Feriado, disseram? E que tal aproveitar o tempo livre extra para descobrir as nossas sugestões de leitura? Esta semana, capturámos artigos sobre Inteligência Artificial, armadilhas causadas por algoritmos de otimização, ou visões sobre o futuro do trabalho numa economia automatizada. Recordamos De Kooning, e ficámos babados com a mais recente proposta da Lego (mas não temos tempo para a montar). Não esquecemos os setenta e cinco anos do Dia D. Mas como somos geeks, trazemos também Robert McCall, o primeiro Buck Rogers e Ted Chiang. Estas, e muitas outras seleções de leitura, estão no Capturas na Rede desta semana.

Vida Digital

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Esta inquietante imagen es lo que experimenta una red neuronal mientras ‘agoniza’ y va olvidando cómo es un rostro humano: Uma experiência intrigante. Depois de treinar uma rede neuronal para gerar imagens realistas de um rosto humano, a investigadora começou a desligar os nós da rede um por um, e documentou o resultado. Que é este, uma sucessão de imagens bizarras e para nós perturbadoras de um rosto progressivamente desconstruído à medida que a rede neuronal perde capacidades. No vídeo que acompanha a notícia, a banda sonora poderia ser a canção Daisy Bell… Não perceberam esta? Revejam 2001 de Stanley Kubrick. Na cena em que o astronauta Dave Bowman desliga o computador HAL-9000, este canta essa canção numa forma progressivamente rudimentar à medida em que lhe são desligadas as funções. Uma cena curiosamente tocante, e provavelmente, uma homenagem de Kubrick à história da computação. Em 1961, uma equipa de engenheiros da IBM programou um computador da série 7094 para cantar, tornando-se a primeira máquina da história a reproduzir som desta forma. A música? Daisy Bell.

‘Robots’ Are Not ‘Coming for Your Job’—Management Is: Certeiro. O grande impulso da automação vem da gestão, como forma de aumentar lucros e racionalizar processos produtivos. Não são os robots que vão substituir os humanos, são os gestores  que estão mortinhos por reduzir os custos com força laboral. E este é um dos grande problemas que a automação está a colocar à sociedade. Neste cruzamento entre tecnologia e neoliberalismo, a lógica da automação é descartar o ser humano dos processos económicos.

The guy who made a tool to track women in porn videos is sorry: Isto é muito, muito creepy. E sintomático de comportamentos obsessivos de sanidade mental altamente discutível. É elevar a fasquia do stalking a um nível inesperado.

Let Your Robot Take the Final: E se usássemos algoritmos de aprendizagem individualizada (não é uma ideia nova, já desde os anos 60 que se fala disso), que refletem percursos formativos, e fizessem exames por nós? A ideia é gira, mas dispara ao lado. A grande questão é se, na era da Inteligência Artificial e quando sabemos que o conhecimento só gera valor quando aplicado, em que as capacidades criativas e de socialização são as que nos distinguem dos algoritmos, vale mesmo a pena continuar a insistir neste sistema de avaliação por exames, que avalia apenas a prestação por memorização num dado momento.

La patente del PageRank de Google ha expirado hoy: Se, caros leitores deste Capturas, estão com vontade de criar a vossa própria google, vão gostar de saber que a patente do algoritmo PageRank original expirou. Claro que a google hoje usa versões bem mais sofisticadas deste algoritmo, mas pelo menos, sempre dá para olhar para aquele momento em que a forma como a internet era usada se alterou defintivamente.

Not iPod, iPAQ: Nos anos 90, quando os PCs desktop dominavam e falar-se de computação móvel parecia um sonho futurista, já existiam dispositivos que permitiam ter o computador na palma da mão. Variavam de capacidades entre os simples PDAs com sistema operativo básico, aos mais avançados da Palm. O Tedium recorda-nos um destes precursores dos tablets e smartphones: o iPAQ, um pequeno computador de bolso capaz de competir com os dispositivos Palm OS, que à altura dominavam o mercado. Tudo mudou no início do século XXI, com a óbvia convergência entre telemóveis e computadores de bolso, e especialmente a partir do momento em que Apple lançou o iPhone.

ARPANET, Part 2: The Packet: Um mergulho na história da Internet, que nos fala das decisões que levaram à adoção do encaminhamento por pacotes, que é a base das comunicações online. Um pouco de história da computação, neste Capturas.

