Começa a chegar o tempo para os CLPS ou Commercial Lunar Payload Services, que podemos resumir simplesmente a lançamentos de carga na Lua , e que antecipam a criação de uma base no Polo Sul lunar ou de forma mais poética o início da “colonização da Lua” (porque fazer uma base e expandi-la é efectivamente colonizar)!!

Para alguns a Lua é uma precipitação e um objectivo irrealizável dentro da década de 2030, mas não para o Goddard Space Flight Center da NASA, em Greenbelt no Maryland. Isto porque o LRO ou Lunar Reconnaissance Orbiter , que dia 18 de Junho de 2019 concluiu 10 anos de missão mapeando a região do Polo Sul Lunar em “cada metro quadrado, até mesmo áreas de sombra permanente“, tal como afirmou Noah Petro, cientista do projeto LRO da NASA/Goddard.

Este mapeamento permitiu aos cientistas “caçar” reservatórios de água/gelo (cuja existência está provada), e que podem permitir a utilização não só da água como de oxigénio para viver e hidrogénio para propulsão de foguetões, através da separação molecular.

Além disso o LRO estudou também os níveis de radiação que atingem a Lua (seja esta radiação solar ou radiação cósmica – ver a diferença aqui em Radiação 1 e Radiação 2). Em resumo, tudo aquilo que é importante para o Programa Artemis ter sucesso ou melhor, para dar consistência à estratégia “Moon to Mars”, da NASA: Criar uma base lunar que sirva de apoio para lançar missões interplanetárias, aproveitando os recursos lunares e 1/6 da gravidade da Lua em relação à Terra por forma a não gastar todo o combustível na propulsão de escape planetário (ou seja, escapar da gravidade de um planeta).

O LRO – Lunar Reconnaissance Orbiter era inicialmente uma missão para durar apenas 2 anos. Com o anúncio do Programa Artemis a NASA acabou de enviar o 4º pedido consecutivo de extensão desta missão, a fim de recolher os últimos dados necessários para a concretização do Programa Artemis.

E com os dados completos do LRO se vai para o Polo Sul Lunar.

O Polo Sul é a localização ideal para a Lua armazenar água, uma vez que nesta localização a luz do Sol atinge a superfície lateralmente, deixando as crateras mais profundas continuamente na sombra.

Não sabemos exactamente como existe tanta água na superficie da Lua: se por vulcanismo ou processos geológicos actualmente adormecidos, ou se por colisão de corpos celestes como os cometas, que são compostos por gelo e rocha.

De facto foi em Junho de 2011 que o Lyman Alpha Mapping Project descobriu a partir de fotos tiradas com Lunar Reconnaissance Orbiter que existiam zonas com “estranhos” pedaços de gelo (ou vestígios de colisão de cometas).

A imagem seguinte mostra justamente a cratera de Cabeus com um grande pedaço de gelo no seu interior. Não seria tão estranho se esta região não fosse, segundo os investigadores, “tão ou mais seca” que o deserto do Sahara.

Créditos: Science/AAAS

Em resumo, aquilo que sabemos a água se conserva neste Polo, na sombra das crateras onde a temperatura nunca sobe dos -156 graus Celsius. Nestas crateras que são para “todo o sempre escuras”, estima-se que existam entre 10.000 a 100.000 milhões de toneladas de água em forma de gelo.

Mas há outro motivo de interesse no Polo Sul Lunar, e que está relacionado com a sua geometria única em relação ao Sol: enquanto as crateras estão na escuridão impendindo que a água evapore, as elevações ao nível da superfície lunar captam luz solar cerca de 200 dias por ano.

Um desses lugares com muita água e com elevações banhadas pela luz do Sol é a cratera de Shackleton, curiosamente o local escolhido pela Blue Origin de Jeff Bezos (o dono da Amazon) para aterrar o seu Blue Moon Lander.

