Quando a 26 de Março o Vice-Presidente Mike Pence falou no Conselho Nacional do Espaço, a que ele preside, mandatando a NASA para colocar os astronautas na superfície lunar até 2024 (Lua 2024), quatro anos antes do planeado anteriormente (Lua 2028), não o terá feito certamente de impulso… Até porque repito, é ele próprio que preside ao Conselho Nacional dos Espaço e por isso jamais falaria sem ter uma noção muito clara de para que lado sopra o vento.

Uma promessa de uma missão tripulada, um “achievement” tão marcante para o Programa Espacial, põe em causa a própria credibilidade dos EUA. Não é a mesma coisa que um atraso no desenvolvimento do módulo tripulável Orion, ou do foguetão SLS – Space Launch Systeam, ou do James Webb Space Telescope. O falhanço compromete a credibilidade dos EUA enquanto nação.

Então porque há críticas? Porque se diz que é impossível a Lua 2024?

Após estes anos de impopularidade da Administração Trump, muito focada na pessoa do Presidente naturalmente, houve uma promessa que foi repetida vezes sem conta que Trump nunca conseguiu sequer disfarçar em tê-la cumprido: “Make America great, again!”.

Estamos a viver uma corrida pelo controlo do Espaço, uma “Gold Rush” pelos recursos que podem ser minerados no Espaço e a Administração Obama tinha posto fim ao Programa Constellation. Este programa da NASA estava a criar uma nova geração de “naves espaciais”, representando um upgrade do Programa Apollo (que levou Neils Armstrong e Buzz Aldrin à Lua). Assim, o programa Constellation assentava principalmente no desenvolvimento dos foguetes lançadores Ares I e Ares V, no Orbitador Orion, no Estágio de Partida da Terra e no módulo lunar Altair.

Desta forma Trump não está a ser inovador! Está a aproveitar-se das circunstâncias. Se não anunciar a criação da base lunar para servir de “estação de serviço” para o lançamento de missões interplanetárias, redirecionamento de asteróides, observação a partir de outro corpo celeste, mineração dos recursos lunares, etc, tanto a China como a Rússia vão acabar por fazê-lo em breve, comprometendo a preponderância dos EUA para sempre, nesta corrida.

Parecendo que se sabe do que se está a falar…

A meta de Trump de Lua em 2024, nada tem que ver com uma visão empreendedora. De facto ele não pode afirmar outra coisa: Após a missão Chang’e 4 onde a China aterrou no lado oculto da Lua, entrando no Programa Espacial com toda a agressividade, e demonstrando “skills” que nem os EUA nem a Rússia têm de momento, afirmou em seguida que entre 2026 e 2030 colocaria Taikonautas (termo chinês para astronautas) na Lua, acabando de forma “suspeita” por rever a data para 2031. Recorde-se que até 2016, a China sempre assumiu que até 2025 colocaria Taikonautas na Lua.

Ora se a Lua em 2024 para os EUA é um cronograma agressivo, Lua em 2031 (versão actual) para China é um cronograma perfeitamente desfasado, irrealista por ser tão lento… Tão modestamente irrealista!!! Soando a “não se preocupem connosco, que nós não somos um problema”!

A Rússia à espera da sua oportunidade…

E a Rússia? A Rússia estava a liderar a Corrida Espacial em 1959 quando lançou o Sputnik 1 e várias sondas para a superfície da Lua: A Luna 3 que em 1961 orbitou a Lua e tirou fotos e a Vostok 1 que colocou o primeiro homem no Espaço (Yuri Gagarin).

Quando em 1962 o Presidente John Fitzgerald Kennedy, o JFK, a 12 de Setembro fez o famoso discurso “We choose to go to the Moon”, no Rice Stadium (University) em Houston no Texas, Nikita Khrushchev ficou em silêncio e sem confirmar quando e como seria a missão tripulada da União Soviética para desembarcar na Lua. E ficou em silêncio, até porque não podia falar: na época todos os esforços concentravam-se no desenvolvimento do ICBM (míssil intercontinental).

