A história ficou conhecida como o “Grande Engodo da Lua”. Foi em 1835 que o jornal New York Sun publicou uma série de 6 artigos que descreviam a descoberta de uma civilização extraterrestre a viver na Lua. Para que a história fosse mais credível usaram o nome de um astrónomo com grade reputação, John Herschel desde logo porque era também filho de um conhecido astrónomo (William Herschel), mas principalmente porque John tinha descoberto 7 Luas de Saturno (que no total tem 62 luas) e 4 luas de Urano (que tem 27 luas).

John Herschel que nasceu a 7 de Março de 1792 e faleceu a 11 de Maio de 1871, estando agora sepultado na Abadia de Westminster, foi o astrónomo responsável por dar o nome a   Titã, uma das luas de Saturno que vamos abordar neste artigo, pois há novidades sobre o interesse crescente que tem vindo a criar na comunidade científica.

A verdade é que Saturno tem de tudo, desde luas com apenas 1 km de diâmetro a Titã, que é a segunda maior lua do sistema solar (apenas ultrapassada do Ganimedes, lua de Júpiter). As luas de Saturno são no geral pequenas: das 62 luas existentes só 13 ultrapassam um diâmetro de 50 km. Foge a esta regra Titã, que apresenta um diâmetro 5 149,5 km.

E porquê que John Herschel lhe chamou Titã? Os titãs da mitologia grega eram entidades gigantescas lideradas por Cronos, que a determinada altura desafiaram Zeus e os restantes deuses do Olimpo, numa tentativa de ascensão ao poder, num conflito que durou 10 anos.  A Guerra dos Titãs vem citada na Teogonia de Hesíodo, na obra de Plutarco “Sobre a música” e no poema Titanomaquia atribuído ao bardo trácio cego, Tamiris.

São nomes possantes os dos titãs, porque designam gigantes, entidades monstruosas, que se impunham pelo tamanho e poder da força. Quem não ouviu nomes (ou as suas variantes) como Oceano, Tétis, Hiperião, Teia, Céos, Gaia, Cronos, Reia, Críos, Ásia, Clímene, Palas, Perses, Astreu, Atlas, Astéria, etc…

Não é pois em vão que um dos satélites/lua de Saturno tenha sido apelidada de Titã, pois é gigantesca: é a segunda maior Lua do Sistema Solar (como já tinha referido), e é maior do que o planeta Mercúrio.

O interesse em Titã…

Titã foi descoberta em 25 de março de 1655 pelo astrônomo holandês Christiaan Huygens, e nomeada (como já foi referido) posteriormente por John Herschel. A razão do interesse em Titã prende-se com a expectativa desta lua de Saturno poder albergar vida, pelo menos em condições especiais…

Titã é desde logo um ambiente muito mais frio do que a Terra. A sua temperatura em média é de -179ºC, mas de certa forma é um ambiente análogo/semelhante ao da Terra (embora este mundo seja com base noutro tipo de materiais).

Titã tem uma atmosfera densa, chuva de metano e possivelmente “criovulcanismo” ou seja, as erupções dos seus vulcões são geladas e voláteis, pelo que se dissolvem na atmosfera. Em vez de expulsarem rocha derretida a altas temperaturas expelem metano, amónia e água, em forma de vapor que pode inclusivamente criar plumas (muito embora não exista conhecimento de água líquida na superfície de Titã).

Para além disso é mesmo muito frio, uma vez que a sua atmosfera funciona ao contrário da atmosfera da Terra: enquanto na Terra os gases com efeito de estufa prendem o calor, em Titã dá-se um fenómeno inverso, o “anti-efeito de estufa” ou seja, porque a sua atmosfera é densa reflete o calor do Sol, conservando o planeta gelado. Esta atmosfera é composta maioritariamente por nitrogénio, metano e etano.

Para além das nuvens “laranjas” de Titã, outra das particularidades interessantes é o facto de ter uma órbita restrita ou seja, uma das faces de Titã está sempre voltada para Saturno, tal como acontece com a nossa Lua em relação ao planeta Terra.

Por isso em Titã os dias ocupam cerca de 15.9 dias terrestres e os meses não têm correspondência com nenhuma estação, sendo sempre iguais.

No limite até se poderia pensar numa colonização humana de Titã, e numa tentativa de terraformação, só que nesta Lua parece não haver água líquida, embora existam rios de metano líquido. Ora sendo o corpo humano 75% composto por água, se houver vida em Titã, essa vida terá que ter por base o metano.

Contudo, dentro do nosso sistema solar, Titã é o único corpo celeste rochoso que contém atmosfera densa além de Vénus e da Terra, razão pela qual é entendido como uma das principais alternativas para uma terraformação que transformasse esta Lua num local habitável.