Para falar verdade, Bezos está a olhar com muita atenção para esta cratera, uma vez que o lander Blue Moon tem a capacidade para levar a bordo 4 rovers, que ainda não se sabe o que poderão fazer no futuro, mas que podem ser por exemplo construtores em 3D Printing (usando o rególito lunar – tal como o próximo vídeo demonstra).

 

Voltemos à cratera de Shackleton

22% do material encontrado na cratera de Shackleton, no Polo Sul lunar, é quase de certeza feito de gelo de água. Quando o vice-presidente Pence desafiou a Nasa a colocar humanos na Lua até 2024 (e indo para lá ficar), também durante um anúncio na semana passada ele apontou o Polo lunar sul como uma área rica em água e com ciência para ser feita… Basicamente indicou que este Polo é o local desejado pelos norte-americanos para iniciar a colonização, tornando oficiais todas as suspeitas.

Também era fácil de antever, uma vez que dominar uma zona como a cratera de Shackleton é garantir a sobrevivência a longo prazo dos astronautas na Lua e estabelecer as bases para impulsionar futuras equipas mais longe no sistema solar.

Mas água não é a única coisa em que o Polo Sul Lunar é rico… Aliás e por Providência Divina parece ser quase certo que existe uma anomalia no Polo Sul, que vai acelerar e muito a exploração do Espaço…

O Polo Sul Lunar tem uma “anomalia”!

Um mapa topográfico da Lua, mostra a bacia do Pólo Sul-Aitken em tons de azul e a anomalia de massa dentro da linha tracejada. Créditos: NASA / Centro de Vôos Espaciais Goddard / Universidade do Arizona)

A “Anomalia” em questão situada na bacia do Polo Sul-Aitken da Lua foi detectada com base na análise do cruzamento de dados das missões Gravity Recovery and Interior Laboratory (GRAIL) e pela Lunar Reconnaissance Orbiter da NASA. De facto, a combinação dos dados das duas missões indica um notável “puxão” gravitacional nesta zona que é incompatível com a topografia da Lua.

O asteróide (talvez mais do que um) que está ali enterrado no subsolo, formou uma cratera de 1.200 Km, e terá sido criado há 4 bilhões de anos. Mas no estudo de Peter B. James da Baylor University, a quantidade de matéria acumulada é comparada à maior ilha – “Big Island”  do Hawaii. E comparável em que medida? Bom, porque desde logo tem a dimensão de 5 vezes a ilha!

Um anomalia 5 vezes do tamanho da maior ilha do Hawaii…

A propósito: a “Big Island” do Hawaii tem 10 432.5  km², 4 207.2 metros de altura no seu pico mais alto e alberga cerca de 200.000 habitantes.

Créditos: Big Island of Hawaii in liveaboard.com

Polo Sul Lunar: Matéria Prima e água!

A conclusão é por demais evidente: o sítio onde se acumulou mais água tem também uma fonte inesgotável de metal comprimido.

A água é necessária à sobrevivência do ser humano, e se provocarmos a separação molecular da água ficamos com oxigénio para respirar e hidrogénio que é propelente de foguetão, podendo viajar a partir da Lua usando o hidrogénio recolhido (tal como foi apresentado por Elon Musk no seu plano para “regressar” de Marte em direcção à Terra, após realizar-se a primeira missão tripulada.

Já o metal enterrado no sub-solo pode servir para aquilo que actualmente só será possível imaginar… Como grandes naves espaciais metálicas construídas em órbita, no vácuo do Espaço.

O imaginário humano tem-nos ensinado para onde caminhamos em termos tecnológicos. O primeiro conceito de “veículo espacial” foi descrito em 1657, numa das obras de Cyrano de Bergerac. O autor não lhe chamava na época nave espacial (fechando o conceito tal como o conhecemos hoje), e que foi algo que só aconteceu em 1882.

