Parte do trabalho destas Capturas é rastrar as transformações digitais. Sabemos que vivemos no antropocénico, mas como é que nos estamos a alterar, enquanto indivíduos e sociedade? Esta semana, propomos leituras sobre tecnologia, ficções e sociedade. Para saborear e meditar na praia, ou na esplanada.

Das Tecnologias Digitais

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Abstract Aerial Art: O misto entre natural e artificial da paisagem do antropocénico como abstração fotográfica.

Instalamos un malware que “hackea” nuestro móvil: estos son los permisos que pueden llegar a obtener sin que nos demos cuenta: Para ser rigoroso, é de observar que não é assim tão fácil ultrapassar as defesas digitais de um android. Mas quando se consegue (e, para isso, nada com a boa e velha engenharia social, mesmo que oculta sob a promessa de uma app ou jogo gratuito), é arrepiante perceber o nível de controlo absoluto que propicia aos hackers. Vai muito mais longe do que retirar dados do dispositivo. O telemóvel torna-se um dispositivo de vigilância total, com a câmara e o microfone ao serviço dos hackers, e é porta de entrada para o computador pessoal e toda a informação que se coloca online e offline.

Home Invasion: A relação de auto-descoberta pessoal entre sexualidade e a internet. Não no sentido de consumo industrializado de pornografia, mas de partilha e descoberta, vista dos primeiros tempos da massficação do online.

Model Metropolis: Sim City é talvez o jogo mais influente de todos os tempos. Não só por fascinar gerações de jogadores, mas pelo seu próprio formato, de gestão de sistemas complexos. Mas quais são os pressupostos que construíram o modelo de urbanismo do jogo? Will Wright, o seu criador, inspirou-se na obra de um cientista da computação e urbanista que, nos anos 70, estabeleceu as linhas guias de um modelo matemático de tecnocracia urbana. Um modelo problemático, uma espécie de codificação matemática de preconceitos conservadores, que nunca levou em conta a diversidade humana e se veio a provar como agudizador de problemáticas sempre que aplicado. Menos no ambiente de jogo, aí corre de acordo com os postulados. Mas é de sublinhar que os cidadãos sim são bastante amorfos e categorizáveis.

What Technology Is Most Likely to Become Obsolete During Your Lifetime?: Excelente pergunta, mas quem a tenta responder depara-se logo com tecnologias consideradas obsoletas que se incrustaram no nosso dia a dia. Por exemplo, hoje ninguém usa máquinas de escrever, mas elas sobrevivem nos teclados físicos e virtuais que usamos para interagir com sistemas digitais. Ou melhor, a omnipresença do quadro de giz nas salas de aula. A lição está não na obsolescência direta de tecnologias pré-digitais e digitais, mas na extinção (ou não) das práticas sociais que sustentam.

Lifehacker: Tarek Loubani on 3D-Printing in Gaza: Como efetuar mudanças positivas com impressão 3D. O projeto deste médico e ativista canadiano parte da substituição de material médico caro, por elementos impressos em 3D. Num exemplo, um estetoscópio passa de cerca de duzentos dólares para cinco, o que tem um impacto enorme nos serviços de saúde em áreas empobrecidas. E, especialmente, em Gaza, um território em eterno estado de sítio.

The Data Is Ours!: Os dados são o novo petróleo, e isso não é uma frase batida. Como é que podemos garantir a  nossa privacidade, ou salvaguarda pública das predações ditadas por ganância?

Google’s Equiano Cable Will Extend to the Remote Island of Saint Helena, Flooding It With Data: Intrigante. O novo cabo submarino da Google, que interligará Portugal à África do Sul, poderá provocar uma pequena revolução digital no Atlântico Sul. Pela primeira vez, a remota comunidade de Santa Helena irá dispor de acesso fiável de banda larga à internet, o que poderá revolucionar a economia deste pequeno resquício colonial inglês. Ah, antes que comecem a agitar a bandeirinha nacionalista, porque o cabo parte de Lisboa, olhem para o mapa e percebem o porquê de Portugal. Temos uma posição muito estratégica para o estabelecimento de ligações submarinas através do Atlântico, que servem não para servir destinos específicos, mas para tornar o tráfego global mais fluído e rápido.

The Mistrials of Algorithmic Sentencing: Duas coisas a destacar neste artigo. Primeiro, os problemas éticos e judiciais levantados pelos algoritmos de apoio à decisão jurídica, especificamente relativos aos dados que foram usados para treinar os modelos. É curioso ver que apesar de tudo o que se fala sobre estes sistemas, os tribunais não lhes dão assim tanta importância.

