The global event series MARS premieres on the National Geographic Channel in November 2016. (photo credit: National Geographic Channels/Robert Viglasky)

Foi muito falado nos últimos dias o ter vindo a público um relatório independente sobre a Missão Marte 2033, da responsabilidade do Instituto de Políticas de Ciência e Tecnologia (STPI). Supostamente são más notícias… Segundo o relatório não há possibilidade de enviar seres humanos para Marte em 2033, e o STPI baseia-se em 3 grandes áreas para justificar que esta missão da NASA seja inviável… Em primeiro lugar estudou os vários cenários de orçamento e financiamento da missão, em segundo estudou o cronograma de testes e em terceiro levou em linha de conta o desenvolvimento de tecnologia necessário a conseguir-se vingar nesta missão. A conclusão? Não é realista pensar-se em 2033 para uma missão tripulada de pouso no planeta vermelho, e apenas será possível uma missão orbital em 2037, embora 2039 seja mais realista…

Publicitado na imprensa portuguesa, as notícias não emitem uma opinião crítica (e bem, justamente porque são notícias), contudo são apresentadas com uma certa “determinação” como característica dominante do texto ou seja, por ser uma entidade independente em princípio estará certa…. E há quem tenha lido esta notícia como um revés ao plano de exploração da NASA.

Não é possível na minha opinião saber se o relatório desta entidade está certo ou errado, antes de chegarmos a 2033, ou a 2035, ou a 2037, ou ainda a 2039 (as várias datas de que o relatório fala). Isso não seria fazer futurismo mas sim fazer futorologia…

Sabemos que se trata de uma previsão a 20 anos, numa altura em que vivemos numa sociedade tecnológica, onde um “breakthrough tecnológico” (inovação), condiciona rapidamente outros tantos, que por sua vez vão condicionar outros… Em cadeia!

Há vários especialistas que consideram por exemplo que a primeira rede neuronal (Inteligência Artificial) se irá tornar auto-consciente antes de 2029… São suposições claro, eventualmente baseadas em dados, mas se acontecer, será que este relatório mantém a validade?

No seguinte vídeo o Dr. Michio Kaku explica entre outras coisas a Lei de Moore, que nos diz que a tecnologia dos CPU’s/processadores, dobra a sua capacidade operacional a cada 18 meses.

 

O que se pode esperar? Este relatório é isento?

A Secção 435 da Lei de Autorização de Transição da NASA de 2017 exigia que a NASA contratasse uma “organização independente e não-governamental de engenharia de sistemas e assistência técnica, para estudar uma missão de voo espacial de Marte, a ser lançada em 2033.” Em agosto de 2017 a NASA escolheu STPI, por fazer parte do Instituto de Análises de Defesa (IDA), para realizar essa análise.

Na altura em que esta Lei foi escrita, a NASA tinha como prioridade as directivas espaciais da Administração Obama. Estas tinham outras prioridades como por exemplo o redirecionamento de asteróides, colocando a Missão a Marte como um desafio “orbital”, a acontecer na “década de 30″… Não se considerava a construção de uma base lunar por exemplo, não entendendo a Lua nessa altura, como “estação de serviço” para lançar uma missão interplanetária por exemplo a Marte. De facto a Lua era até considerada uma distração do verdadeiro objectivo que era Marte… São visões diferentes de Administrações diferentes…

Créditos: NASA

A questão principal prende-se com o facto de no Congresso, vários membros das comissões serem “entusiastas de Marte” (Eddie Bernice Johnson, Ed Perlmuttere, etc) e terem apoiado uma missão de pouso na década de 30, não se querendo limitar a uma missão orbital.

A secção 432 desta Lei, exigia então que a NASA desenvolvesse “um roteiro de exploração humana, incluindo um plano de decisão crítica, para expandir a presença humana além da órbita baixa da Terra até a superfície de Marte e além, considerando potenciais destinos intermediários como o espaço cislunar e as luas de Marte. ”O roteiro inicial deveria ser enviado ao Congresso até 1 de dezembro de 2017, com atualizações periódicas pelo menos a cada dois anos. Contudo em dezembro de 2017, o presidente Trump emitiu a Diretiva de Políticas Espaciais-1 (SPD-1) restaurando o plano do governo George W. Bush de devolver os astronautas à superfície da Lua, em preparação da missão a Marte.

O STPI concluiu o estudo sobre a missão de 2033 em Dezembro de 2017, tendo sido convidado a actualizar o seu estudo colocando-o em conformidade com a directiva SPD-1 de política espacial de Trump.

Uma “Trumpalhada” de um estudo!

Para avaliar a possibilidade de enviar seres humanos para Marte em 2033, a STPI usou o relatório da Campanha da NASA, entrevistas e outros documentos da NASA e ainda outras fontes. O resultado final foi um cocktail entre as anteriores prioridades e a nova directiva da Administração Trump… Um relatório que nunca iria desdizer o que afirmou em 2017, pelo menos não poderia dizer radicalmente o contrário… Passamos portanto a um relatório com 22/23 anos de previsão, com um re-ordenamento de prioridades logo depois de sair o relatório inicial, o que leva a que não possa ser lido sem “uma pitada de sal”…

Contudo algumas das conclusões são curiosas, principalmente para as pessoas que dizem que nem daqui a 30 anos, nem daqui a 100 anos, e talvez demore até muitos séculos até chegarmos a Marte:

Para o STPI claramente 2035 pode ser possível para uma missão orbital, caso os orçamentos da NASA correspondam até lá a um crescimento real de 1,9%. Que 2037 será a data mais provável, numa lógica de flexibilidade orçamental…

A notar-se que a Terra e Marte estão alinhados a cada 26 meses para permitir o deslocamento direto entre os dois planetas, daí que se fale sempre em janelas de dois anos em termos de lançamento.

Foi estimado o custo da missão a Marte pelo STPI em 87 mil milhões, com a ressalva que se até lá a NASA continuar a investir no SLS (o lançador Space Launch Systeam), na Orion e no Gateway, o custo será menor, cerca de 45 mil milhões. Apenas as 3 grandes tecnologias que interferem neste processo… Mas também se desconsiderou a contribuição dos privados, como por exemplo da StarShip da SpaceX…

É um estudo “engraçado”, que tem como utilidade calar os descrentes que dizem que não vai haver uma missão a Marte. Não há em 2033 mas haverá em 2037 (menos mal)! Certamente não se terá que esperar 50 anos ou 100 anos, diz agora uma entidade independente…

E só serve mesmo para isso, porque não foi levada em linha de conta a directiva do Vice, Mike Pence, Moon-by-2024, e este relatório foi tornado público antes de Mike Pence anunciar a directiva, tendo sido publicado um mês antes do anúncio de Pence… É inegável que ter uma base na Lua em 2024, faz mesmo toda a diferença para uma missão a Marte!!! O estudo não contempla uma hipótese que não estava na altura em cima da mesa, pelo que agora os cronogramas são outros…

Não deixa de ser curioso que uma previsão a 20/22 anos, tenha ficado imediatamente desactualizada, com os acontecimentos de um mês depois do estudo vir a público… Estudo esse que vinha dar razão ao cronograma sustentável de Obama, mas que por azar foi publicado  durante a Administração Trump…

Resumindo: Este estudo não serve para nada, e não dá notícia nenhuma a não ser que com a tecnologia actual demoraremos cerca de 15-20 anos de certeza… Sem ser ainda certo, demoraremos possivelmente menos… E com uma base na Lua, muito menos…

 

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Há uma corrida para chegar primeiro a Marte?