Wired Reality Check
Capa do livro Reality Check, de David Pescovitz e Brad Wieners, Editado em 1996 pela Hardwired,

Como é que no ano de 1996 se antevia o nosso futuro? Nesse ano, a revista Wired coligiu uma série de predições tecnológicas futuristas. Passaram pela exploração espacial ao mundo digital, passando pela robótica e impactos sociais da tecnologia. Vinte anos depois, quais delas se revelaram prescientes, e quais falharam? Olhamos para algumas antevisões, publicadas no livro Reality Check, coligido a partir de artigos da revista Wired por Brad Wiener e David Pescovitz.

Em 1996, Reinava o Otimismo Tecnológico

Estávamos em plenos anos 90, e as franjas vanguardistas estavam entusiasmadas com uma nova e excitante tecnologia. Uma rede que permitia a qualquer um consultar informação em qualquer parte do mundo, e comunicar em tempo real com outros em pontos geográficos distantes. Tudo se passava frente a um monitor CRT, teclando num teclado mecânico, após a conclusão bem sucedida de um processo de ligação que se iniciava com o inimitável som do modem a conectar-se à rede telefónica. Estes foram os primeiros tempos da internet comercial, quando iniciou o seu crescimento exponencial até se tornar um elemento fundamental da infraestrutura da sociedade contemporânea.

Mas, naqueles tempos, ainda não se pensava nisso. Havia o simples fascínio pela partilha livre, pela descoberta de informação hiperligada. Eram dias da tontura emocional de, subitamente, graças a um computador e a um modem, ter acesso a informação na ponta dos dedos. O entusiasmo com as potencialidades imprevisíveis, a sensação de desbravar uma nova e vasta fronteira. Nasceram aqui as raízes do utopismo tecnológico, do otimismo Sillicon Valley. E, no epicentro desta onda, estava a revista Wired.

Uma Referência na Cultura Digital

Wired
Capa do primeiro número da revista Wired.

Ainda hoje é editada, sendo uma das publicações de referência em papel e online sobre a cultura digital. Mas o que hoje encontramos as bancas e no seu site não é fundamentalmente diferente do que se faz nos restantes media que aprofundam a reflexão sobre a tecnologia contemporânea. Nos anos 90, era-o, e muito.

A Wired era inclassificável. Uma revista de tecnologia que não se dedicava a analisar as ofertas de hardware e software no mercado. O seu grande foco era o que hoje chamamos de transformação digital. Olhava para o impacto das tecnologias digitais na cultura, economia e sociedade. Algo que fazia com um entusiasmo inabalável, um deslumbre pelo digital, toques de cyberpunk e uma intensa visão de que o futuro estava a ser construído. Elegeram Marshall McLuhan como o seu santo padroeiro. Todas as capas continham uma citação do influente teórico dos media que nos legou o conceito de aldeia global.

Cultura digital, cenas geek, internet, infraestrutura tecnológica, realidade virtual e empreendedorismo era os seus tópicos de eleição. William Gibson, Bruce Sterling e Neal Stephenson escreviam artigos de fundo, e a coluna mensal de Nicholas Negroponte, diretor do MIT Media Lab, era imperdível. À altura, não o havia nos media nenhum título que se dedicasse a isso. E ainda hoje, talvez só a MIT Technology Review lhe chegue perto. Tudo encapsulado num design arrojado, com uma estética digitalista de cores garridas, imagens fortemente manipuladas, tipos de letra impactantes e uma estética day-glo a remeter para o brilho néon dos ecrãs.

Reality Check: O Futuro, Visto do Passado

Reality Check era o nome de uma das suas secções regulares. Nela, um dos seus jornalistas sondava regularmente futuristas, cientistas e investigadores sobre predições tecnológicas. Em 1996 recolheram algumas dezenas destas análises no livro Reality Check. Cruzei-me com ele nesse ano, nos tempos em que a loja Tema da Avenida da Liberdade era o ponto de referência para leitores de imprensa estrangeira, comics, mangá, cultura geek e tecnológica. Fã como já era da revista, leitor assíduo, adquiri religiosamente esta edição, seduzido pela sua capa Day-Glo, pela imagética interior que ainda hoje parece arrojada e futurista. E, claro, pelos textos.