Nessa altura Sergei Pavlovich Korolev conhecido apenas como o “Desenhador-Chefe” no Programa Espacial Soviético, ou simplesmente por “SP” (para dificultar a identificação), por medo que os EUA enviassem uma equipa de agentes para o assassinar, coordenava as vitórias do Programa Espacial Soviético. Korolev era o chefe da Secção OKB1 responsável pelo Vostok e Sputnik.

Este homem, Korolev, coordenava áreas tecnológicas sozinho que na NASA eram departamentos inteiros. E em 1960 foi finalmente substituído pelo seu rival Vladimir Chelomei, que era apadrinhado pelo líder soviético Nikita Khrushchev que o indicou por “patriotismo”!

Nesta altura o Programa Apollo (EUA) que levaria Armstrong e Aldrin à Lua, ficou temporariamente sem competição! Quando em 1964 o Secretário-Geral Nikita Khrushchev foi substituído por Leonid Brejnev, o “primeiro acto” foi dar controlo total ao “SP” Korolev (o homem dos sucessos que tinha sido afastado). E a Korolev foi pedido que aterrasse cosmonautas na Lua em 1967, em comemoração dos 50 anos da Revolução Russa (1917).

Este assunto criou um problema grande a Korolev: para levantar 95 toneladas de carga útil ele precisava de um foguetão/foguete como o N1 (versão soviética do Saturno V), que por sua vez precisaria de motores potentes como os F1, utilizados no Saturno V americano.

Nessa altura Valentin Glushko tinha o monopólio do design de foguetões na União Soviética, por ser o Chefe da Secção OKB-456. Nessa secção estavam a ser pesquisadas formas de propulsão por utilização de comburentes ou seja, que quando as duas substâncias eram misturadas provocassem a combustão automática originando assim a propulsão.

O foguetão assassino na sombra da Lua 2024…

Korolev era contra a utilização deste método em missões humanas e Gushko afirmava que não era possível mudar para outro tipo de motor, como o dos americanos (com oxigénio liquido e querosene), até porque segundo informações de que dispunham, os americanos estavam há 5 anos a tentar desenvolver este tipo de motores criogénicos e ainda não tinham tido sucesso. Mas mais que isso havia um problema pessoal entre os dois cabeças do programa espacial soviético: Korolev acusava Gushko de o ter denunciado durante a Grande Purga de Estaline em 1938, o que lhe valeu 6 anos de prisão num campo de trabalho soviético. Gushko por outro lado queixava-se de Korolev ser autocrático ou ditador, e fazer exigências irresponsáveis, completamente fora da sua área de competência.

Os atrasos por recusa de colaboração entre os dois foram decisivos. Korolev ainda requisitou outro designer de foguetões/lançadores, Nokolai Kuznetzov, que chegou à mesma conclusão que Gushko ou seja, que a União Soviética não tinha estrutura no Programa Espacial para tentar construir de raiz um novo tipo de motor em tempo útil e diferente do que Gushko estava a construir. Conseguiu-se contudo começar a construir um modelo intermédio (embora francamente mais potente), a que chamavam de “circuito-fechado”.

Este modelo de “circuito-fechado” estava completamente nas mãos de Korolev, quando este subitamente e inesperadamente morreu vítima de uma operação de rotina. Herdou o comando do Programa Espacial Soviético o braço direito de Korolev, Vasily Mishkin.

Mishkin cometeu vários erros… Mas o maior deles diz respeito ao local de testes ou base espacial soviética, o Cosmódromo de Baikonur, que não tinha dimensão suficiente para receber cargas de grande dimensão. Por esta razão o foguetão N1 foi dividido em secções de transportado para o local de lançamento, onde deveria ser reconstruído para ser lançado em seguida.

