GANBreeder
imagem produzida utilizando a rede neuronal GANBreeder (GANBreeder).

Artigo originalmente publicado a 10 de abril em versão curta no Sapo 24: Gerar monstros (ou será arte?) com Inteligência Artificial para pensar o futuro para lá do sonho.

Falar de Inteligência Artificial invoca sempre alguns medos e temores. Mas, e porque não usar esta tecnologia para criar algo de inquietante? Não no sentido social ou económico que geralmente lhe associamos, mas num sentido estético. A GANBreeder foi concebida para nos ajudar a criar monstruosidades, imagens de forte cunho surreal que nos colocam em diálogo com algoritmos assentes em redes neuronais.

Os Medos da Inteligência Artificial

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imagem produzida utilizando a rede neuronal GANBreeder (GANBreeder).

O Sono da Razão Gera Monstros, meditou Goya no quadro com este nome. Traumatizado de forma indelével com a violência consequente das Guerras Napoleónicas em Espanha, a braços com a sua fragilidade pessoal, a obra final do pintor é uma meditação sobre os pesadelos enraizados na alma humana, as trevas que a luz da razão não consegue aclarar. Se monstros nascem no sono da racionalidade, e se a própria razão gerasse monstros? Se os instrumentos da lógica, a elegância dos algoritmos, a complexidade dos parâmetros de análise de dados, fossem instrumentalizados como meio gerador de pesadelos?

Parte dos medos sobre Inteligência Artificial passam por aqui. Temos muitas incertezas sobre esta tecnologia. Tememos o seu impacto, conjugada com automação, no mundo do laboral. O que acontecerá ao emprego num mundo onde grande parte da economia é automatizada? Também nos assusta a perspetiva, que alguns consideram inevitável que as mentes digitais evoluam e se tornem conscientes. Uma verdadeira inteligência não humana que transcenderá os nossos limites. Seres computacionais superiores, que poderão querer preservar-nos como relíquias protegidas que lhes recordem a sua origem, ou exterminar-nos como empecilhos à sua rápida evolução auto-guiada.

Inteligência Verdadeiramente Artificial: Um Sonho Distante

São ideias algo aterrorizantes. Mas, na verdade. estamos ainda muito longe do surgir de uma verdadeira Inteligência Artificial consciente, e há muitas dúvidas sobre se tal será alguma vez possível. Esta tecnologia, hoje, é mais processamento muito rápido de enormes quantidades de dados utilizando algoritmos complexos do que consciências artificiais. Algo tornado possível pela explosão do big data, baseada na informatização de serviços e partilha de dados online, avanços no desenvolvimento de hardware cada vez mais potente, e diferentes formas de aplicar a lógica computacional a algoritmos complexos de análise e decisão. O livro A Revolução do Algoritmo Mestre, de Pedro Domingos, é uma excelente introdução à gama de técnicas de computação que sustenta a Inteligência Artificial. É mais Clippy (recordando o infame assistente desenvolvido pela Microsoft para uma versão antiga do Office) do que Exterminador Implacável.

E, No Entanto, Há Algo a Temer

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imagem produzida utilizando a rede neuronal GANBreeder (GANBreeder).

Os algoritmos de Inteligência Artificial, tal como sistemas de automação e robótica, já desempenham um papel preponderante na economia e sociedade contemporâneas. Trazem-nos todo um conjunto de desafios problemáticos. O que fazer àqueles cujos empregos se extinguiram é algo com que nos iremos debater num futuro próximo. Hoje, temos as problemáticas levantadas por algoritmos mal concebidos ou com enviesamentos ideológicos embutidos. Algo que não parece muito atemorizador em sistemas de sugestão de preferências, como os que sustentam os algoritmos preditivos da Amazon, Netflix, ou os que controlam o feed de notícias nas redes sociais.

Ver um filme sugerido que não gostamos é uma leve irritação. Já as problemáticas das fake news e incitamento aos extremismos e violência nas redes sociais, propiciadas pela forma como os seus algoritmos funcionam, são problemas com cada vez maior gravidade. Mas se estivermos a falar de falhas em algoritmos de apoio a decisões financeiras ou judiciais, o caso muda de figura. Soa a ficção científica, mas já é a realidade, hoje. A literatura sobre Inteligência Artificial cita rotineiramente casos de policiamento preditivo, em que algoritmos se baseiam no histórico reportado de criminalidade para maximizar a presença policial, ignorando enviesamentos culturais e étnicos.