A exploração feita pela Cassini-Huygens, em 2004…

Titã Lua
Créditos: Sonda Cassini-Huygens, NASA GIF

A Cassini-Huygens foi uma missão espacial não tripulada da responsabilidade da ESA (European Space Agency) e da ASI (Agência Espacial italiana), em colaboração com a NASA, com vista a explorar Saturno e os seus anéis, bem como o seu sistema de luas.

Esta missão lançada a 15 de Outubro de 1997 chegou à órbita de Saturno a 1 de Julho de 2004, e desenvolveu operações até 15 de Setembro de 2017. A missão consistia de um orbitador (a Cassini) e de um Lander (a Huygens). A Cassini Huygens fez parte do Programa Flagship, o mais caro programa espacial não-tripulado, que inclui missões como as sondas Viking (que foram a Marte), as sondas Voyager (que estão a voar no Espaço Interestelar à procura de vida inteligente) ou a sonda Galileu (que foi estudar Júpiter e as suas luas em 1989).

De entre muitas das descobertas que a Cassini fez, destaca-se a descoberta de água liquida em Enceladus, e nomeadamente as sua plumas de vapor. A 14 de Janeiro de 2005 a sonda lander Huygens separou-se da Cassini, após 7 anos de viagem interplanetária, tendo entrado na atmosfera da lua Titã e pousado.

A sonda Cassini foi uma sonda pesada, com cerca de 2.150 kg aos quais se juntam os 350 kg do lander Huygens, e era alimentada por 32,7 kg de Plutónio-238. Por esta razão foi  decido que no final da missão a sonda deveria despenhar-se em Saturno, um planeta gasoso e por isso altamente hostil, para que fosse destruída e não contaminasse com radiação ambientes onde se pensa haver vida, como a lua Enceladus. Esse “Grand Finale” está explicado no vídeo que se segue, de 3 minutos, pela National Geographic.

Já a Huygens pousou em Titã, e tirou estas fotografias:

Créditos: ESA/NASA/JPL/University of Arizona Legenda: Superfície de Titã
Créditos: ESA/NASA/JPL/University of Arizona Legenda: Superfície de Titã
Créditos: ESA/NASA/JPL/University of Arizona Legenda: Superfície de Titã
Créditos: ESA/NASA/JPL/University of Arizona Legenda: Superfície de Titã

E a NASA não se esqueceu do que viu em Titã…

A NASA quer descobrir se existe em Titã em vida baseada em Metano. A suspeita foi levantada quando a NASA se apercebeu que havia uma atmosfera densa e rios com Metano. Para além disso existem inúmeras grutas, que parecem ter sido escavas de forma padronizada, e que levaram investigadores mais audaciosos a considerar que possivelmente a Huygens tivesse descoberto algum tipo de vida, diferente daquele que conhecemos na Terra. O vídeo seguinte mostra muito bem essas anomalias de Titã.

Assim sendo a única forma de se explorar Titã, é enviar robôs que explorem estes ambientes extremos, sem colocar em risco vidas humanas. O DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) dos EUA, tem desenvolvido inúmeras valências nesta área, nomeadamente através de concursos, tal como já explicámos em artigos anteriores.

Como em Titã os desafios são muitos e a viagem interplanetária demora cerca de 7 anos (entre a Terra e Titã), os engenheiros do JPL (Jet Propulsion Laboratory), começaram a desenvolver robôs com capacidade de “Shapeshifting” ou seja, que podem mudar de forma durante as suas operações.

Em Titã é necessário que se possam rolar, voar, flutuar e até nadar nos rios de metano. Para isso está a ser desenvolvido este robô que tem a forma de uma “roda de hamster”, e que pertence á nova classe dos “Cobots” – aqueles que mudam de forma.

“Spelunking” – a exploração das cavernas de Titã.

Spelunking significa “explorar cavernas”, e Ali Agha, investigador principal do JPL (Jet Propulsion Laboratory da NASA) desenvolveu este conceito para que seja utilizado em Titã, prioritariamente.

Este sistema versátil, de acordo com Agha, 10 cobots poderiam transportar um lander do tamanho de Huygens (que tinha 9 pés ou 3 metros de diâmetro) e voar para locais diferentes

A equipa do Shapeshifter está a trabalhar já num lander para Titã , que levará os “cobots” consigo. Esta missão está agendada para lançamento em 2026. Esta missão vai chamar-se Dragonfly e tem como objectivo principal (tal como a NASA explica aqui), a descoberta de vida extraterrestre em Titã.

Podemos também ir acompanhando as descobertas conclusões da NASA sobre Titã, através desta página.

Até lá podemos ir dando uma vista de olhos nas valências deste robô Shapeshifter.

 

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O Futuro é enviar um submarino da Nasa para lua Titã, lua de Saturno