Excerto do cartaz de Luís Melo para o Fórum Fantástico 2017.

Existirá Ficção Científica portuguesa? Tradicionalmente, este tem sido um género menosprezado pelas elites culturais. Tem hoje uma diminuta expressão editorial, apesar de no passado esta ter sido maior. A prová-lo, estão os livros de coleções hoje extintas que se encontram nos mergulhos em alfarrabistas. No entanto, a pequena e dinâmica comunidade de fãs e autores não baixa os braços. Há eventos dedicados, entre o Fórum Fantástico, Sci-Fi Lx, Festival Contacto, entre outros. Há tertúlias recorrentes e projetos editoriais que se sucedem. Este é um meio pequeno mas vibrante, que não está isento de polémicas e divisões internas. Queixa-se consistentemente da falta de visibilidade e parca expressão no meio cultural português. No entanto, existe, mexe-se, cria, divulga, influencia e inspira.

Neste artigo, vamos olhar para cinco livros que são uma excelente porta de entrada para a FC portuguesa. Mas caveat lector: por cá, as fronteiras de categorização de géneros literários dissolvem-se. Não se surpreendam se entre naves espaciais se depararem com sortilégios medievos. E ainda bem. Haverá algo mais apropriado à ficção fantástica do que este dissolver de fronteiras entre mundos paralelos?

Terrarium, João Barreiros e Luís Filipe Silva

Científica literatura

Se há livro que esteja a obra a descobrir da Ficção Científica em Portugal, é este. Escrito em parceria por aqueles que são reconhecidos como dos melhores autores de FC portugueses, é uma obra ambiciosa que colide o imaginário de devastação de João Barreiros com a visão mais clássica de Luís Filipe Silva. Para lá de uma boa história num universo ficcional abrangente, tem também algumas marcantes peripécias editoriais. Terrarium foi originalmente publicado em 1996, na clássica coleção de capa azul da Caminho. Esta excelente coleção dedicada à FC traduziu autores contemporâneos e atreveu-se a dar voz a autores portugueses e brasileiros. Conta-se que com a venda da editora a um grupo editorial grande, o stock de livros por vender foi resolvido com, roubando uma expressão que Barreiros gosta muito de usar, extremo prejuízo: foram queimados. Entre os quais se contava parte da edição do seminal romance de FC portuguesa.

Se, por um acaso de sorte, se depararem com este volumoso livro de capa azul num alfarrabista, não hesitem. Têm nas mãos uma lenda da FC portuguesa. Mas se não tiverem essa sorte, não desesperem. Foi reeditado em 2017 pela editora Saída de Emergência, numa edição revista com o tipo de capa garrida que é tão ao estilo da editora. 

Dois Autores de Charneira

Deixando Terrarium para trás, há que mergulhar nas obras de Barreiros e Luís Filipe Silva. O primeiro é uma coisa rara no género em Portugal. Obsessivamente focalizado na literatura de Ficção Científica, nunca perdeu a voz e edita regularmente em nome individual e como coordenador de antologias. Colabora com projetos literários e assumiu o papel de eterno enfant terrible. Se quiserem experimentar um bom pesadelo freudiano, recomendamos a sua mais recente edição, Crazy Equóides, pela Imaginauta.

Para além de Terrarium, o outro livro incontornável deste autor é a coletânea Se Acordar Antes de Morrer, que reedita contos curtos, estilo em que Barreiros é um mestre. São geniais, escatológicos, divertidos e a anos-luz da FC comercial, escritos por uma verdadeira enciclopédia viva que se compraz em torturar a mente dos seus leitores. Os comuns mortais podem aproximar-se dele no Fórum Fantástico, ou outros eventos onde é presença regular. Se estiver de bom humor, não vos pulveriza com a sua raygun.

Luís Filipe Silva é outro dos nomes incontornáveis da FC portuguesa. Nos últimos tempos tem-se destacado como editor de algumas das melhores antologias de literatura fantástica por autores portugueses. Também como tradutor e investigador sobre a história da FC portuguesa. Como editor, muito haveria a recomendar. Talvez a sua antologia verdadeiramente imperdível seja Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa. Nela, os autores participantes foram desafiados a escrever como escritores vintage de uma pretensa ficção pulp que nunca existiu. Fizeram-no tão bem, que leitores mais incautos se perguntaram que escritores e revistas de entretenimento desconhecidas do passado eram essas. A sua maior contribuição para o panorama da FC portuguesa é outro clássico, A Galxmente. Também editado na lendária coleção Caminho, foi reeditado recentemente pela Saída de Emergência.

Anjos, Carlos Silva

Científica literatura

Com este romance, Carlos Silva cimentou o seu estatuto como uma das mais dinâmicas e interessantes novas vozes do panorama literário nacional dedicado à FC. Um esforço concertado e bem sucedido de criar um mundo ficcional sólido que sustenta uma história que, se remete diretamente para o cyberpunk clássico, acabar por tocar no âmago de questões estruturantes da nossa sociedade digital contemporânea. Constrói-se a partir de reflexões sobre a sociedade panopticon decorrente da progressiva intrusão da digitalização sobre o espaço social.