How the U.S. Could Lose a War With China: Não termina com a bandeira vermelha erguida sobre as ruínas de Washington. Basta que os chineses atrasem a projeção do poderio militar americano para consolidar o domínio sobre os seus potenciais alvos. No pior caso, ataques às infraestruturas militares americanas no Japão, aos satélites e aos grupos de porta-aviões seriam o suficiente para atrasar a resposta e, por exemplo, ocupar Taiwan em poucos dias. E com isso ganhar o conflito, mostrando que os poderosos, afinal, não têm a capacidade de defender os seus aliados. Nestes jogos à escala planetária, o domínio total já não requer aniquilação do adversário.

Computers that can see: Para nós, a omnipresença das lentes nos telemóveis, máquinas fotográficas e câmaras é algo que oscila ente o útil e divertido e algo que faz parte do ambiente. Mas do ponto de vista dos sistemas digitais, é graças a esta ubiquidade da imagem que estão a aprender a ver o mundo.

The world through the eyes of a neural net: Isto é bom humor, uma piada tão profundamente geek. A investigadora por detrás deste sempre interessante blog fez uma experiência: alimentou um algoritmo de aprendizagem profunda, especializado em identificar e categorizar elementos em imagens, com excertos de um filme. O output foi um conjunto de categorizações que depois foram usadas por um algoritmo de geração automatizada de imagens. A realidade, traduzida para as linguagens digitais de máquina, numa tradução que foi usada para outra máquina voltar a gerar algo de tangível.

Culturas Digitais

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Here’s the cover and opening pages of Arthur C. Clarke’s 1986 future-telling book July 20, 2019: Intrigante. Clarke escreveu um livro a predizer o mundo de 2019, que, claro, como toda a FC oracular, dificilmente não será datado. Pessoalmente, desconhecia que Clarke tivesse escrito este livro, e agora tenho de ir à caça dele…

STAR TREK: PICARD Official Trailer (2019) Patrick Stewart, Sci-Fi Series HD: O sucesso de Star Trek Discovery tem destas. Segue-se um reviver de uma das séries mais icónicas do universo trekkie, com o regresso do tranquilo e resiliente Capitão Picard e o seu make it so. Será interessante, ou ficar-se-á pelo toque de nostalgia?

Announcing Make: Community: A boa notícia, é que a Maker Media reagiu depressa à possível queda. Mas há no entusiasmo do comunicado algo que me deixa de pé atrás: o reaching out to makers and fablabs para serem destacados nas próximas edições da revista Make:. Parece-me demasiado próximo do modelo vanity press, em que a motivação para ler a revista não está no seu conteúdo, mas na possibilidade de lá aparecer em destaque.

Disney producirá una nueva serie basada en ‘La Guía del Autoestopista Galáctico’, una de las biblias de la ciencia ficción: Inserir meme not sure if aqui. A obra de Douglas Adams é hilariante, será que sobrevive aos impulsos de massificação por focus group para garantir um produto mediático de sucesso?

Realistic Starfleet meetings: O que é que um conhecedor de reuniões de planeamento militar faz quando olha para as suas versões em ficção científica? Insere slides reais (cuidado: powerpoint do pior a caminho) nas imagens ficcionais.

Playing Video Games Makes Us Fully Human: Uma análise do que nos faz gostar dos jogos digitais. Imersividade, e a forma como encaixam no nosso instinto de curiosidade.

Influentials, Networks, and Public Opinion Formation: Que os influencers são praticamente inúteis, exceto para departamentos de marketing desesperados em busca de soluções de publicidade, já o sabíamos. Agora, há a ciência para suportar esta intuição.

Outras Culturas

A World Without Mad Magazine: Não é necessariamente um mundo mais pobre. A Mad teve a sua época e impacto cultural, e hoje, de facto, é mais algo nostalgista do que culuralmente significativo. Este artigo, que se lê como uma elegia, sublinha muito bem esse aspeto ao falar-nos do ponto alto da revista enquanto marco da contracultura.

Why Everyday Architecture Deserves Respect: Celebramos os grandes marcos da arquitetura, os edifícios icónicos, mas esquecemos que são os edifícios vernaculares do nosso dia a dia que realmente têm impacto na nossas vidas.

