O que é que apanhámos no vasto oceano do mundo online? Recordamos as visões de colonização espacial dos anos 70. Impactos sociais e de saúde do uso de tecnologias digitais. Para os fãs de ficção científica, olha-se para o mais recente volume da fantástica série Expanse. Analisamos uma série de artigos vindos da IEEE sobre a história do desenvolvimento de inteligência artificial. E, já que se fala nesse tema, a relação criatividade, IA, deepfakes e cadeiras de Philip Starck. Mas não nos ficámos por aqui. Convidamo-vos a partir à descoberta das leituras intrigantes da semana.

O Espaço É Um Local de Nostalgia

Space Colonization Stanford Torus Type Station 1970’s NASA Video: Pegando nos conceitos de colonização espacial de Gerard K. O’Neill, a NASA produziu nos anos 70 estas antevisões de colónias espaciais nos pontos Lagrange.

Un futuro post-terrestre de ciencia (y) ficción: las colonias espaciales según la NASA en los 70 frente a los planetas habitables: De volta e meia, estes conceitos de habitats espaciais dos anos 70 regressam à tona. O conceito de Gerard K. O’Neill, de vivermos em gigantescas estações orbitais, ainda hoje nos parece fascinante. No entanto, não estamos mais próximos de os construir do que naquela época.

Como A Tecnologia Nos Transforma, E Ao Mundo

THE ULTIMATE HISTORY OF CGI: Confesso que adoro isto, estes artefatos da história da computação gráfica. Apesar de antiquados, não estão datados, têm aquele ar refrescante de primeira experiência, momento eureka, desenvolvimento de algo novo.

Cómo Tinder ha cambiado el mundo de salir a ligar por la noche: O intrigante neste texto não é o possível efeito detrimental das plataformas digitais nos costumes da vida noturna. É saber que clubes nocturnos estão a proibir dispositivos móveis, para combater o hábito dos grupos de noctívagos de estarem em grupo, consultando redes sociais nos  telemóveis e não nas habituais interações típicas de bares.

Copyright filters are automatically removing copies of the Mueller Report: Porque é que  a nova diretiva comunitária sobre direitos de autor vai ter um profundo impacto negativo na vida digital? Isto é o que já acontece com a forma como detentores de propriedade intelectual abusam dos seus direitos. Com filtros automatizados, não há apelo, apenas algo que é de facto censura, e o reclamar de conteúdo no domínio público por parte de empresas.

Preparing high schoolers for a tech-driven future: Essencialmente, investir na literacia tecnológica, que hoje já não passa pela mera aprendizagem de ferramentas de produtividade, mas por interação direta com fabricação digital, programação, pensamento computacional e inteligência artificial.

EU votes to create gigantic biometrics database: Alguém deu conta disto? O parlamento europeu aprovou a interligação das diversas bases de dados biométricas dos diferentes países num sistema unificado. O curioso é a forma discreta como isto passou, até porque as implicações ao nível da privacidade são enormes.

The Instagram Aesthetic Is Over: E ainda bem. O Instagram é a rede social que ainda detém apelo sobre mim precisamente por nos obrigar a refletir sobre o poder da imagem. Simplificando, o Insta é interessante pela qualidade da fotografia. Mas basta olhar para as trends e hashtags populares para se perceber a banalização disto, de uniformização de estilos que se da primeira vez com que nos cruzámos com eles eram interessantes, depressa nos cansaram. A sobreexposição a iconografias tem esta consequência. São sintomas de falta de criatividade, de usar estéticas reduzidas ao elementar. Não é por acaso que os utilizadores do Insta são acusados de tirarem e partilharem o que, no essencial, são as mesmas imagens, fotos similares nas temáticas e estilos.

How Instagram Ruined the Great Outdoors: Instacatástrofe, parte II. Outro dos sintomas da falta de criatividade dos utilizadores desta rede social é a forma como se agregam a locais e temáticas. Uma estética de repetição contínua, de querer replicar o sucesso visual de outros, que está a ter consequências nefastas reais em locais físicos, invadidos por multidões de fotógrafos wannabes, àvidos de conseguirem aquela imagem em tudo igual a outra que viram na rede social.

Microgravidade e combustão: como funciona o “Fogo” no Espaço?: João Ventura, cujos contos são encantadores (podem descobri-los no blog dele, e diversas publicações, sendo a mais recente o livro Tudo Isto Existe editado pela Divergência), fala-nos do fogo em microgravidade.

