Ficção Científica Tecnologia
Poem Portraits (Barbican/Dezeen)

Esta semana, vamos às catacumbas de Paris. E já que se fala de viagens, porque não ir às Ilhas do Desapontamento, no Pacífico Sul? Na tecnologia, recordamos o gigante europeu que não chegou a ser. Olhamos no primeiro artigo para a interação entre arte e inteligência artificial. Mergulhamos a fundo na Ficção Científica, com novidades na edição de banda desenhada. E que outros temas vos esperam? Não temam, e mergulhem nas Capturas na Rede.

Mentes Digitais

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The Barbican dives deep into artificial intelligence with More Than Human exhibition: Colocar esta na lista de exposições que esperemos que o MAAT cá traga, já que com a minha profissão ir a Londres não é fácil (os professores têm horários muito estritos a cumprir, não podemos tirar uns dias de férias quando precisamos, ou os voos estão mais em conta). Misto de arte com tecnologia e pedagogia, a exposição AI: More Than Human vai olhar para os impactos da robótica e inteligência artificial na sociedade. Pelas fotos, de uma forma muito sensorial e deslumbrante.

Do Blockchain a caminho do Hashgraph: A verdadeira utilidade das tecnologias blockchain não está na geração de criptomoedas, mas na capacidade desta tecnologia de registar transações, o que lhe confere aplicabilidades revolucionárias na indústria e serviços.

Machines Like Me: Ian McEwan conseguiu atrair a ira da comunidade de fãs e escritores de Ficção Científica ao recusar ser associado ao género com o seu último romance, sobre um andróide inteligente criado por Alan Turing (claramente, insere-se no policial ou romance cor de rosa… ironia, claro). Patetices snobistas de escritor mainstream à parte, o romance dá o mote a uma excelente conversa entre McEwan, John Brockman, Neil Gershenfeld, Stephen Wolfram, Adam Gopnick e Rodney Brooks. Ou seja, pessoas que percebem mesmo de robótica, entre a técnica e o lado social. A conversa é leve, vale mais pelos comentários dos peritos do que pelos insights algo banais de McEwan. E, pelo meio, damos com esta pérola de pensamento: “I wanted to give a quote from that profound philosophical thinker Stormy Daniels. She has a wonderful quote where someone asked whether her breasts were real or not, and she said, “Well, honey, they’re definitely not imaginary.” That’s a fairly profound observation in the sense that many things that we’re thinking about are the result of this much more general human capacity, which is this capacity to have things that are initially imaginary, the things that are initially just representations, then actually realize them in the world”. Piadas à parte (e esta é excelente), mostra bem que o real não é só aquilo que é natural, é também o que concebemos e construímos.

 

A tarefa corre mal, perdemos a paciência, atiramos tudo ao ar e ainda tropeçamos? Quem nunca? Ok, mas isto é um robot…

Social Media Are Ruining Political Discourse: Sim, mais um artigo sobre a iminente catástrofe via redes sociais. Mas este levanta algumas questões intrigantes. As redes, bem como outros produtos digitais, estruturam-se segundo a psicologia do fluxo de Csikszentmihalyi (se conseguirem pronunciar este nome sem se engasgarem, parabéns). Fluxo é aquele estado fluído, bem conhecido das pessoas mais criativas, em que nos encontramos quando estamos profundamente envolvidos com uma tarefa. O problema das redes é que o estado de fluxo que induzem é superficial, desenhado para que o utilizador continue a fazer scroll constante, em busca de novidades (e, de caminho, recebendo anúncios que são o ganha-pão destas empresas). É terreno fértil para os enviesamentos, banalidades e propaganda deliberada. Não é preciso ser verdade, ou sequer uma ideia articulada, o que interessa é implantar o vírus na mente do utilizador.

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The Italian Computer: Olivetti’s ELEA 9003 Was a Study in Elegant, Ergonomic Design: Retro-computação cheia de estilo, a Olivetti, que nos primórdios da era da tecnologia da computação se estava a posicionar para ser um potencial gigante, foi a primeira empresa a entender que o computador não é só uma máquina, o interface com o humano é fundamental. No entanto, o artigo da IEEE Spectrum não se foca no design precursor da empresa, mas sim no porquê dela não se ter tornado um gigante europeu da computação. Em suma, devido aos falecimentos prematuros do engenheiro brilhante que liderava o departamento de computação, e do principal gestor que, nos anos 50, via o futuro na tecnologia digital. Mostra bem que os projetos bem sucedidos não dependem tanto da capacidade tecnológica ou know how técnico, que o fator diferenciador são as personalidades de quem os lidera.