Sem estrutura (como os americanos tinham), para testar os componentes conjuntamente, o resultado final do N1 tinha grandes possibilidades de ter consequências inesperadas. De facto, sem testes, ele foi desenhado para ser construído na plataforma de lançamento e apenas ser completamente testado no próprio lançamento.

Desta forma os soviéticos agendaram uma série de 14 lançamentos, sendo que os primeiros 12 eram testes sem tripulação e os últimos 2 seriam missões tripuladas, com duas possíveis alunagens. Assim a 21 de Fevereiro de 1969 a União Soviética estava pronta para a primeira missão tripulada. Nesse lançamento o sistema Kord fechou subitamente 2 dos 30 pequenos propulsores, criando instabilidade de voo, combustão instável e um consequente “shutdown”, apenas 68 segundos a seguir ao lançamento, o que levou o foguetão a despenhar-se a 32 milhas do local de lançamento.

Foi agendado uma segunda tentativa para 3 de Julho de 1969, ainda antes dos americanos conseguirem alunar a 20 de Julho de 1969, num esforço de ultrapassar os EUA mesmo em cima da meta.

No dia 3 de Julho às 11:18 o motor número 8 explodiu, causando um incêndio e fazendo com que o N1 caísse para trás derramando 2,300 toneladas de propelente de foguetão na pista de lançamento, provocando uma explosão semelhante a uma pequena bomba atómica ou a 3.8 Kilotoneladas de TNT, desta vez destruindo 6 milhas em redor do local de lançamento, incluindo a própria base de Baikonur. 17 dias depois deste incidente Neils Armstrong pisou a Lua em segurança.

Os soviéticos não desistiram. Após 2 anos de reconstrução do Cosmódromo, e de modificações ao N1, a terceira tentativa ficou marcada para Novembro de 1971. E falhou! O foguetão desmembrou-se e rodou para baixo despenhando-se. A quarta e última tentativa falhou em Novembro de 1972, 107 segundos depois de levantar voo.

Sabe-se que houve um quinto agendamento de uma missão à Lua em 1974, e que os progressos tecnológicos foram imensos. Contudo foi cancelado pelo líder soviético Leonid Brejnev, após este assistir a 10 anos de desgraças…

Além disso, em 1974 os americanos já tinham estado na Lua 6 vezes, e o interesse público na década de 70 afastou-se do Espaço após a conquista dos americanos, dando lugar a outro tipo de corrida (o auge da Guerra Fria) e ao confronto económico entre o Bloco Soviético e o Ocidente.

Foi durante o período de Gorbachev com o Glasnost e consequente colapso da URSS que esta história se tornou pública, e ficámos a saber o que aconteceu ao Programa Espacial Soviético.

Na Rússia de Putin e a nova corrida à Lua… Para lá ficar!

Recordo-me quando há uns anos atrás se tornou pública uma conversa entre o Presidente Boris Ieltsin e o brilhante Presidente Bill Clinton. Após um encontro entre Clinton e o recém indigitado Primeiro-Ministro russo, Vladimir Putin, Clinton dirige-se ao Presidente russo nestes termos (a Ieltsin): “This young man doesn’t have democracy in his heart!” (Senhor Presidente, este rapaz não tem a Democracia no seu coração!).

De facto, o Espaço é para a Rússia o palco da Nova Guerra Fria (a segunda). Desde o armamento de satélites contra os satélites dos EUA, à parceria ora quente ora fria, com vista à exploração espacial. É verdade que com o cancelamento do Programa Constellation, os astronautas americanos começaram a apanhar boleia nos lançadores Soyuz, mas…

Mas a corrida ao Espaço assume agora contornos estranhos, de ajuste de contas com o passado soviético. Por exemplo na Rússia de Putin, o Director-Geral da Roscosmos (Agência Espacial Russa), afirmou numa entrevista de vídeo, que tem a Roscosmos tem a intenção de voar até à superfície da Lua e comprovar se efectivamente os americanos pousaram nos sítios da Lua que anunciaram… (ver aqui: Russia space agency promises to check whether US moon landings really happened).