O mesmo se aplica na concessão de créditos, seguros, decisões judiciais e outras áreas onde o comportamento humano é medido por sistemas digitais. de acordo com parâmetros que não são transparentes. Recentemente, os perigos levantados por uma dependência mal pensada em automação ficaram em evidência nos acidentes aéreos que envolveram aeronaves Boeing 737 Max, cujos pilotos não estavam devidamente treinados para reconhecer dados indicados pelos sistemas automáticos que acabaram por causar os desastres fatais.

Educar para a Inteligência Artificial

No caso específico da educação, a Inteligência Artificial desperta ainda outros temores. No mundo educativo impera metrificação do conhecimento medível por provas e exames, estímulo à memorização. Um apelo sistemático à concentração e disciplinação, um modelo social herdado dos tempos áureos da revolução industrial. Um sistema despreparado para desenvolver nas crianças as competências que lhes permitirão ser capazes de gerir e agir num futuro incerto, onde só há uma certeza: o papel preponderante da tecnologia.

Fala-se da necessidade de educar para competências de cooperação, sentido crítico, flexibilidade, saber fazer tecnológico. Mas os sistemas educativos continuam a valorizar o rotineiro e memorizável. Apesar de se saber que já vivemos numa sociedade em que para tudo o que é rotinável e repetitivo, pode ser desenvolvido um sistema robótico ou algorítmico para o desempenhar.

Vamos Criar Monstros?

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imagem produzida utilizando a rede neuronal GANBreeder (GANBreeder).

Mas não são estes os monstros que vos queria falar. São tópicos inevitáveis quando se contextualiza a Inteligência Artificial, mas queria mesmo mostrar como usar esta tecnologia para criar criaturas monstruosas. Pesadelos gerados por algoritmos, que nos surgem como imagens que podemos manipular.

A aplicação GANBreeder parece ser um brinquedo digital. No entanto, é uma ferramenta interessante para nos colocar a pensar sobre o potencial da inteligência artificial. É acessível via internet que nos coloca em diálogo com algoritmos. Não necessita de elevados conhecimentos para ser utilizada. Permite interação direta com um tipo de tecnologia que normalmente está nos bastidores que orquestram a nossa vida digital. Com isso, leva-nos a pensar sobre o papel da arte e do artista na era digital.

A aplicação é enganadoramente simples, e até rudimentar nalguns aspetos. Temos de criar uma conta para tirar partido dela. Após esse processo, podemos utilizar uma imagem pré-existente, ou começar do zero. Temos de indicar ao algoritmo quais as nossas preferências iniciais. E, em seguida, esperar pelos resultados. Este é um processo que não termina. Podemos sempre afinar as sugestões do algoritmo, introduzido novas categorias que vão dar origem a novas sugestões. Cada categoria pode ser definida em níveis de percentagem, introduzindo novos elementos. Um pouco como ajustar em edição de imagem níveis de cor ou luminosidade, mas utilizando parâmetros como insetos, vegetação, objetos ou animais, entre outros.

Dialogo Estético com uma Rede Neuronal

Os resultados são visualmente desconcertantes. A GANBreeder devolve imagens perturbadoras, de sensibilidade alienígena, de acordo com o nosso input. Foi para isso que foi concebida. Permite aos utilizadores interagir com um sistema de geração de imagens que utiliza uma rede neuronal para criar imagens surreais e realistas. Não são fotomontagens. São as tentativas da rede neuronal de responder às instruções do utilizador.  Elabora novas imagens a partir da base de dados com que foi treinada. Usando algoritmos, dados e lógica aplicada a redes neuronais, conseguimos usar a Inteligência Artificial como pincel. Criamos iconografias surreais e intencionalmente grotescas. Monstros, mas nascidos da nossa interação com o algoritmo. É o sonho da razão a gerar anomalias.