Nessa data as “naves espaciais” nem tão pouco apareceram com grande credibilidade. A “Nave Espacial” foi imaginada por um dentista (John Ballou Newbrough), que resolveu num exercício de escrita automática e “surrealista” apresentar uma nova versão da  Cosmologia…

No Polo Sul Luna a ficção vai começar a tornar-se científica…

 A Ficção Científica tem sido fonte óbvia de inspiração da Ciência. Vemos isso em casos tão flagrantes como a obra de Júlio Verne, que antecipou a missão á Lua em cerca de 100 anos. E em tantos outros exemplos que os investigadores hoje em dia perseguem, como o de viajar á velocidade da luz ou de criar um escudo/shielding para protecção das naves espaciais.

E um dos principais objectivos, até pode não estar longe: construir naves espaciais de grandes dimensões.

As naves futuristas assentam em dois pressupostos: 1.) na existência do vácuo do Espaço. Tudo aquilo que seja construído fora da atmosfera planetária “não tem peso” (enquanto se mantiver no Espaço). E por isso as construções podem alargar-se em dimensões que não são possíveis dentro do horizonte do planeta Terra. São naves que são concebidas para se deslocarem no Espaço, fazendo o transporte para os diversos planetas a partir de sondas mais pequenas. Não é portanto uma questão tecnológica ou energética que nos impede de poder construir em grandes dimensões, mas sim de ter as infra-estruturas suficientes para ir construindo progressivamente no Espaço até atingir as dimensões épicas dos filmes.

 

2.) Há também outro princípio, e que é o da mineração de asteróides. Só se pode construir em grande escala se houver muita matéria prima já no Espaço, pois não é viável trazê-la da Terra como temos estado a fazer até agora. Percebe-se isso pela fragilidade da Estação Espacial Internacional.

Estação Espacial Internacional. Créditos: NASA

A verdade é que a vontade de querer começar a construir em grande escala aparece cada vez mais na imprensa internacional, e em projectos como este!

Conclusão:

1- Pergunto-me por isso se numa futura base lunar (e para breve), com água abundante, que permite a subsistência a longo prazo através da extracção de oxigénio e hidrogénio (propelente de naves espaciais), e num ambiente com 1/6 da gravidade da Terra, se…

2- …Se não necessitando de desenvolver mais tecnologia para minerar asteróides, porque existe um cemitério de asteróides (com metal comprimido) no subsolo para onde está planeado a construção da base, se…

3- …Se com a existência do Gateway, que se afirmou desde o início como plataforma para construção de sondas em ambiente de microgravidade, com a finalidade de se poder lançar missões no Espaço profundo (nomeadamente a missão pedida pela Directiva 1 de política Espacial da Casa Branca – a Directiva “Moon to Mars”, tal como está explicado aqui. E portanto…

E portanto resta uma conclusão: Será a “Anomalia” lunar o “breakthrough” de que precisávamos para começar a construir no Espaço em dimensões épicas e dignas da Ficção Científica?

Só vamos saber quando soubermos as características do tipo de metal que lá está enterrado, e que pode ser bom para construção ou mau. Mas também pode ser algo que não conhecemos, e que veio de fora do nosso sistema solar até embater na Lua.

Apenas sabemos que esse metal é muito “denso”, o que poderá indicar a existência de metais pesados e super-resistentes, bons portanto para construção.

É também por isto que existe a urgência de concretização do Programa Artemis. Principalmente quando a China anunciou a sua versão de Gateway para 2022 (a Tiangong),  e a India também. Com o fim “prazo de validade” da ISS-Estação Espacial Internacional anunciado para 2024, e com as potências a construirem as suas próprias bases em órbita, a corrida espacial está ao rubro!

É a Gold Rush do Espaço, e os próximos anos vão ser repletos de surpresas! Uma coisa é clara já e agora: estamos no advento de nos tornarmos uma civilização espacial.

NOTA: Experimentem agora voltar a ver com calma o vídeo de introdução, feito a partir da NASA Lunar Reconnaissance Orbiter mission, e que é em 4K, com música de “Clair de Lune” de Claude Debussy, tocada pela National Symphony Orchestra Pops.

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