*Este artigo foi publicado sexta-feira no Sapo 24. Agora no Bit2geek em versão alongada.

De que Europa é um ambiente promissor para o surgimento de vida complexa não há dúvidas. O conjunto de fatores associados a essa lua de Júpiter são tão intrigantes que em 2020 a NASA planeia lançar a sonda Europa Clipper com o objetivo de estudar a superfície de Europa.

Essa hipótese é plausível?

Como toda forma de vida conhecida ser oriunda do planeta Terra, essa pergunta requer uma resposta cautelosa e especulativa. Porém, caso venhamos a encontrar vida fora do planeta do nosso planeta, temos uma ideia de como essa vida poderia ser. Europa é uma das maiores entre as 79 luas de Júpiter, possuindo por volta de 3100 km de diâmetro. Em síntese, um pouco menor do que a nossa Lua, e um pouco maior do que plutão. Porém, mesmo sendo pequena, Europa é atualmente um dos melhores candidatos conhecidos para encontrarmos vida. O mais fascinante na hipótese de existir vida em Europa, são os dados promissores que possuímos.

Baseado nas formas de vida que conhecemos, sabemos que todas as células precisam de água e uma fonte de energia. Europa muito provavelmente oferece os dois. Hoje possuímos evidências convincentes de que Europa possui um oceano de água líquida sob sua camada externa de gelo. Algumas linhas de evidência sugerem que esse oceano tenha algo entre 100 e 200 km de profundidade, algo em torno de onze vezes a altura do monte Everest, o ponto mais alto do planeta Terra. A título de comparação, essa profundidade armazenaria algo em torno de duas vezes mais água do que o planeta Terra.

Águas profundas

Quando falamos em profundidade, não podemos deixar de falar sobre pressão. 200 km de profundidade em Europa resultaria em uma pressão por volta dos 200 MPa (megapascal). No nosso planeta, nem mesmo no ponto mais profundo do oceano, conhecido como “challenger deep” na Fossas das Marianas, encontramos tais pressões hidrostáticas. Por outro lado, devido a sua proximidade de Júpiter, a única explicação plausível para a presença de tanta água em estado líquido seria a presença de fontes de calor hidrotermais. Devido a sua distância do nosso Sol, a energia irradiada na superfície de Europa seria ínfima. Logo, irrelevante no processo de manutenção do estado físico da água. Porém, Júpiter é grande o suficiente para oferecer essa energia. Desta forma, podendo vir a aquecer Europa suficientemente.

Quando analisamos tais possibilidades, chegamos à conclusão de que Europa possui todas características necessárias para a emergência da vida. Pelo menos, da forma como a conhecemos aqui na Terra. Visto que na Terra existem organismos evolutivamente adaptados para viver em ambientes semelhantes aos de Europa. Podemos fazer algumas comparações do que poderia existir em tais ambientes.

O que esperar nos oceanos de Europa?

Devido a sua distância do Sol e uma grossa camada de gelo de aproximadamente 22 km, a possibilidade de existirem organismos fotossintetizantes como plantas e cianobactérias é praticamente nula. Porém, assim como os organismos fotossintetizantes utilizam a energia do sol como fonte de energia para o metabolismo, outros organismos conhecidos como quimiossintetizantes, que utilizam fontes químicas como hidrogênio e enxofre poderiam vir a existir. No planeta Terra, um desses organismos são os “tube worms” ou os “vermes-de-tubo”. Esses animais são moluscos bivalves que vivem da energia química de compostos de enxofre, digeridos por bactérias incrustadas em seus corpos. De facto, vermes-de-tubo podem chegar a um metro e meio de comprimento e viver em grandes profundidades, fazendo do mesmo, um possível análogo para a vida em Europa.

Um outro animal fantástico que sobrevive a grandes profundidades e pressões é a lula vampiro. Esse molusco pode viver em profundidades de até 3 km e é um especialista em ambientes com ausência de luz. Devido a grande profundidade do oceano de Europa e a possibilidade de existirem organismos como os vermes-de-tubo, talvez existam grandes predadores tal como a lula vampiro.