THE CATCH-22 THAT BROKE THE INTERNET: Esta semana, o meu lado de administrador de sistemas foi surpreendido com mensagens da Google a reportar falhas de serviço generalizadas. Não são incomuns, mas costumam ser rapidamente resolvidas. Mas não esta. Passou quase um dia até a situação estar estabilizada. Este artigo da Wired detalha o que aconteceu: uma manutenção de rotina que entre erros, bugs e políticas automatizadas de salvaguarda de tráfego em redes (ironicamente, que serviam para evitar este tipo de situações), quase paralisou a maior parte dos serviços Google. E, com isso, parte da internet. É bom que estas coisas aconteçam, para nos recordar a complexidade da infraestrutura técnica que sustenta os serviços digitais de que dependemos.

Amazon says it has deployed more than 200,000 robotic drives globally: É impossível não notar que esta empresa está na vanguarda da automação, pelas melhores e piores razões. No lado negativo destacam-se as suas práticas laborais, conhecidas pela forma opressiva como gerem os seus funcionários. No positivo, a substituição da mão de obra em trabalhos repetitivos e mecanizados. Este é um tema que o Bit2Geek mantém sob observação.

On YouTube’s Digital Playground, an Open Gate for Pedophiles: A ironia disto é que os algoritmos de recomendação estão apenas a fazer aquilo para que estão programados: otimizar o tempo de estadia no site, oferecendo sugestões que mantenham desperta a atenção dos utilizadores. Se os começa a levar para campos eticamente discutíveis, é apenas a conclusão lógica da otimização. Isto só me faz lembrar a clássica parábola da Inteligência Artificial criada para produzir clipes da forma mais eficiente possível, que acaba a exterminar a humanidade para otimizar ao máximo a sua produção.

A Fronteira Final

Lego is celebrating the 50th anniversary of Apollo 11 with a new lunar lander set: Acho que falo por todos os potenciais leitores destas Capturas na Rede: shut up and take our money?

“Strato-Goose”? Stratolaunch to Discontinue Operations After Single Flight.: Bem, pelo menos conseguiram meter o Stratolaunch a voar. No fundo, esta notícia sublinha os riscos de se ter o desenvolvimento de tecnologias e exploração espacial muito dependentes do carisma de um punhado de milionários. Após a morte de Paul Allen, seu fundador e um dos donos da Microsoft, a empresa não demorou muito a extinguir-se. Agora pensem. O que aconteceria aos fantásticos esforços da Space X se Elon Musk morrer repentinamente? Ou aos da mais discreta Blue Origin se Bezos se esfumasse?

NASA opening International Space Station to tourists: E já não era sem tempo.

Para lá dos Mundos da Tecnologia

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Willem de Kooning: Acrobat with a Paint Brush: Recordar um dos nomes maiores do abstracionismo e expressionismo abstrato, cuja obra ainda hoje nos causa um impacto sensorial fortíssimo.

Nothing Prepares You for Visiting Omaha Beach: Uma visão mais crítica sobre a II Guerra aponta que o que realmente levou à derrota da Alemanha nazi foi a brutal frente leste e o rolo compressor em que se tornou o Exército Vermelho. Também podemos apontar que as primeiras invasões anfíbias dos Aliados ocorreram mais a sul, na Itália. Mas, de facto, a simbologia do dia D é enorme, e apontar para visões alternativas não diminui em nada o seu simbolismo. Estamos próximos do 6 de junho, quando se irão comemorar os 75 anos sobre este ponto fulcral da II Guerra, e cabe a Trump a homenagem aos caídos, e aos sobreviventes. Não consigo pensar em pessoa menos apropriada para o fazer.