Amazon wants to 3D-scan volunteers’ bodies for a $25 gift card: Dado que a Amazon tem práticas laborais que ultrapassam as piores distopias cyberpunk, ficaria desconfiado das suas boas intenções. Especialmente nesta recolha de dados biométricos em larga escala. Para que servirá? Claramente, para treinar tecnologia de algoritmos de inteligência artificial. Resta saber se serão usados para afinar o Alexa, ou sistemas de segurança baseados em reconhecimento biométrico automatizado (para que servem? Pensem em videovigilância, policiamento automatizado, controle de entradas em edifícios, ou aplicações mais arrepiantes nas mãos de estados ou pessoas sem escrúpulos éticos). Provavelmente, ambas, e de certeza outras aplicações que não conhecemos.

HUAWEI’S ANDROID AND WINDOWS ALTERNATIVES ARE DESTINED FOR FAILURE: Qual será o real impacto do fim da relação entre a Google e outros gigantes tecnológicos americanos com a Huawei, imposta pela administração Trump? No mercado chinês, poucos, apesar de algumas questões ligadas ao hardware. No mercado global? Por muito bons que sejam os seus dispositivos, se não fizerem parte do ecossistema de tecnologia Google (mesmo que usem a versão aberta do Android), ninguém os vai utilizar se não tiverem acesso à loja de aplicações e aos serviços Google que se tornaram essenciais. Não há aqui novidade, outros já o tentaram. Recordam-se da Blackberry, do Symbian da Nokia, Tizen da Samsung, do… Windows Phone? Apesar da postura agressiva da Huawei perante este banimento, afirmando que criou o seu próprio sistema operativo e por isso não será afetada pela perda de acesso à Google, mal disfarça a realidade do forte golpe que a empresa sofreu. As aspirações globais que tinha, terminaram.

CubeSat, o pequeno satélite que está a revolucionar o sector espacial: Pequenos, baratos e multifuncionais. Os CubeSats são uma revolução na economia espacial.

Ir Onde Não Se Vai

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Ilhas do Desapontamento )(Andrew Evans)

A journey to the Disappointment Islands: Um relato fascinante de viagem à pura aventura a um destino paradisíaco isolado. Estes atóis remotos da Polinésia Francesa estão intocados pelo turismo de massas, são tão longínquos da própria zona a que pertencem que as carreiras aéreas são irregulares. Um viajante, e o espírito de pura hospitalidade no meio do vasto oceano Pacífico.

Teacher suspended after her pupils criticise Italian far-right law: Itália, WTF? Um grupo de alunos apresenta um trabalho em que compara as políticas do degradante Salvini às de Mussolini (francamente, os italianos deveriam ter vergonha de ter um racista misógino como ministro do interior). A professora foi suspensa pelo ministério da educação italiano, para ser investigada com a acusação de não ter orientado corretamente os seus alunos. Aparentemente, na nova Itália populista, deixar que os alunos expressem a sua opinião é ser mau professor, eles têm de ser “orientados” em certas direções. É um pequeno pormenor numa profissão e país complexos, mas aponta para o verdadeiro perigo dos populistas, neofascistas e outros escroques da sua igualha: Salvinis, Venturas, Farages, Trumps, LePens e tantos outros podem ser perigosos e intragáveis, mas o verdadeiro perigo vem das pessoas cinzentas que, em lugares burocráticos de poder intermédio, se sentem inspiradas para agir contra as liberdades.

Scientists Discover Atomic-Forged Glass on Hiroshima’s Beaches: Olá, Antropocénico. Mais de cinquenta anos depois do violento dealbar da era atómica, ainda são encontrados indícios na areia das praias japonesas.

New York Has a Supervillain Pulling Emergency Brakes and Destroying Subway Commutes: Para a categoria coisas muito, muito estranhas. Alguém que se compraz em, no metro de Nova Iorque, sabotar as carruagens e provocar paragens e atrasos no serviço. Nas profundezas dos túneis do metro, coisas estranhas se passam…

AFTER 15 YEARS, THE PIRATE BAY STILL CAN’T BE KILLED: Processos judiciais, a ira dos executivos das indústrias de propriedade intelectual, takedowns a seguir a takedowns, mas mesmo assim, o velhinho TPB continua ativo. Tudo graças a uma comunidade de libertários anónimos que consegue estar sempre vários passos à frente de governos e indústrias.