Workers Love AirPods Because Employers Stole Their Walls: O uso de fones como arma de defesa em ambientes de trabalho abertos. Destaco isto: “In open offices, people commonly wander around with their headphones on all day, into bathrooms and kitchens, sometimes listening to nothing at all in order to avoid the constant distraction of compulsory social interaction”.

Amazon’s warehouse-worker tracking system can automatically fire people without a human supervisor’s involvement: Bem vindos à distopia capitalista cyberpunk. Os sistemas da Amazon analisam a quantidade de pausas que um funcionário faz, e com base nessa estatística decidem terminar contratos. É um sistema profundamente desumano, e aliás, toda a gestão de armazéns da Amazon é infame pelo seu nível de desumanidade. Este é apenas mais um sintoma. É isto que realmente temo na inexorável marcha em direção a um mundo laboral cada vez mais automatizado. Não a substituição de humanos, mas a sua transformação em elementos descartáveis nos sistemas económicos.

The WHO’s new screen time limits aren’t really about screens: Certeiro. O problema na relação entre ecrãs e crianças não está verdadeiramente nos ecrãs, mas sim no sedentarismo, e na redução da diversidade de experiências que uma criança saudável tem de ter para se desenvolver. E é por aqui que a OMS decidiu ir, descartando os poucos dados científicos sobre as transformações cerebrais induzidas por ecrãs (bem, elas estão a ser medidas, mas isto é um McLuhanismo clássico, também as ouve na nossa relação com outros media), e fugindo à posição moralista da falta de qualidade dos conteúdos digitais. Na verdade, estes pânicos morais não são nenhuma novidade. Qualquer fã de comics recorda os tempos em que psicólogos denunciavam a banda desenhada por deformar a mente das crianças (não é uma piada, pesquisem sobre Wertheim e a Comics Code Alliance). E, quem nasceu nos tempos da disseminação da televisão (recordam-se? Dois canais e TVs a preto e branco?), lembra-se de ouvir que ver tv durante muito tempo fazia mal aos olhos, prejudicava o desenvolvimento, ou iria arruinar para sempre a moral e os bons costumes.

Artificialidades da Inteligência

Philippe Starck, Kartell and Autodesk unveil “world’s first production chair designed with artificial intelligence”: Algumas notas sobre esta iniciativa. É um exemplo clássico do que se entende por sistemas-centauro, em que a decisão e intuição humana guia o sistema de inteligência artificial; e, como em muitos destes projetos pensados mais para o lado publicitário do que estético ou funcional, interessa mais pelo processo do que pelo resultado final, que tem um certo ar de é o que saiu quando Starck se fartou da brincadeira.

Untold History of AI: How Amazon’s Mechanical Turkers Got Squeezed Inside the Machine: Tarefas simples para os humanos, complexas para as máquinas, atomizadas e distribuídas via internet. As legiões que trabalham para o Mechanical Turk são o ghost in the machine de muitos algoritmos, facilitando o trabalho de agregação e classificação de dados.

Algoritmos que aprenden a dibujar como los artistas mediante aprendizaje por refuerzo: As GAN têm tido um grande destaque ultimamente, mas não são a única técnica de inteligência artificial utilizada na investigação estética. O descodificar dos elementos desse algoritmo pessoal a que chamamos estilo visual de um artista torna-se possível usando técnicas de aprendizagem mecânica por reforço.

La inteligencia artificial puede revolucionar el mundo de la creación de vídeos, y este clip solidario de Beckham es un ejemplo: Deepfake ético? A mostrar que o potencial da tecnologia de criação de vídeos usando inteligência artificial vai muito mais além do distorcer do real. Pessoalmente, confesso que neste tipo de coisas, acho mais interessante o como foi feito do que o produto final.

Untold History of AI: Algorithmic Bias Was Born in the 1980s: Um de uma série de artigos sobre a história do desenvolvimento da inteligência artificial. Neste, a história do uso de algoritmos para auxiliar procedimentos de contratação, que codificaram os enviesamentos dos gestores de recursos humanos.

Untold History of AI: The DARPA Dreamer Who Aimed for Cyborg Intelligence: Recordar J. R. Licklider, um dos primeiros proponentes da simbiose homem-máquina e do desenvolvimento de sistemas de comunicação computacionais.

Untold History of AI: Why Alan Turing Wanted AI Agents to Make Mistakes: Um ponto de vista intrigante. Um erro óbvio (para matemáticos) no artigo em que Turing propõe aquele que viria a ser conhecido como o teste de Turing, parece apontar para a intuição que a possibilidade de não conseguirmos distinguir entre um humano e uma IA passe pela forma como o engano é simulado.