Um terceiro candidato marinho para Europa são os peixes da espécie Thermarces cerberus. Esses peixes são encontrados associados a fondes hydrotermais no oceano pacífico. Podendo viver em até 2.300 metros de profundidade, o T. cerberus possui uma incrível capacidade de suportar altas pressões hydrostáticas. Sendo assim, um dos poucos peixes conhecidos capazes de sobreviver a ambientes semelhantes aos oceanos de Europa.

O peixe T. cerberus sobrevive associado a fontes hidrotermais. Wikipedia.

A caminho de respostas

Esses são apenas alguns dos animais presentes nos nossos oceanos que poderiam hipoteticamente viver nos oceanos de Europa. Portanto, devido ao fenômeno de convergência evolutiva, podemos dizer que caso exista vida em Europa, a mesma não seria tão diferente da vida aqui na Terra. Assim como insetos e pássaros voam, mas são distantemente relacionados na árvore da vida, os animais em Europa possuiriam características semelhantes aos animais dos nossos oceanos. Mesmo não possuindo relação com os animais da Terra.

Apesar da possibilidade concreta da existência de um oceano líquido em Europa, qualquer especulação sobre formas de vida não passam de ficção científica. Mesmo que exista vida complexa, a mesma seria extremamente difícil de ser detectada. Fora a falta de informação, tal missão seria extremamente cara. Fora o facto de que não possuímos as tecnologias necessárias para a exploração extraplanetária nesta escala de complexidade. Ainda que décadas de planejamento fossem investidas para esse tipo de missão, vários problemas éticos surgiriam pelo caminho. Entre eles, os possíveis distúrbios ambientais que poderíamos trazer para esse ecossistema.

De que Europa é um ambiente promissor para o surgimento de vida complexa, não há dúvidas. O conjunto de fatores associados a essa lua são tão intrigantes que em 2020 a NASA planeja lançar a sonda Europa Clipper com o objetivo de estudar a superfície de Europa. Grandes mistérios sobre a natureza geológica e química desta lua vão ser revelados, possivelmente abrindo caminho para futuras missões. Podendo até mesmo culminar em missões envolvendo landers (veículos científicos que descem à superfície do corpo astronômico para estudos mais complexos). Dessa forma, ainda podemos continuar sonhando com oceanos alienígenas fervilhando com formas de vida exóticas aos limitados olhos humanos.

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Andrey Vieira é brasileiro, natural do Rio de Janeiro. É licenciado em ciências biológicas pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com enfoque em bioquímica e Geoquímica Orgânica. Durante sua graduação foi selecionado como estudante de alta performance para poder realizar um intercâmbio académico na Universidade Estadual de Montana, nos Estados Unidos, na área de Astrobiologia, Origem da Vida e Biogeoquímica. Essa escolha acabou por lhe render uma oportunidade de trabalho como assistente de pesquisa no NAI (NASA Astrobiology Institute) no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Durante o tempo de pesquisa no MIT, o Andrey realizou uma série de estudos sobre o funcionamento das moléculas que conferem resistência a altas temperaturas em organismos extremófilos (Organismos que possuem preferência fisiológica por condições geoquímicas extremas, como altas temperaturas ou acidez extrema). Atualmente reside na Dinamarca como estudante da Universidade de Aarhus, e trabalha na sua Tese de Mestrado no Instituto Max-Planck de Biologia Marinha. Seu trabalho atual foca na bioquímica e fisiologia de bactérias poliextremófilas (Células que possuem preferência não só por uma condição específica, mas por um conjunto de fatores extremos concomitantemente) e como esses microrganismos podem vir a ser usados não somente para compreender como a vida teria se originado no planeta Terra, mas também como o estudo dessa fisiologia única pode vir a levar a criação de novas ferramentas biotecnológicas de grande relevância, nomeadamente para a indústria da construção civil e petroquímica. Andrey Vieira também é um entusiasta da astrofísica e epistemologia, possuindo mais de dez cursos em assuntos relevantes na área de exploração planetária e cosmologia, conferidos por diferentes instituições de pesquisa no Brasil e no mundo inteiro. Como comunicador científico, atuou por dois anos como auxiliar na disciplina de epistemologia da UFF e mediador/bolsista no projeto “Ciência sob tendas” levando a comunicação de ciência e tecnologia para escolas e comunidades carentes no estado do Rio de Janeiro.