The Invisible City Beneath Paris: A imperdível leitura longa da semana. Se, como eu, são fascinados pelo mundo da exploração urbana, vão ficar encantados com este relato de um escritor que se junta a um grupo de catáfilos para uma viagem ao longo das lendárias catacumbas de Paris. A literal cidade sob a cidade, geografias subterrâneas de espelho, zonas temporárias autónomas com os seus códigos de conduta de evolução orgânica, os estranhos e deslumbrantes panoramas que se escondem sob as ruas parisienses. Mas, ainda não clicaram na hiperligação para ler o artigo?

Science Fiction Multiple Feature!

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Tintin – A Aventura na Lua – O Conhecimento Científico e a Banda Desenhada: Uma análise da verossimilhança da Viagem à Lua concebida por Hergé, face à realidade da tecnologia das missões lunares.

A Panorama of Genre Events in Portugal: Se há quem conheça bem os poucos mas energéticos eventos ligados à cultura geek portuguesa, é Rogério Ribeiro. Propõe-se analisar para o portal em inglês de FC e F portuguesa o historial dos festivais, eventos e tertúlias que reúnem fãs e criadores.

‘Providence’: H.P. Lovecraft y Alan Moore se encuentran en el núcleo de un cómic aterrador, obsceno y lleno de tentáculos: É, de facto, uma das obras de maior fôlego de Moore nos últimos anos. Uma profunda desconstrução do mythos lovecraftiano, passando pelas obras acessórias de Chambers e dos seguidores do bardo de Providence. Uma revisão da obra de Lovecraft que, de forma enciclopédica, sublinha a sua violência visceral e negritude cósmica. Um livro que gostaria muito de ver editado em Portugal.

Do spoilers actually ruin stories?: Sempre suspeitei que o fator contar spoilers faz-me perder o prazer da história depende muito da capacidade cognitiva e erudição do leitor. Pessoalmente, spoilers não me chateiam nada, o que conta é a leitura, o progresso narrativo, a solidez do mundo ficcional. E no cinema a mesma coisa. Se se está a ver um filme só pela curiosidade de como termina, isso quer dizer que nem estamos a apreciar o filme, nem a história, se calhar, é grande coisa.

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Novidade: A Viagem da Virgem: Isto promete. BD portuguesa criada e ilustrada por alguns dos seus maiores autores. Argumento de Pepedelrey, desenhos de Jorge Coelho, Rui Gamito e Rui Lacas. É muito star power da banda desenhada nacional. Ainda por cima, dedicados a essa raridade que é a Ficção Científica. Confesso que estou curioso.

Lunacy: how science fiction is powering the new moon rush: O papel da ficção científica nesta segunda corrida à Lua, que esperamos traga resultados mais permanentes do que a primeira. O artigo é sensato e não se reduz ao ponto de vista da FC enquanto preditora de futuros e tecnologia (o argumento pró-FC favorito de quem não percebe nada do género). Antes, recorda um conjunto de obras que estimulam a imaginação e nos ajudam a olhar de forma mais assertiva para a possibilidade de estabelecer presença humana no solo lunar.

Here are the winners of the 2019 Nebula Awards: Se estão à procura do melhor que se editou em ficção científica neste ano, não vão mais longe, o essencial está nesta lista. Pessoalmente, fiquei muito intrigado com a premissa do romance vencedor de Mary Robinette Kowal: uma corrida espacial global, motivada por um cataclismo provocado por asteróide que atingiu os Estados Unidos nos anos 50? Hora de ir à caça no Bookdepository.

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Syd Mead – Original Artwork 18.5.19: Um designer gráfico está numa sala de reuniões da Volvo, olha para os desenhos na parede, e pergunta porque é que são tão parecidos com o estilo de Syd Mead. A reposta é incrível: são, de facto, trabalho do mais influente ilustrador e concept designer futurista do século XX, que desenhou alguns conceitos de tecnologia de camiões para a empresa sueca. Desenhos que ficaram esquecidos, a decorar uma humilde sala de reuniões.

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Capturas na Rede: Diretório de Leituras Intrigantes (19 de Maio)