No final de Setembro, na comemoração do 11º aniversário do primeiro lançamento orbital bem-sucedido da SpaceX, Elon Musk apresentou finalmente em Boca Chica Beach no Texas, o tão esperado protótipo de Starship, a nave concebida para levar os humanos a Marte. Numa grande operação de Marketing, como mostra o vídeo acima, Musk falou dos problemas do Planeta Terra, e na necessidade de dar às pessoas alento e esperança no futuro da exploração espacial. Tal como explicou, deste estaleiro em Boca Chica Beach, serão construídas dezenas senão centenas de Starships, que um dia colonizarão Marte. Será mesmo assim?

Elon Musk apresentou uma visão industrial. Cada Starship tem cerca de 100 motores Raptor, que actualmente são produzidos ao ritmo de um a cada dez dias, mas com os novos processos de automação, Musk diz que em breve estará a produzir um motor Raptor por dia.

Num discurso que se apresenta como inspirador para toda a Humanidade, falando como um colonizador, consegue deixar escapar nas entrelinhas a “Gold Rush” lunar e sente-se o peso dos contratos da NASA do Programa Artemis. Musk tanto defendeu uma colónia em Marte, como defendeu uma colónia na Lua, que de acordo com os planos da NASA acontecerá em 2024. E os contratos para entrega de carga estão quase a começar… E são muito valiosos, mesmo!

Portanto parece-nos que Elon Musk está de certa forma (e no bom sentido, com toda a legitimidade) a pressionar a NASA: Jim Bridenstine, Administrador da NASA, não ficou muito satisfeito ao ver a apresentação da Starship, uma vez que a Starliner da Boeing ainda não está pronta e a Crew Dragon ou Dragon 2 (que a própria SpaceX está a fabricar), ficaram para segundo lugar relativamente ao desenvolvimento Starship (que não é da NASA, mas sim exclusiva da SpaceX). Ou seja, Musk pressiona para que a NASA adopte a Starship como veículo de eleição do Programa Artemis (início da colonização lunar em 2024), e para isso colocou o desenvolvimento das suas soluções privadas (como a Starship), à frente dos seus contratos com a NASA.

Sabemos isto pelo Twitter de Jim Bridenstine: “Estou ansioso pelo anúncio da SpaceX amanhã”, escreveu Bridenstine na véspera da apresentação da Starship. “Entretanto a Tripulação Comercial está atrasada anos. A NASA espera ver o mesmo nível de entusiasmo focado nos investimentos do contribuinte. É hora de entregar.”

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Ver o Twitter de Jim Bridenstine, aqui.

Apresentação da Starship…

Durante o evento Musk falou tendo a nave Starship nas suas costas. Era ouvir as suas palavras e imaginar o que esta nave poderá fazer no futuro, levando 100 humanos de cada vez, segundo as contas de Elon Musk.

Foi um ambiente de palco montado: algumas centenas de pessoas, entre os quais pelo menos 200 funcionários da SpaceX, residentes locais de Brownsville e de cidades vizinhas e particularmente muita imprensa.

Então afinal o que é esta Starship? A Starship é um segundo estágio e veículo espacial totalmente reutilizável, que tem estado a ser desenvolvido pela SpaceX, e que neste evento Elon Musk deu por concluído.

A Starship é uma nave espacial preparada para viagens de longa duração, com capacidade para transportar carga e passageiros. Tem capacidade para transportar, como já referimos, cerca de 100 pessoas e até 150 toneladas de carga útil. Tem um diâmetro de 9 metros, 50 metros de altura (recorde-se que o Saturno V que levou Neil Armstrong e Buzz Aldrin à Lua tinha 110,6 metros de altura e 10,1 metros de diâmetro).

Sem carga a Starship tem 120,000 Kg e tem uma capacidade de armazenamento de propelente de 1,100,000 Kg, que vão sair dos seus 37 motores Raptor (sem contar com os restantes estágios). Para lançamentos orbitais a Starship (segundo estágio) junta-se ao primeiro estágio, o Super Heavy de 68 metros, que serve de estágio inicial da nave. Segundo Elon Musk o primeiro teste será dentro de 6 meses, ainda que para os críticos isso possa ser um cronograma “agressivo” ou irrealista.

O Starhopper.