Li-a avidamente enquanto estudante do ensino superior politécnico. Senti a colisão entre os vislumbres de futurismo a curto prazo e a realidade de viver e estudar numa pequena cidade do interior. Um tempo onde usar computadores era ainda uma raridade, e nem se ouvia falar de tal coisa como a internet. Um mundo analógico, completamente alheado da revolução digital que já estava a acontecer no epicentro analisado pela Wired.

O futurismo envelhece mal. É comum olhar para trás, para a forma como os nossos antecessores tentaram antever o futuro, com um olhar de ironia. Por isso, encaramos como desafio voltar a olhar para este livro, 25 anos depois, e perceber se o otimismo da Wired estava certo. Não o iremos analisar todo. Selecionámos algumas predições, que comparamos ao que realmente veio a acontecer, ou não. Na verdade, na sua larga maioria, estas só falham pela temporização. Aconteceram mais tarde do que o esperado. Ou na sua implementação. Aconteceram, mas não de forma tão pervasiva ou inicialmente proposta.

E-Cash Gets Real: 1998

Wired
Equipamento de mineração de Bitcoins,

Foi esse o ano que os experts consultados pela Wired anteciparam para o grande salto no uso de dinheiro eletrónico. No entanto, foi preciso esperar até 2008 até surgir uma moeda verdadeiramente eletrónica, o Bitcoin, e mais dez anos até as criptomoedas se valorizarem o suficiente para despertar uma verdadeira corrida ao ouro. No entanto, não se tornaram um meio de pagamento comum, e continuamos a depender do dinheiro vivo para boa parte das transções.

Para ser justo, a predição da Wired não se referia a dinheiro exclusivamente eletrónico, mas sim o uso de meios eletrónicos de pagamento. Talvez 1998 não tenha sido o ponto de explosão, mas o início do século XXI trouxe consigo a normalização dos cartões de crédito, redes multibanco, e sistemas de pagamento eletrónicos. Hoje, quase não necessitamos de ter dinheiro vivo na carteira. Temos ao nosso dispor uma enorme diversidade de meios de pagamento que desmaterializam o dinheiro, algo que fundamentalmente sempre foi uma abstração. Cartões físicos, plataformas móveis, chips RFID, cartões virtuais carregáveis: a fintech normalizou o e-cash.

Solar Powered Automobiles: 2001

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Veículo solar Honda Dream.

Tanto otimismo. Os especialistas consultados pela Wired preconizavam que em 2001, a energia solar iria ser a forma de propulsionar veículos. Previam que se utilizasse as áreas exteriores do automóvel para cobrir com painéis solares e gerar eletricidade. No entanto, devem ter reparado que, nas estradas, o número de veículos com estes sistemas é essencialmente zero.

Carros movidos a energia solar continuam a ser uma tecnologia muito longe de nos chegar às mãos, em parte porque a tecnologia de painéis de que dispomos não gera corrente suficiente para poder mover um automóvel convencional. Aqueles modelos que vemos nas experiências são especialmente construídos para isso, planeados para ter o mínimo de peso possível. Seriam impraticáveis como veículos para o dia a dia.

No entanto, é de sublinhar que hoje a tendência é a de substituir o poluente motor a combustão por fontes alternativas. O carro elétrico mostra-se como a tecnologia predominante. E, para carregar as baterias dos veículos elétricos, é preciso produzir eletricidade, preferencialmente a partir de fontes renováveis. A energia solar aqui tem o seu papel, como parte do mix de tecnologias sustentáveis de produção de energia.

Universal Picture Phones: 2003

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Videofone Picturephone AT&T, 1969 (ALAN BAND/KEYSTONE/GETTY IMAGES)

Mais uma predição em que temos que dizer… não aconteceu. A comunicação por videofones é um velho sonho do futurismo. Júlio Verne falou disso num dos seus contos, e é um adereço da FC clássica. Esta tecnologia de base já existe há mais tempo do que pensamos. Desde os anos 30 do século XX que se desenvolvem sistemas de comunicação bidirecional em vídeo. Em 1968, na lendária Mother of All Demos em que Douglas Englebart introduziu ao mundo o conceito de computação em interface gráfico utilizando o rato, fez parte uma demonstração de videoconferência entre computadores. O desenvolvimento das primeiras redes de banda larga nos anos 80 permitiu os primeiros serviços de videotelefonia lançados pela AT&T, e nos anos 90 os primeiros serviços de vídeo chat na internet.

