A Soyuz ilustra o artigo porque recebeu o único cosmonauta de origem indiana (Rakesh Sharma) e único viajante do Espaço que simultaneamente fosse cidadão indiano, já que Kalpana Chawla (astronauta) apesar de nascida na Índia, era norte-americana. A Soyuz é a marca de início das missões tripuladas da Índia.

A ISRO – Indian Space Research Organisation – ou agência espacial indiana tem estado a dar cartas no Espaço. E há 6 dias anunciou o início da construção de uma estação espacial indiana. Qual a importância de tudo isto?

A Índia move-se na área Espaço dentro de um horizonte modesto ou seja, menos de 10% do Budget da NASA: Aliás, enquanto que a NASA tem de budget cerca de 18 mil milhões (valores em média), a ESA 7 mil milhões, e a Roscosmos (Rússia) tem 3 mil milhões a par com a CNSA (Agência Espacial Chinesa), a ISRO (Índia) apenas tem 1.7 mil milhões. De facto se olharmos para empresas trilionárias como a Apple, chegamos à conclusão que apenas com o seu fundo de reserva (Chash Reserve Fund), a ISRO poderia ser financiada  na sua actividade durante 167 anos…

Como se destacou a ISRO?

O PSLV-C37 (2017) e o Mangalyaan(2013) afirmaram-se como os grandes produtos de combate da ISRO. Isto porque o PSLV detém o recorde de lançamento do maior número de satélites em órbita terrestre (algo que conseguiu fazer em apenas 18 minutos), e de uma só vez (104 satélites) e o Mangalyaan, um orbitador de Marte, que foi a primeira missão ao planeta vermelho a ser bem sucedida na primeira tentativa! Foi a quarta potência a orbitar Marte, mesmo antes da China.

Chama-se a isto precisão! O lançamento do PSLV-C37 que partiu da base aeroespacial de Sriharikota foi de alto risco. Os satélites foram ejectados de um único foguetão e em rápida sucessão, com apenas alguns segundos entre eles. Bastaria um erro para provocar uma colisão em cadeia.

O Veículo de Lançamento de Satélite Polar (PSLV) ejectou de início um grande satélite para observação terrestre com 714 kg, ao que se seguiu 103 nanossatélites que juntos pesavam 664 kg. Estes nanossatélites pertenciam a outros países como Israel, Suíça, Países Baixos, Emirados Árabes Unidos e Casaquistão.

Mas foi também um reconhecimento por parte de grandes potências que deram crédito à ISRO. Neste lançamento a forte presença dos EUA com 96 nanossatélites, 88 dos quais  em nome da Planet Labs, uma empresa privada de São Francisco que vende dados ao governo dos EUA.

Estas duas missões são também importantes porque reflectem a chegada do “Espaço Low-Cost”. Nunca nenhuma agência conseguiu realizar feitos semelhantes pelo preço que a India conseguiu: 70 milhões por cada uma das missões.

Esta é aliás a imagem de marca da ISRO – Eficiência de Custos no Programa Espacial. Enquanto empresas de topo como a SpaceX procuram desenvolver foguetões que sejam o mais rentáveis possível, com nomes pomposos inclusive, a Índia limita-se a chamar à sua classe de lançadores SLV ou “Satellite Launch Vehicles”.

ISRO -As duas classes de lançadores da Agência ESpacial Indiana. 1.) Polar Synchronous Orbit (PSLV’s) e 2.) Geosynchronous Orbit (GSLV’s)

Contudo a linha pragmática de construção dos lançadores da ISRO ou seja, a “modesta linha” que apenas quer lançar satélites e nada mais, mostra uma clara aproximação no design aos lançadores da SpaceX, tal como mostra a figura acima. Além disso a ISRO não tem falhas! E esse é o melhor Marketing de todos!

Uma raposa no Espaço…

Olhando com mais atenção para as duas organizações, a ISRO e a SpaceX são aliás bem parecidas… O SLV e o maior ASLV (dois foguetões lançadores), começaram a ser desenvolvidos na década de 1980, seguindo as pisadas do Falcon 1. As 3 versões do PSLV são comparáveis às versões do Falcon 9, e o actual GSLV já se pode comparar ao Falcon 9 Block 5.

A ISRO ainda não tem versões de lançamento super-pesado como o Saturno V ou como o Falcon Heavy (ou Big Falcon Rocket ou ainda Starship), mas para lá caminha…

Este posicionamento próprio, eficaz e de baixo custo tem levado a que países como a Argélia, Canadá, Alemanha, Indonésia, Japão, Singapura e Estados Unidos da América estejam a recorrer aos seus serviços para colocar satélites em órbita.

