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Desafiar crianças a imaginar o futuro da exploração espacial em Marte é o grande objetivo do projeto Stories of Tomorrow.  É desenvolvido por um consórcio de entidades que inclui o português Nuclio. Ao longo de três anos, desafiou centenas de alunos em escolas da Europa, Estados Unidos e Japão a imaginar como será a futura presença humana em Marte. Mais do que um projeto educativo, estas histórias do amanhã sublinham um ponto essencial. Como despertar o gosto pela ciência e espaço nas crianças de hoje, para que no futuro continuem a aventura espacial da humanidade.

Curiosidade: O Elemento Fundamental da Exploração Espacial

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Como construir foguetões (Jose Saraiva/NUCLIO)

Enquanto escrevo estas linhas, vivemos na febre comemorativa dos 50 anos do primeiro passo do homem na Lua. Por entre as elegias e comentários, entre as histórias e os factos, há quem olhe para o passado e se pergunte: porque é que ainda não regressámos? Inevitavelmente, referem que os projetos se sucedem. Musk quer ir para Marte em força, a missão Artemis é cada vez mais falada. E, no entanto, cá continuamos. Em parte, porque a complexidade da exploração espacial não se compraz com a visão romântica da ficção científica clássica. As tecnologias são complexas e precisam de um desenvolvimento contínuo. Também, porque exige recursos e investimentos massivos que as sociedades e governos não têm capacidade, ou vontade para o fazer. E, talvez, porque nos falte a centelha do imaginário.

Ir ao espaço requer a ciência dura, de difícil aprendizagem. Mas também requer paixão. O que motiva os cientistas a dedicaram-se à aprendizagem e estudo do complexo, o que é que lhes deu a faísca para se interessarem pela ciência e seguirem o seu caminho entre experiências e fórmulas matemáticas?

Quando se pergunta isto a pessoas ligadas à ciência, há sempre uma frase comum: bem, quando eu era criança…, seguido do relato de uma pequena experiência que lhes foi extremamente significativa. Uma atividade em aula, os gostos consonantes de um professor, um livro que leu, uma sensação que lhe despertou a curiosidade e o amor pela ciência. Não é por acaso que os professores mais eficazes sabem da importância de providenciar aos seus alunos experiências de aprendizagem diversificadas e abrangentes. Sabem que em cada qual, pode estar a faísca que irá mudar o olhar de uma criança, e inspirá-la para a vida.

Despertar a Paixão pela Ciência

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Projetos educativos da ESA (Jose Saraiva/NUCLIO)

O regresso à Lua, a colonização de Marte, a exploração do sistema solar e mais além far-se-á com investimentos públicos e privados. Com o desenvolvimento de tecnologias capazes de suportar vida no frio inóspito do espaço, ou no ambiente hostil dos planetas. Mesclando interesses científicos e económicos. Mas, para que estas vertentes se concretizem, há algo que é fundamental. Precisa-se de cientistas, engenheiros, programadores, criadores, especialistas nas miríades de ciências que permitem a exploração espacial. Foi preciso o trabalho de 400.000 pessoas para levar três homens à Lua. Foi um enorme esforço comum, que depende da paixão pela ciência. E, para isso, é preciso despertá-la bem cedo.

É nesta vertente que se situa o projeto Stories of Tomorrow. Os seus parceiros compreendem a importância de despertar o interesse das crianças de hoje para serem aqueles que, no futuro, nos levarão ao espaço. Fazem-no através do contar de histórias, desafiando a imaginação dos alunos envolvidos. A sua proposta é simples: imaginar como será a futura colonização de Marte. Fazem-nos estimulando a criação de histórias, que podem ser enriquecidas com contributos artísticos e de tecnologias digitais de expressão criativa.