Carlos Silva leva para a ação de forma divertida mas bem medida os impactos da perda de privacidade estimulada pelas redes sociais, pelas capacidades inauditas de cruzamento de informação, definição e agregamento de perfis individuais em bases de dados massivas. Romance prémio Divergência, Anjos surpreende pela sua ambição e seduz pela forma como conduz a ação pelos seus pressupostos. Fundamentalmente uma história de ação, não se nega a reflexões com impacto direto na nossa perceção do mundo contemporâneo. 

Carlos Silva tem sido uma das novas e mais dinâmicas vozes da nova geração de autores de literatura fantástica portuguesa. Não só como autor, mas como um incansável dinamizador de projetos editoriais, dos quais se destaca a editora independente Imaginauta. Um projeto em crescimento sustentado, que editou Comandante Serralves, o primeiro universo partilhado consistente português onde o esforço de diferentes autores extravasou para o campo dos jogos.

Nome de Código Portograal, Luís Corredoura

Científica

Com o seu panorama diminuto, há vertentes e sub-géneros da FC e Fantástico em que é muito raro encontrar obras de autores portugueses. A história alternativa é um deles. Há muito pouca coisa, tirando as coletâneas A República Nunca Existiu organizada por Octávio dos Santos, Lisboa no Ano 2000, editada por João Barreiros, ou Winepunk, com edição de AMP Rodriguez, Joana Neto Lima e Rogério Ribeiro. Neste género, olha-se para momentos-chave da história e tenta-se imaginar o que poderia ter acontecido se os factos se tivessem desenrolado de forma diferente. 

Portugal sob Ocupação Nazi

Nome de Código Portograal é a grande pedrada nas águas paradas da história alternativa por cá. Nele, Corredoura imagina o que aconteceria se Portugal tivesse sido forçado a não ser neutral durante a II Guerra Mundial. E não faz por menos: coloca uma divisão da Wehrmacht a cilindrar as defesas portuguesas, Salazar no exílio para emergir no pós-guerra como força democrata, e regimes fantoches em Lisboa liderados pelas personalidades mais radicais do Estado Novo.

Como fio condutor, há uma outra história de busca por segredos templários. Mas o que faz valer este livro é a sólida narrativa e a forma rigorosa como Corredoura descreve as possíveis operações militares e vida sob ocupação na sua história de uma história que nunca aconteceu. A especulação é bem fundamentada e o conhecimento da época é de uma solidez invejável. A geografia do espaço ficcional espelha a dos locais reais. Lisboa sob as botas cardadas da Wehrmacht poderia ter acontecido.

Corredoura pega nessa premissa para criar um romance impressionante que nos provoca, leva a reflectir e ainda fala de muitos pormenores sobre a forja da Europa contemporânea que foi a II Guerra. Este romance premiado com o Prémio Adamastor, prémio literário que distingue FC e Fantástico em língua portuguesa. Infelizmente para os fãs, Corredoura prefere escrever thrillers noir nos mundos da espionagem. Esta obra fica para o fantástico nacional como epifenómeno literário marcante.

Lovesenda, António de Macedo

literatura

Pode parecer estranho sugerir uma obra de imaginário fantástico e medievalista numa lista dedicada à Ficção Científica. Mas num meio tão pequeno quanto o português, as fronteiras esbatem-se. E é a forma que temos para destacar o último livro editado por este escritor, professor, cineasta, e figura maior da cultura portuguesa. Macedo é aquele que talvez melhor tenha encarnado a ficção fantástica portuguesa. A sua dedicação custou-lhe a carreira de cineasta.

Atreveu-se a fazer cinema de Ficção Científica e Fantástico por cá, e pagou um preço elevado. Foi ostracizado pelas instituições que financiam o cinema português, sem o apoio das quais é praticamente impossível fazer cinema em Portugal. Este, que começou por ser um dos realizadores do Cinema Novo português, deixou de filmar na viragem do século. Só nos últimos anos da sua vida regressou ao olhar do público. Muito por causa do esforço de João Monteiro, organizador do festival de cinema Motelx, no reabilitar da sua obra. Mas, para o núcleo de fãs e praticantes da FC nacional, nunca caiu no esquecimento. A sua presença de bom humor, simpatia e histórias mirabolantes era assídua em tertúlias e eventos. Esta sua dedicação, e a obra ímpar, foi reconhecida com o primeiro prémio Adamastor de carreira de sempre.

Um Imaginário Muito Próprio

Sente-se com muita força em Lovesenda a capacidade de Macedo em tornar tangível a sua fortíssima erudição sobre a história portuguesa, neste livro focada numa longínqua idade média onde Portugal ainda estava em formação, e os territórios agrestes das beiras disputados entre senhores feudais cada vez menos fiéis a Leão e emires moçárabes, estrategas consumados que sabiam usar a guerra e a paz como arma política. A sua capacidade narrativa coloca-nos nas praças fortes e aldeias senhoriais, nos casebres do povo, vincando a agrura de paisagens que, se ainda hoje nos parecem duras, o eram muito mais há mil anos atrás. É essa sensação de imersão, profundamente visual e convincente, que perdura desta leitura.