Estação Espacial indiana ou Gateway Low-Cost: O refúgio das raposas do Espaço!

Créditos: Jorge Magalhães in Olhares do Sapo

Se não fui claro quando à eficácia da Índia no Espaço, vamos fazer o seguinte raciocínio: Entra a Terra e Marte há 140 milhões de milhas de distância, o que é o mesmo que dizer que Marte fica a 225 milhões de Km do planeta Terra.

A sonda Mangalyaan percorreu esta distância e ainda orbitou Marte 6 vezes. Se fizermos a divisão entre os 70 milhões investidos na Mangalyaan e o número de Km percorridos (esta foi uma piada feita na altura, e por isso tem direitos de autor – mas não deixa contudo de ser verdadeira), chegamos á conclusão que andar de riquexó na Índia é mais caro do que o que custou esta missão por km percorrido!

Mas há mais: o filme Gravity com George Clooney, Sandra Bullock e Ed Harris custou 100 milhões… 30 milhões mais caro do que ir a Marte com a Índia.

A verdadeira raposa é aquela da qual ninguém se dá conta até ser tarde demais… A humildade do Programa Espacial Indiano só é equiparável à sua competência e á sua ambição… Sem quase nunca ser mencionada, as recentes declarações da ISRO (há 6 dias atrás, anunciando uma Estação Espacial Indiana), surpreendeu tudo e todos.

O Gateway indiano vai chamar-se Gaganyaan (2022)… É a Estação Espacial indiana!

E não ficamos por aqui… A Índia também vai lançar a sua primeira missão tripulada em Julho (vai chamar-se Chandrayaan), e já está a trabalhar para lançar missões ao Sol (que se chamará Aditya-L1) e a Vénus, nos próximos anos.

O discurso destas “verdadeiras raposas do Espaço” (e digo-o como elogio) é sempre o mesmo, com humildade sempre em linha de conta. Qualquer coisa como isto (resumidamente e adaptado):

“A Índia lançará sua própria estação espacial para realizar experiências de microgravidade. É verdade que vai haver uma missão tripulada, que são 2 ou 3 humanos em órbita baixa da Terra, a 300 ou 400 Km… E se a Chandrayaan 1 é uma missão tripulada segue-se uma missão Chandrayaan 2 que basicamente é o lançamento de um veículo de pouso lunar, que é como quem diz que com moderação a Índia entrou na corrida à Lua”.

A missão de Gaganyaan ou o “Gateway indiano” / Estação Espacial indiana, é aquilo que o americanos chamam de um “Big Deal”. Isto porque está alocada uma verba jamais vista para a agência espacial indiana: 1.5 biliões de dólares americanos.

Na conferência de imprensa o Dr. Kailasavadivoo Sivan, Administrador da ISRO deixou no ar uma frase como explicação para o Programa Espacial Indiano, que muito gostei:

“São missões como Chandrayaan, Mangalyaan e Gaganyaan que estimulam a juventude, unem a nação e também pavimentam uma semente tecnológica para o futuro”.

Assim fala uma potência mundial do Espaço… Não quer fazer colónias em Marte como Elon Musk, ou abrir caminho para colonizar a Lua como Jeff Bezos… Ou qualquer coisa parecida…

A ISRO quer apenas estimular a Juventude! Repito: assim fala uma potência mundial do Espaço! E isto sim, é de raposa!

E é de raposa porque há cerca de uma ano atrás que a Índia tinha anunciado que estaria a preparar apoiar Startups Espaciais com Programa De Incubação. O objectivo era lançar startups espaciais que estão a desenvolver soluções lançadores/foguetões, satélites de comunicação e aplicações relacionadas a dados de detecção remota. Com esta jogada, o Governo da Índia víncula as startups emergentes à ISRO, que aproveita esses desenvolvimentos.

Através do braço comercial Antrix Corp, a ISRO já captou startups como a Bellatrix Aerospace, que constrói sistemas de propulsão elétrica para satélites; a Aniara Communications e Exseed Space, parte de um consórcio privado que reúne, integra e testa satélites de comunicação e detecção remota; e ainda a Satsure, uma empresa de análise agrícola.

Assim se gere uma empresa, uma agência espacial, e um Programa Espacial. Um exemplo de sucesso!

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