Não se testou a Starship mas já se testou o Starhopper…

Muito falados foram os testes do Starhopper, que começaram em Março de 2019. O Starhopper é uma “mini-starship” feito da aço (e portanto com 9 metros de diâmetro também), e que tem estado a ser utilizado para testes estáticos e voos de baixa altitude.

Este modelo em aço e com esta largura foi apresentado pela primeira vez em 2017, contudo os motores Raptor da SpaceX estão em evolução desde 2013. A missão inicial da Starship estava destinada a um “Loop Lunar”, associada ao projecto #dearMoon (Yusaku Maezawa e alguns artistas serão levados numa viagem de Starship em 2023, em torno da Lua).

Este projecto de nave ambicioso (a Starship), é abastecida por Metano e Oxigénio, foi desenhada para ser reabastecida em órbita e pretende atingir velocidades de 3,7 Km/s no vácuo. Chamamos-lhe projecto ambicioso porque até agora, o topo da linha da SpaceX era Falcon Heavy que tinha 27 motores Merlin. Ora a Starship tem mais 10 motores e mais potentes (os Raptor), e portanto uma força inimaginável face até ao agora visto.

No entanto tudo é estranho nesta nave. Nunca tínhamos visto algo destas dimensões construído em aço, até agora… Explica Musk que em temperaturas extremamente baixas, como as que a Starship vai encontrar para além da atmosfera, o aço inoxidável não fica quebradiço depois de ser aquecido. Para além disso o material de fibra de carbono custa cerca de US $ 130.000 a tonelada, e o aço inoxidável é vendido por US $ 2.500 a tonelada.

A Starship terá 3 configurações base: uma para viagens interplanetárias (apenas dentro do sistema solar, como Marte), em segundo lugar para entrega de satélites ou landers e em terceiro lugar para abastecimento das próprias Starships da SpaceX, que já estejam em órbita.

Então a Starship será mesmo a nave da exploração espacial?

Na nossa opinião e tal como explicámos no início do artigo, parece que Elon Musk está a “forçar” a NASA a aceitar a Starship como veículo de eleição para a concretização do Programa Artemis, a tão falada colonização lunar em 2024.

Enviar a Starship a Marte iria embater contra as determinações da Protecção Planetária, que a avaliar pelas últimas declarações de um investigador-chefe da NASA, Dr. Jim Green, a NASA estará prestes a anunciar a descoberta de vida em Marte, pelo que seria impossível, pelo menos até encontrar formas de contenção da contaminação microbiana que poderíamos fazer noutro mundo, enviando uma missão tripulada.

A utilização de robôs esterilizados como forma de minimizar as chances de contaminação, fazem parte de disposições rigorosas decorrentes do Tratado do Espaço Exterior de 1967, e têm que ser seguidas por qualquer entidade da indústria espacial, pelas entidades governamentais e não-governamentais.

Também há a questão da perda de tecido ósseo e atrofia muscular, decorrente das viagens espaciais de longo curso, e que ainda não se conseguiu encontrar uma solução totalmente satisfatória, bem como da imunização da radiação solar e cósmica, que tem a capacidade de alterar e destruir o ADN humano.

O que procura então Elon Musk?

Mais do que 2023 e do Loop Lunar no #dearMoon, Musk parece estar a orientar a estratégia comercial da SpaceX para as entregas de carga lunar.

O módulo privado (lander) da Intuitive Machines , de seu nome Nova-C, será entregue na Lua em 2021 por um Falcon 9 da SpaceX. De facto, ainda este ano e ao abrigo do programa CLPS (Commercial Lunar Payload Services), a NASA contratualizou com a Intuitive Machines, com a Orbit Beyond e com a Astrobotic, a construção de landers para levar cargas úteis da agência para a superfície lunar. Por esse motivo a Intuitive Machines recebeu um total de US $ 77 milhões, a Astrobotic recebeu US $ 79,5 milhões e a Orbit Beyond US $ 97 milhões.

É verdade que a Nova-C apenas pode transportar cerca de 100 Kg, o que é o mesmo que dizer que a SpaceX não ganhou um super-contrato… Contudo o Marketing da SpaceX quer aparecer a esmagar com a Starship, porque por exemplo a Astrobotic já contratualizou um foguetão Vulcan Centaur com a United Launch Alliance para entregar o seu Lander na Lua…

Chama-se portanto a isto, o tudo ou nada da SpaceX e de Elon Musk para entrar no Programa Artemis.

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