Agora a Rússia quer lançar a suspeição sobre o sucesso americano, e eventualmente surpreender o Mundo com uma alunagem, ajustando as contas com o passado! Numa altura em que o boato condicionou as eleições dos Estados Unidos.

Lua em 2024 – “ir para ficar” – é uma data irrealista?

A Lua em 2024 se for irrealista, é muito estranho… Muito estranho mesmo, até porque o “Hardware” para o fazer está praticamente concluído ou em estado de desenvolvimento avançado:

O SLS – Sistema de Lançamento Espacial e o módulo Orion estão a ser desenvolvidos há vários anos e o reforço de 1,6 mil milhões que a NASA vai receber em 2020, compreende as despesas para finalizar o esforço de desenvolvimento.

O Gateway está na responsabilidade de privados como a MAXAR, e nada é mais do que um modesto habitat inicial (que irá crescer com os módulos adicionais), e que servirá de nó de ancorarem a meio caminho. Não é por isso fundamental para a missão (como não o foi há 50 anos atrás).

Jeff Bezos revelou dia 9 de Maio o seu módulo Blue Moon, afirmando que estará disponível para auxiliar a NASA a conseguir o seu objectivo da missão Lua 2024. Quando Bezos anunciou a Blue Moon no Washington Convention Center, por altura da conferência “Satellite 2019”, estavam presentes cientistas planetários da NASA e o astronauta Harrison Schmitt da Apollo 17. A presença de altos quadros da NASA reforça a validade daquilo que foi apresentado. E um detalhe: a Blue Origin não precisa que a NASA conclua o SLS Moon, pois tem veículos lançadores próprios como o New Shepard e o New Glenn. Além disso os foguetões da Blue Moon estão a ser adaptados aos motores BE-7 com hidrogénio, que é uma das substâncias que terá obrigatoriamente que ser minerada na Lua, a partir da separação do oxigénio dos depósitos de água. A solução da Blue Origin tem por isso a validade de ser uma opção de presença sustentável.

Por último na apresentação da Blue Moon, Bezos apresentou o veículo que “vai para a Lua”. Bezos foi bastante categórico na sua apresentação! Seria apenas ousadia? Estranho será que seja ousadia, para uma empresa que já é empreiteira da NASA…

E a Blue Moon pode transportar 6,5 toneladas para a superfície da Lua, ou seja, pode levar o rover/habitat e os robot/3D Printing para iniciar a construção da base.

Para além disso a SpaceX terá a Starship concluída em 2023, para fazer o seu Loop Lunar. E a SpaceX é empreiteira da NASA. Talvez até a principal ultrapassando a Northrop Grumman com o projecto Starlink… Assim sendo a NASA pode prescindir do SLS Moon a qualquer momento, para cumprir a data. Existem outros lançadores na “equipa da casa”.

Então porque “raio” é que este seria um cronograma agressivo? Porque será que a meta Lua 2024 uma data irrealizável e irresponsável, se tudo indica que esta missão será concluída antes mesmo de 2024?

A desinformação e a crítica superficial é uma forma de tentar estar na pista, antes da dança começar! Falar para dizer bem nunca trouxe fama a ninguém!

O impressionante é mesmo saber que quem comenta não tem nenhuma noção do enquadramento histórico, das prioridades políticas e do equilíbrio de forças das nações com Programa Espacial.

Mas também não é importante: o Projecto Bit2geek está aqui para ocupar esse espaço!

***IMPORTANTE***

Não se esqueça de ajudar o Bit2Geek a crescer nas redes sociais, para termos mais colaboradores e mais conteúdo, 👍? A sua ajuda muda tudo!

 

***E clique em baixo para ficar a saber mais!

Space Launch System: O Elefante Branco da NASA