Rare footage of the “uncontacted” tribe that killed the missionary who illegally went to their island to preach: Conseguem imaginar uma vida sem espaços urbanos, cuidados de saúde, tecnologia avançadas e todas as amenidades que passámos a considerar como elementares? Suspeito que para os leitores deste Capturas no Bit2Geek isso seja tipo anátema. Para algumas raras, muito raras, tribos no Amazonas e Papua, o contacto com o mundo moderno é muito ténue. E, nas áreas ameaçadas pela agricultura intensiva, exploração mineira ou madeireira, não é um contacto positivo. Ainda temos este caso muito especial das ilhas Andaman, um arquipélago indiano no oceano índico. Uma das suas ilhas é lar de uma tribo isolada e especialmente aguerrida, que recusa de forma agressiva qualquer contacto com o exterior. O governo indiano optou por uma postura de não intervenção e criou o equivalente à prime directive de Star Trek. A área está interdita, e as tentativas de contacto com esta tribo são punidas. Isto, claro, se sobreviverem à tentativa. De vez em quando, sai mais uma notícia de pescadores perdidos ou missionários em missão evangelizadora mortos por se terem aproximado demais da ilha. Esta tribo não desconhece o mundo exterior. Apenas recusa-se a interagir com ele, algo que os antropólogos que a estudam, à distância, atribuem à memória de contactos violentos com outras tribos, no passado.

DEEP-SEA DIVERS AND INDUSTRIAL ESPIONAGE: ON THE FRONT LINES OF THE NEXT COLD WAR: Não vivemos num mundo inocente. E, por vezes, o incrível acontece. Como nesta história em que uma empresa de hardware viu os seus dispositivos mais recentes copiados por uma concorrente chinesa. As suspeitas de fuga de informação não deram em nada, naturalmente… porque o que os chineses fizeram foi contratar mergulhadores para roubar um dos dispositivos. Esta, e outras, mostram que a questão da Huawei não é preto e branco.

MAKER MEDIA CEASES OPERATIONS: Preocupante. Para além da óbvia má notícia sobre a empresa, esta pode ter repercussões globais. O futuro das Maker Faire fica em risco. Apesar de serem eventos tendencialmente gratuitos, organizados por voluntários, abertos a todos, as Maker Faire dependem da marca, que é detida por esta empresa editorial. Várias coisas podem acontecer. O fim das Faire como imagem global unificada; o uso não licenciado da marca e respetivo logótipo (aquele adorável robot vermelho); a transformação da Make numa entidade sem fins lucrativos; ou a continuidade destes eventos, perdendo a identidade Maker Faire. Quanto aos movimentos maker, à comunidade, esses vieram para ficar, mas sem Faire, a visibilidade pública dos projetos e o desafio educacional STEM, os grandes motivadores destes eventos, perdem muito.

Universos da Ficção Científica

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Space Ship Designer – 1: Robert McCall é mais conhecido pelas ilustrações que fez para a NASA, mas no tempo livre também gostava de desenhar naves  de pura sci-fi.

Doctor Manhattan Just Redefined Superman in Doomsday Clock: Ainda não consegui perceber se Doomsday Clock, o arco narrativo que está a interligar o mundo ficcional de Watchmen com a continuidade regular do universo DC, é interessante. Em parte, isso deve-se ao pedantismo de Geoff Johns em mimetizar o trabalho de Alan Moore, imitando-lhe as técnicas narrativas. Chega ao ponto de usar um ilustrador cujo estilo é muito similar ao de Dave Gibbons. Já o twist parece ser uma piscadela de olhos à própria DC: tudo gira à volta do Super-Homem.

First Buck Rogers Film: Para aqueles que acham que a Ficção Científica tem de ser sempre futurista e preditiva, artefactos como este parecem provar que o género envelhece mal. No entanto, este tipo de estéticas mostra outra coisa. Recordam-nos como do passado viam os futuros possíveis, prováveis ou improváveis. E mostra-nos, também, que as nossas visões contemporâneas, que consideramos tão à frente e interessantes, também se irão tornar, no futuro, algo que oscila entre o kitsch e o deliciosamente retro. Um achado para este Capturas na Rede.

It’s 2059, and the Rich Kids Are Still Winning: Entre o conto de FC e o relatório frio. Ted Chiang assina para o New York Times este texto futurista, numa secção do jornal dedicada à antecipação. E fá-lo no seu habitual estilo meticuloso e seco. Neste conto, Chiang leva-nos a meditar sobre as promessas, e os perigos de aprofundamento do fosso de desigualdades, das terapias de melhoramento humano através da manipulação genética.

Revista H-alt #08: Este é um dos projetos mais interessantes na banda desenhada portuguesa, que destacamos no Capturas. A H-alt é uma revista especializada em dar espaço aos novos autores, e cada número conta sempre com boas surpresas. Pode ser lida online gratuitamente, a versão em papel custa dez euros e costuma estar à venda em eventos ou livrarias independentes.

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