Untold History of AI: Invisible Women Programmed America’s First Electronic Computer: Nunca é demais observar o importante papel que as mulheres tiveram no desenvolvimento da computação. Não são só casos isolados, como o de Ada Lovelace (desenvolveu a primeira linguagem de programação para o engenho diferencial de Babbage) ou Grace Hopper (trabalhou nos primeiros computadores e ajudou a desenvolver a linguagem antecessora do Cobol). Neste artigo, mostra-se a importância das operadoras do ENIAC, que eram bem mais do que simples operadoras. Conheciam a máquina de trás para a frente, e eram quem de facto a programava.

Das Ficções E Realidades Que As Sustentam

The Girl Who Jumped Out of a Pie and Into a Gilded Age Morality Tale: Há sempre um ponto de partida para as tropes. A imagem de uma beldade levemente vestida, ou em total ausência de vestimentas, a saltar de dentro de um bolo no meio de uma festa teve a sua origem num infame jantar social da alta sociedade nova-iorquina da viragem do século XIX para o XX. O Atlas Obscura conta toda a história, e é um mergulho naqueles moralismos que ocultam o prazer dos vícios.

How Queer Is Star Trek?: Bem, apesar de todos aqueles subtextos na relação muito especial entre Kirk e Spock na TOS (The Original Series, para os leitores não-trekkies), essencialmente não existiram quaisquer representações não normativas neste universo ficcional (as especulações sobre exatamente que tipo de relação Kirk e Spock poderiam ter foram arrumadas a um canto no recriar da série através dos novos filmes, que recontam as histórias originais, Spock tem namorada, e Kirk é um caçador de saias em série). Apesar de o grande trunfo da série foi atrever-se a imaginar um futuro progressista, livre de moralismos, pós-capitalista, pós-laboral, de progresso baseado no conhecimento e incentivo ao desenvolvimento pessoal. Mas uma coisa são as premissas, outra a sensibilidade dos argumentistas e espetadores. As séries mais recentes fizeram algumas aberturas ao tema, e só a atual (e awesome, IMHO, e nem sou muito trekkieStar Trek Discovery se atreveu a colocar um casal gay na narrativa. E fê-lo da melhor forma possível, como parte no ambiente de fundo normal e não no centro das aventuras. Porque no fundo, é isto, a orientação sexual de cada um é algo normal, não é assim tão importante. Regressando à TOS, como indicador dos seus normativos comportamentais, é de notar que os uniformes da Starfleet eram fato completo para os homens, minissaia para as mulheres… que, aliás, eram uma espécie de regalo para os olhos no interior austero da primeira Enterprise.

Tiamat’s Wrath raises the stakes as The Expanse nears the end: É, de facto, a série recupera a intensidade come este novo volume. E termina numa nota tão elevada que esperar mais um ano pelo próximo livro vai ser uma tortura.

Sobre o Mito: “desde que se leia”: Nelson Zagalo faz um belíssimo takedown à ideia de que o que interessa é ler, não a qualidade do que se lê. O seu argumento é poderoso. Quanto mais complexos os textos, maior o desenvolvimento da nossa capacidade de compreensão e raciocínio. Este tipo de argumentos tem o risco de alienar as literaturas de género, muitas vezes menorizadas como pouco complexas e superficiais por quadrantes mais elitistas do pensamento cultural. Mas o argumento de Zagalo não vai por aí, nem poderia, apesar de observar que nos géneros literários, algumas estruturas narrativas são banais na sua utilização (mas isso, é tão verdade nas literaturas de género quanto nas mais mainstream). É uma visão crítica muito assertiva, num tempo em que, apesar dos eternos lamentos de quem está ligado aos livros, nunca se leu tanto. Especialmente porque mediamos uma cada vez maior parte da nossa experiência do real através de meios digitais que envolvem leitura intensiva. E aí, esta questão da ligação entre complexidade de leitura e desenvolvimento do pensamento crítico torna-se ainda mais pertinente. Na internet, os textos estão em pé de igualdade, quer sejam tretas dos anti-vaxers, flat earthers, conspiracionistas, adeptos das terapias alternativas ou extremistas, quer sejam textos sérios científicos, bloguistas ou jornalísticos. Ter os bullshit filters bem afinados (ah, como adoro esta expressão do Howard Rheingold) é uma condição de sobrevivência na vida digital.

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Capturas na Rede: Diretório de Leituras Intrigantes (27 de abril)