O fantástico em Macedo sempre foi peculiar, misto de história com esoterismo, longe da iconografia expectável do género. O ideário deste autor leva-nos mais para os campos da gnose, dos mitos ocultistas e alquímicos. É esse o cerne da história, com os seus rituais, damas encantadas, saberes tenebrosos, mistérios das brumas e saberes milenares contidos em códices proibidos. 

Além deste Livro

De Macedo, recomendamos mais do que leituras. Recomenda-se a sua obra cinematográfica, especialmente Os Abismos da Meia-Noite e Os Emissários de Khalôm. Dois filmes que representam praticamente toda a cinematografia de Ficção Científica portuguesa. Ou, para palatos mais delicados, o delicioso Chá Forte com Limão. A sua obra escrita é extensa, e destacamos obras clássicas como O Limite de Rudzky ou Sulphira & Lucyphur. Mas muito mais fica por descobrir na obra deste autor singular.

Man:Plus Electric Memory, André Lima Araújo 

Científica

Para terminar este périplo pela FC e Fantástico nacionais, terminamos com banda desenhada. E com uma obra que chegou à edição primeiro no estrangeiro pela britânica Titan Books, antes de chegar aos leitores portugueses pela Kingpin. 

Man:Plus veste muito bem e sem medo as suas referências. É um trabalho assumidamente derivativo, feito como homenagem ao cyberpunk clássico, ao mangá de FC e às séries policiais procedimentais. Não copia à sorrelfa elementos destes géneros, tentando passar-se por obra nova e inédita. A cópia é visível, intencional e assumida. Se a história é original, não tem medo de citar estilística, temática e visualmente as influências que claramente fascinam André Araújo. Lê-se este livro como aventura cyberpunk, Mas o seu lado de homenagem, quase fan-fiction de um fã conhecedor e talentoso, é o que desperta o interesse. Isso, e o estilo gráfico do autor, que já foi descrito como uma espécie de Masamune Shirow português.

Cinco, Só, Não Chegam Para Descobrir Ficção Científica Nacional

literatura

Não resistimos a terminar este artigo com mais sugestões de leitura para descobrir o pequeno mas vibrante panorama do fantástico português. Por onde continuar? Talvez pelo surrealismo de Casos de Direito Galáctico de Mário Henrique Leiria, que já vimos numa livraria inexplicavelmente arquivado na secção de Direito. Ou pela cidade que engole os seus habitantes em Dormir Com Lisboa, de Fausta Cardoso Pereira. Tudo Isto Existe, que reúne as pérolas que são as ficções curtas de João Ventura. A distopia europeísta clássica de Euronovela de Miguel Almeida. O desvio ao padrão de Lisboa Oculta – Guia Turístico. A space opera divertida e descomplexada de Bruno Martins Soares em A Batalha da Escuridão.

Outras sugestões: A sátira política destravada de Por Vós lhe Mandarei Embaixadores de Jorge Candeias, também conhecido com o tradutor português de George R.R. Martin, autor da série literária Crónicas de Gelo e Sangue, base do sucesso televisivo de Guerra dos Tronos. Terminamos, porque temos de o fazer, com o delicado entretecer de presente e futuro de As Nuvens de Hamburgo por Pedro Cipriano.

E, Na Banda Desenhada…

Em banda desenhada também há muito por descobrir. A Pior Banda do Mundo de José Carlos Fernandes é uma obra incontornável do fantástico, sem naves espaciais mas muitas vénias à literatura. Cidade Suspensa, de Penim Loureiro, surpreende pelo seu traço de grande mestre. A dupla Filipe Melo e Juan Cavia brindou-nos com três volumes de aventuras tenebrosas de Dog Mendonça e Pizzaboy, que chegaram a ser editadas pela Dark Horse. Joana Afonso é uma das mais destacadas artistas a trabalhar em BD, e o seu último livro, Zahna, é uma incursão moderna no campo da fantasia de capa e espada. Os ambientes gráficos de horror de Jardim dos Espectros de Fábio Veras.

Já que falamos em terror, SINtra de Tiago Cruz e Inês Garcia faz-nos pensar duas vezes antes de entrar nas estradas da serra sintrense depois da sua leitura. Num tom mais leve, há o futurismo alternativo de Pepedelrey em Futuro Proibido e A Viagem da Virgem. Ou as vozes novas, frescas mas por vezes inexperientes, que nos são trazidas pelo projeto H-alt.

Ficção Científica e Fantástico em Português: Um Universo a Descobrir

Muito ficou de fora. Só o campo das antologias, que coligem contos escritos por uma comunidade alargada de autores, daria uma longa lista. Se a Ficção Científica e Fantástico portugueses sofrem de um justificado complexo de menorização num país onde à cultura não é atribuído muito valor, isso não se traduz numa pequenez de criatividade. Se bem que, para os fãs, tudo o que se devore sabe sempre a pouco.

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