Stories of Tomorrow: Imaginar A Humanidade Em Marte

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Experimentando aplicações de realidade virtual (Jose Saraiva/NUCLIO)

Parece simples, não parece? Como todas as abordagens elegantes, sob a sua simplicidade oculta-se uma complexidade mais profunda. Para se chegar às histórias, é preciso aprender sobre Marte, descobrir a mecânica orbital, foguetões, tecnologias de suporte de vida em ambientes hostis. Depois, há que conjugar tudo isto numa narrativa que traduza a visualização desses conhecimentos e tecnologias. Aqui, o projeto Stories of Tomorrow não se fica pelo papel. Estende-se à criação de e-books das histórias inventadas pelas crianças, com extensão para a realidade virtual. É preciso escrever, mas também desenhar, e até modelar em 3D. Pode-se até usar um sistema dedicado de authoring para realidade virtual para montar a história no ambiente 3D imersivo, acessível com dispositivos Oculus Rift. 

Por detrás deste contar de histórias está uma sólida abordagem à educação nas STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemáticas), que depende das artes para lhe dar o elemento diferenciador. Através das histórias, os alunos aprendem de forma natural conteúdos por vezes áridos. Fazem-no não com um fim em si mesmo, mas com um objetivo significativo, alicerçando o que lhes despertou a imaginação. As aprendizagens mais profundas geram-se aqui, nestas interações entre conhecimento e prática em projetos, não na memorização de conteúdos disciplinares para regurgitação em provas e exames.

Um Projeto com Parcerias Globais

Este projeto está a ser desenvolvido por um consórcio internacional. Entre as entidades envolvidas conta-se a portuguesa Nuclio, a universidade alemã de Bayreuth, a francesa Cité de l’Espace, o observatório astronómico nacional do Japão, as universidades do Arizona e Berkeley, universidade de Helsínquia, e a grega Ellinogermaniki Agogi, entre outras. Apoiado no âmbito dos fundos Horizonte 2020, iniciou-se em 2017. Centenas de crianças de escolas de vários países europeus, Estados Unidos e Japão foram envolvidas nas suas atividades.

Aprender a Contar Stories of Tomorrow

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Descobrir a robótica em workshops (Jose Saraiva/NUCLIO)

Sendo as crianças o principal alvo deste projeto, não é o seu único foco. A formação de professores tem sido outra das suas prioridades. Não só nas estruturas conceptuais do projeto, mas também nas dimensões IBSE, inquiry based science education. Parte de abordagens práticas para estmular aprendizagem de ciências. Para além disto, a interação entre formandos é sempre um cadinho de troca de experiências e pontos de vista, especialmente se se juntarem educadores vindos de diferentes países. Anualmente, têm promovido uma escola de verão Stories of Tomorrow, integrante da Inspiring Science Summer Academy, que decorre em Maratona, Grécia.

Os participantes neste curso vêm um pouco de toda a Europa. Professores portugueses, franceses e finlandeses estão em maior destaque, mas o curso inclui docentes de outras nacionalidades. Em comum, está o terem sido participantes nos projetos Stories of Tomorrow. Ao longo de uma semana intensa, sucedem-se atividades e experiências práticas. Há palestras e partilhas de experiências sobre ciências do espaço, programação e robótica, e abordagens ativas em educação científica. Frequentam-se workshops dedicados, quer às atividades e tecnologias por detrás do projeto, quer sobre robótica ou atividades experimentais em ciências. E, essencialmente, há troca de experiências e partilha de ideias entre os participantes. Ao longo de uma semana, são desafiados a descobrir formas práticas de ensinar ciências, e a construir as suas próprias histórias do amanhã marciano.

Desafiar a Imaginação para o Amanhã Marciano

O projeto Stories of Tomorrow procura estimular a faísca da paixão pelas ciências e espaço nas crianças. E, ao fazê-lo, também a desperta ou reacende nos adultos participantes. Daqui a algumas décadas, esperamos que a humanidade esteja a dar os seus primeiros passos na superfície marciana. e não nos surpreenderá se, ao perguntarem a algum dos envolvidos o que é que lhes despertou o interesse no planeta vermelho, a resposta for bem, quando eu era criança, fui desafiado a imaginar como seria viver em Marte.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.