A Eterna Promessa do Videofone

Fora de contextos específicos nos domínios empresarial e científico, esta tecnologia custou a pegar. As tentativas de colocar equipamentos de videochamada nas casas nunca tiveram grande adesão. Os serviços de vídeo chat online começaram a mudar isso, especialmente desde que o Skype se popularizou como forma de interligar pessoas. Hoje é comum trabalhar em videoconferência, dar aulas ou sessões de formação via skype ou hangout. No entanto, usar o skype no computador ou sistemas como o Colibri ou Adobe Connect não é exatamente o mesmo que dispor de um equipamento universal de videotelefonia. E ainda não o temos, como equipamento dedicado.

No entanto, todos temos um smartphone e usamos aplicações para esse efeito. É claro que um telemóvel android ou iPhone com apps de vídeo chamada não corresponde à visão dos futuristas. Mas, de facto, desempenha essa função. E esse momento tem um ponto de início bem definido, 2008. Quando Steve Jobs revelou o primeiro iPhone. E, no processo, revolucionou a forma como encaramos quer as comunicações quer a computação móvel.

Operational Space Station: 2004

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Módulos Zarya e Unity vistos do vai-vém Atlantis,

Esta é uma das raras previsões futuristas que não só se concretizou, como se antecipou à previsão. Em 1996, os especialistas consultados pela Wired falavam a importância de um esforço conjunto entre os EUA e Rússia para estabelecer uma presença humana contínua em órbita. Apontavam para uma data entre 1997 e 2004 para lançamento da estação.

O Zarya, primeiro módulo da que viria a tornar-se a ISS, foi colocado em órbita em 1998, contando com missões tripuladas em 2002. A construção da ISS foi terminada formalmente em 2011. Nos dias de hoje, apesar do seu futuro estar um pouco incerto, podemos olhar para os céus e saber que há uma presença humana contínua em órbita.

The Book Goes Digital: 2013

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Sony e-Reader, um dos primeiros leitores de livros eletrónicos no mercado.

Parece que em 2013, encontrar livros em papel seria uma raridade, um arcaísmo apreciado apenas por bibliófilos mais antiquados. O livro digital iria imperar, andaríamos todos com leitores para consumir os mais variados tipos de publicações. No entanto, estamos em 2019 e fora de alguns círculos restritos, poucos são os que sequer ouviram falar de ebooks. O que é que aconteceu?

A Promessa da Tinta Digital

1996 era um bom ano para fazer predições sobre o futuro desta tecnologia. Sabia-se que uma empresa, a E-Ink, fundada por alunos do MIT, estava a trabalhar numa tecnologia que prometia revolucionar os livros eletrónicos. Parte dos problemas levantados pelo livro digital prende-se com a inadequação dos ecrãs LCD, LED ou AMOLED para leitura confortável sobre quaisquer condições de luminosidade. A E-Ink resolveu esse problema com um ecrã composto por micro-cápsulas. Estas são capazes de mudar de cor consoante a carga elétrica aplicada. O resultado é um ecrã legível sob quaisquer condições luminosas. Funciona especialmente bem sob luz solar direta, onde nenhum outro tipo de ecrã garante uma leitura confortável. Tem ainda uma vantagem adicional. Como as micro-cápsulas só mudam de cor quando ativadas por corrente elétrica, as baterias que alimentam estes ecrãs tem uma durabilidade muito elevada.

Em 1997, a E-Ink lançou o seu ecrã de tinta digital, mas a tecnologia demorou a chegar ao mercado. Só em 2004 a Sony criaria o Librie, o primeiro leitor de livros dedicado. O mercado dos livros eletrónicos prometia, finalmente, disparar quando a Amazon criou o Kindle, ainda hoje um caso de sucesso neste campo. No entanto, apesar de ser um nicho importante, esta tecnologia nunca se popularizou como esperado. Em parte por questões como longa tradição do livro impresso, preço, pouco investimento por parte dos editores, ou compatibilidades de formatos de livro eletrónico. Apesar da enorme conveniência dos leitores de livros eletrónicos, que nos permitem ter no bolso verdadeira bibliotecas, continuamos a preferir o livro tradicional.