A GANBreeder torna acessíveis as Generative Adversarial Networks. Esta é uma das técnicas de deep learning que tem mostrado resultados mais espetaculares nos domínios da criação artística com Inteligência Artificial. As GAN utilizam dois algoritmos com funções adversárias, ambos treinados nos mesmos bancos de imagens. Um tem como função gerar novas imagens, o outro funciona como crítico, analisando as imagens geradas face à sua aprendizagem e determinando a sua qualidade, adaptação ao estilo visual e tema. É um processo generativo e iterativo que dá resultados visuais surpreendentes. Nesta aplicação, qualquer utilizador pode experimentar

Sim, mas será arte?

GANBreeder
Desenho algorítmico: Vera Molnar, “Structure de Quadrilateres” (1987), desenho de computador com tinta branca sobre papel cor de salmão.

Poderemos considerar estas criações visuais como arte? Estas produções artificiais generativas têm o habitual cariz de estranheza das imagens geradas por Inteligência Artificial. Nelas, o real é distorcido por uma lógica que não compreendemos, com uma estética impactante pela sua bizarria. No entanto, sabemos que estes algoritmos apenas geram novas imagens a partir de referências visuais já existentes, em processos generativos. Não são realmente criativas, mas desafiam as formas tradicionais de pensar sobre arte e criatividade.

Arte Algorítmica

Utilizar meios mecânicos e algorítmicos como forma de criação artística não é algo de recente. Desde os anos 60 que diversos artistas exploram a computação como meio de expressão. Em 1968, a exposição Cybernetic Serendipity, que teve lugar no ICA em Londres, reuniu diferentes vertentes da interação entre arte e tecnologia, entre os então incipientes gráficos gerados por computador, a instalações utilizando mecanismos.

Alguns artistas fundaram o movimento informal The Algorists. Estes exploram a criação de obras gráficas utilizando programação de algoritmos. Charles Csuri, Vera Molnar, Manfred Mohr, entre outros, exploram na sua obra gráfica concebida por humanos mas executada por computadores, quer em representação no ecrã, com plotters ou outros meios, questões sobre o papel da tecnologia e autonomia computacional nas conceções sobre criatividade. Recentemente, algumas técnicas de inteligência artificial, utilizando algoritmos de deep learning, começaram a ser usadas como meios de expressão visual.

Arte e Inteligência Artificial

O ponto de partida foi o algoritmo Deep Dream. Criado pelo engenheor Alexander Mordvintsev na Google, em 2015 surpreendeu o mundo com as imagens que gerava. O poder destes algoritmos depressa foi aprofundado por outros investigadores. Estes exploram técnicas como transferência de estilos ou predição de preferências do utilizador. Alguns exploram a criação pura. Outros procuram compreender melhor a história da arte através da análise computacional trazida por redes neuronais. Em 2018, o coletivo francês Obvious ganhou notoriedade. Conseguiu vender em leilão na Christie’s uma pintura gerada por inteligência artificial, utilizando o trabalho de investigação entre a estética e a algoritmia de Robbie Barratt.

Em Portugal, o artista plástico Leonel Moura tem ao longo dos anos investigado profundamente estas questões. Utiliza robots com vários graus de autonomia em processos de criação que esbatem as fronteiras da apropriação do instinto artístico. Se um robot desenha, de quem é a autoria? Da máquina, ou do artista que a programou? Na exposição Cérebro: Mais Vasto que o Céu, patente no Museu Gulbenkian, os seus BeBots, pequenos robots pintores, criam pinturas de forma autónoma.

Questionar o Conceito de Arte

Estes algoritmos não são conscientes como nós, com intuições, sentimentos, aprendizagens e individualidade. No entanto, na área específica em que são programados e estimulados a aprender, são capazes de tomar decisões estéticas de forma generativa que normalmente associamos à introspecção consciente do artista. As questões que isto levanta são inquietantes. Será o impulso criativo que nos leva a criar arte, essencialmente, um algoritmo e não uma manifestação de sentimentos e percepções individuais? Poderão as máquinas alguma vez ser capazes de revelar criatividade profunda? A chave estará na conjugação da intuição do artista humano com os potenciais estéticos trazidos pela análise e aprendizagem máquina feita pelas redes neuronais?

Interagindo com a GANBreeder, percebemos que não há respostas lineares para estas questões. No entanto, se a geração de imagens é automatizada, apesar de baseada nos inputs do utilizador, a decisão final sobre que imagem é intrigante e visualmente apelativa cabe sempre ao humano.

Aceite o nosso convite e leia o artigo Leituras Automáticas Irreais.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.