnologia associada à Inteligência Artificial é apenas uma questão de tempo! Mas mais: se a Inteligência Artificial se baseia em padrões, tom de voz, micro-expressões, etc, então também poderá dar-nos Insights diferentes sobre a comunicação com os animais. Bem vistas as coisas, o princípio é rigorosamente o mesmo…

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