Dynabook, o Conceito Percursor

Curiosamente, o sonho de ter um dispositivo portátil para leitura precede a computação móvel. No final dos anos 60, Alan Kay propôs o Dynabook, conceito de computador portátil que antevê grande parte do que hoje consideramos computação móvel. Neste projeto, propôs um sistema com ecrã plano, interface amigável e conectividade. Sem conhecer a então a ainda a ser inventada internet, Kay imaginou a capacidade dos utilizadores de dynabooks se ligarem via rádio a bibliotecas, para poderem ler livros no seu dispositivo em qualquer local.

Virtual War: Never

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Esquema de ataque do vírus Stuxnet (NJICC)

É de referir que os especialistas consultados pela Wired colocam a fasquia alta nesta predição. A condição que colocam é a rendição total de um país perante ataques cibernéticos. E isso, de facto, não seria possível sem soldados no terreno. Por muito que ataques digitais prejudique a infraestrutura e sistemas de um país. No entanto, hoje, sabemos que o uso de armas cibernéticas se tornou normal nas relações internacionais mais tensas. Qualquer investigador nesta área conhece a gravidade do Stuxnet. Este vírus foi desenvolvido especificamente para atacar centrifugadoras iranianas de plutónio que alastrou a outras áreas. Ataques específicos com vírus são hoje comuns. Recentemente, a Maersk viu-se forçada a paralisar as suas operações marítimas globais. Foi vítima de um ataque de malware que afetou os seus sistemas informáticos.

Este tipo de armas também tem sido usada em conflitos mais quentes. Que o digam os ucranianos em 2017, cujas infraestuturas técnicas foram alvos diretos. Ou, em 2010, os cidadãos da Estónia. Num país altamente informatizado e dependente da internet para os seus serviços públicos, um ataque de infraestrutura digital provocou danos reais. Nunca se soube de quem foi a autoria, embora o governo estoniano, na altura, tenha acusado a Rússia. Embora não sejam armas terminais, vírus, malware e infiltrações têm provocado danos em sistemas financeiros e infraestrutruais um pouco por todo o mundo, fazendo parte do arsenal de conflitos globais.

Humans on Mars: 2020

Wired
Capa de Chesley Bonestell para a revista Collier’s de 30 de abril de 1954, onde Wernher Von Braun explora a sua visão para uma missão de exploração a Marte (Chesley Bonestell).

Deixamos esta para o fim, porque, enfim, estamos em pleno 2019 e as primeiras missões tripuladas a Marte ainda não estão a caminho do planeta vermelho. Pior, estamos muito longe disso. Em 1996, os especialistas consultados pela Wired apontavam 2020 como o ano em que a primeira missão tripulada aterraria no planeta. 2040 seria a data para um provável posto de colonização. Falhámos a primeira data. Não estamos assim tão bem encaminhados para atingir a segunda.

No entanto, Marte está na mira, e sucedem-se as propostas e ideias para colonização. Da NASA a Elon Musk, passando pela Mars Society até a fraudes como a Mars One. Mas não temos ainda uma data concreta. Sabemos hoje que muitos desafios ainda têm de ser resolvidos antes de pisarmos, finalmente, o solo marciano. Enfrentamos questões fisiológicas de adaptação do corpo humano ao espaço, psicologia dos astronautas, ou desenvolvimento de tecnologias que permitam sobreviver de forma sustentável. Estamos, talvez, tal como em 1996. Sabendo que estamos no limiar de um novo grande salto da humanidade, muito próximo, mas ao mesmo tempo distante. De qualquer forma, o que não temos dúvidas é que Marte irá ter uma presença humana no futuro próximo.

Recordar os Futuros Passados

O futurismo envelhece mal. Deslumbramo-nos com as correntes visões sobre o que nos esperará no futuro próximo. Mas, quando olhamos para as antevisões do passado, parecem-nos algo absurdas. O futuro dos nossos antecessores não se desenrolou da forma esperadas. E isso é um aviso para nós. As formas como imaginamos que a nossa contemporaneidade evolua, não serão aquelas como realmente irá evoluir.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.