Rutger Hauer, genre actor and Blade Runner icon, has died at 75Like tears in the rain. Curiosamente, este ator também faz parte do cinema português. Em 2013, fez parte do elenco do filme de Ficção Científica RPG, realizado por David Rebordão.

The Cremain Comic Book: Arquivar em coisas arrepiantes. E que tal ter na coleção de comics uma edição impressa com tintas que incluem as cinzas do seu criador? Existem algumas edições de um comic da Marvel assim, cumprindo o desejo do argumentista Mark Gruenwald de, em caso de falecimento, ser cremado e ter as suas cinzas impressas no media que lhe fez a carreira.

Citroën Sabotaged Wartime Nazi Truck Production in a Simple and Brilliant Way: Como é que a empresa francesa reagiu à obrigação de construir veículos para os ocupantes alemãs na II Guerra? Diminui um pouco o tamanho da vareta de medição de óleo do motor. O suficiente para causar a médio prazo sérios danos aos motores dos veículos. Sabotagem discreta, mas eficaz.

Quadradinhos para o Verão: Fico um pouco surpreendido por ver Pedro Cleto a usar a expressão quadradinhos (como em histórias aos quadratinhos, termo depreciativo para a banda desenhada), mas as suas sugestões são impecáveis.

O feito extraordinário da conquista da Lua: Um dos textos imperdíveis sobre os 50 anos da ida do homem à Lua. Paulo Gil fala-nos do projeto Apollo e suas conquistas, que não se ficaram pela pegada de Armstrong no solo lunar.

A NOVELA GRÁFICA “SABRINA” de Nick Drnaso: Ainda não li, mas está na lista. O ter sido um finalista do literário Booker Prize este ano é ao mesmo tempo intrigante e dissuasor. Intriga pela bizarria de ser distinguindo num prémio de literatura erudita, e dissuade precisamente por isso, o agrado académico nem sempre se traduz em livros verdadeiramente interessantes. Outra raridade: está editado em português.

Terrestrial Warfare, Drowned Lands: Daquelas coisas que só a mente analítica de Geoff Manaugh nota. Ao olhar para o mapa de uma zona agrícola no estado de Nova Iorque, Manaugh ficou intrigado por ler nomes de ilhas no que são, essencialmente, planícies. A investigação revelou uma daquelas histórias mirabolantes, que inventadas ninguém acharia convincentes. Até ao século XIX, toda a área era o leito de um rio irregular. O que hoje são planícies agrícolas férteis eram na altura pântanos. As poucas elevações eram, de facto, ilhas. Mas o surpreendente foi a reação das populações locais quando se começou a construir barragens para regularizar o curso do rio e eliminar os pântanos infectos. Despoletou uma verdadeira guerra civil, com combates armados entre os defensores das velha paisagem e os das transformações de engenharia que vieram a dar origem a uma das regiões mais férteis do estado. No artigo, há um relato de um ataque a uma barragem em construção que faz empalidecer os argumentos de westerns ou filmes pós-apocalípticos.

Torus space stations by Tim White, Robert McCall, David Mattingly, and Don Davis: Preciso mesmo de explicar a raison d’être desta sugestão de leitura?

27 autores españoles para iniciarse en la ciencia ficción y fantasía: O Xataka não faz por menos, dá-nos vinte e sete sugestões para descobrir a FC em castelhano. Uma lista a manter à mão, para poder fazer umas pesquisas bibliófagas na Casa Del Libro da Gran Vía. No Bit2Geek fomos mais comedidos e só sugerimos cinco, como ponto de partida para descobrir a nossa ficção científica.

YUVAL NOAH HARARI: WHY I ALLOW LOCAL ADAPTATIONS OF MY BOOKS—INCLUDING UNDER AUTHORITARIAN REGIMES | OPINION: Lamento, Harari, mas há anos-luz de distância entre alterar metáforas de futebol para baseball entre leitores europeus e americanos, e eliminar trechos que sejam potencialmente críticos a Vladimir Putin. Lamento, mas o argumento de querer aumentar a quantidade de pessoas que tomam contacto com ideias de charneira no impacto das tecnologias digitais, mesmo que isso implique suavizar textos, não pega, muito menos da suposta pequenez do mercado editorial russo (e a refilice sobre os piratas literários iranianos, neste contexto, é muito pateta). Harari tem feito ligações interessantes entre história, tecnologia, sociologia e humanismo nos seus livros, embora sofra um pouco de um certo enviesamento que centra tudo em perspetivas tecnológicas. Esta decisão dele é, francamente, desapontadora.

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