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O que poderemos destacar nesta semana? A presença da Banda Desenhada portuguesa na Polónia. Leituras de fantástico português e em português. As capacidades tecnológicas insuspeitas da Marinha portuguesa. Inteligência artificial e restrição de liberdades. Onde está a fronteira entre o corpo e a tecnologia. Literatura infantil soviética dos piores tempos pós-revolução. Guerras de drones sobre a Líbia. Aventuras arriscadas da RAAF sobre a cidade de Brisbane. Estas são algumas das sugestões da semana, entre o real e o digital.

Universos do Fantástico

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Inside a future space station built for twelve humans. Concept art from NASA’s “Man in Space: Space in the Seventies,” 1971: Parece algo claustrofóbica para doze habitantes, e aquele chuveiro totalmente transparente seria uma tentação para voyeurs especiais interessados na beleza das astronautas, parece-me (de vez em quando, sabe bem ser maquiavélico).

Portuguese artists at the 30th International Festival of Comics and Games in Lodz: A mais recente edição deste festival polaco de banda desenhada contou com uma forte presença de artistas e projetos portugueses.

LA’s ultimate horror movie filming locations map: Um guia turístico para cinéfilos com gostos tenebrosos, a arquitetura dos filmes de terror que são na verdade habitações do dia a dia.

One Hero, No Tomorrow: The Post-Apocalyptic Films of Cirio H. Santiago: Confesso algumas saudades destas cinematografias exploitation, agora que vivemos na era onde as culturas de género se dedicam à referencialidade e já poucos se dão ao trabalho de fazer filmes assumidamente maus. Há uma certa inocência pré-digital neste cinema a metro, ultra low budget e very high (provavelmente, até mesmo em substâncias) shlock.

Vincent Di Fate: As visões que formaram o meu gosto pela ficção científica.

O leite da via láctea. Manuel Zimbro (Sistema Solar): Não quero ser mauzinho, mas suspeito que vale mais ler esta crítica, recheada de intersecções entre arte erudita e banda desenhada, do que a obra em si, que me pareceu mais exercício de estilo vindo de um artista a experimentar meios de expressão do que uma obra de BD completa. Posso estar enganado, se alguma vez der com este livro (caso seja mesmo editado e não objeto de exposição em galeria), logo vejo. Já a crítica, sublinho, vale a pena ler.

O QUE AINDA NÃO SABIAS SOBRE DRÁCULA, SUPER-HOMEM E OUTROS MONSTROS FABULOSOS: Confesso que peguei neste livro do Alberto Manguel mal o apanhei nas livrarias, porque premissa irresistível. Ensaios literários sobre criaturas de ficção, escritos por um bibliófilo de erudição extrema (o seu dicionário de locais imaginários é um livro obrigatório para qualquer geek que se preze, e queira ultrapassar a medianiedade dos universos televisivos e cinematográficos). O artigo da Estante não vai tão fundo, mas é uma razoável apresentação a ajudar a despertar a curiosidade.

Long Read: A Great Big Doomsday Clock/DC Comics Conspiracy Theory: Isto é um mergulho talvez demasiado profundo nas possíveis intenções de Geoff Johns com o seu pastiche de Alan Moore, a tentar integrar as personagens de Watchmen na continuidade principal da DC.

Alien concept art by H. R. Giger: Houve um ciclo perfeito de retroalimentação entre o artista e o filme. As suas visões definiram o filme, mesmo nas sequelas e prequelas, que mesmo que tentem não conseguem fugir ao seu visual profundamente alienígena. E Alien lançou a carreira de Giger, embora ele já fosse um artista estabelecido, o alcance global da sua fama deve-se ao impacto do filme.

In This Trailer for BBC’s War of the Worlds, There’s a Lot to Be Concerned About: Uma adaptação da Guerra dos Mundos fiel à época do romance? Shut up and take my money. Com tantas voltas que esta história marcante levou, entre a adaptação rádio de Orson Welles, o filme icónico dos anos 50, ou a dura visão contemporânea de Spielberg (todas se recomendem, apesar da de Spielberg desagradar aos puristas), creio que nenhuma retrata a época do conto. A história original passa-se numa Inglaterra no auge do seu poderio imperial, depressa colocada de joelhos pelo poderio militar mais avançado dos marcianos. Tal como fazia aos países que colonizou e transformaram o Reino Unido na grande potência global. H. G. Wells assentava a sua ficção científica num firme sentido histórico, que não fugia de visões críticas. Talvez esta série da BBC consiga, finalmente, trazer essa visão para o ecrã com ajuda da capacidade digital dos efeitos especiais.

Tecnologia, Entre o Digital e o Tangível

Portugal’s navy reveals “tech guerrilla” unit creating tech toys that kill: Daquelas notícias que os media portugueses, avessos a qualquer ciência e tecnologia que não seja o gadget da moda, ignoram. A Marinha portuguesa tem uma unidade dedicada à investigação de computação, automação e robótica aplicada à defesa, que tem apresentado resultados interessantes no domínio dos rov militares com capacidade ofensiva.

From Pocket Computers to Palmtops: An Early History of Mobile Telecomputing: Comecei a usar computadores nos tempos dos pesados desktop com ecrãs CRT (mas já a correr windows 95, não sou assim tão ancião), e sempre me perguntei porque é que a computação era tão fixa e não móvel como na ficção científica. Claro está que mal pude, adquiri o meu primeiro palmtop, um PDA da Palm com uns gloriosos 1mb de memória, e no fundo as incipientes funcionalidades do que hoje é a computação móvel em tablet e smartphone (sempre quis ter um Nokia Communicator, mas o salário de professor nunca permitiu essas veleidades). Hoje, faço de tudo no meu inseparável tablet, entre interagir em redes sociais, gerir fluxos de email, modelar em 3D e até mesmo escrever estes textos. Neste artigo, alguns dos primeiros computadores verdadeiramente de bolso, dispositivos que anteciparam a nossa era de mobilidade computacional.

The Tech Revolution Was Supposed To Be Fun. So What Happened?: De facto, é um paradoxo. A revolução digital tem bases libertárias, e sempre se assumiu como livre e contracultural, no entanto a sociedade hipercapitalista que gerou é tudo menos libertadora.

Artificial Intelligence Has Become A Tool For Classifying And Ranking People: A Forbes descobriu a pólvora. Entre sistemas de apoio à decisão de contratação e métricas de produtividade de funcionários, a inteligência artificial tem mostrado que é uma ferramenta essencial para catalogar indivíduos. Com todas as consequências negativas daí advindas para a nossa sociedade de liberdades e garantias. Ainda não é o modelo chinês de créditos sociais, mas quase que são elementos constituintes.

Lospec, a resource site for “digitally restrictive art”: Devo dizer que o conceito é estimulante. Numa era em que as ferramentas digitais parecem capazes de atingir o ilimitado, procurar restrições pode ser um ato de criatividade.

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Space shuttle concept art by Roy Gjertson for General Dynamics, circa 1971: Se o Elon Musk tivesse visto isto, se calhar a Spaceship da SpaceX teria um design diferente.

The birth and rise of Ethernet: A history: Mais do que o Wi-Fi, a rede Ethernet sustenta a conectividade das organizações (como observa, mordaz, o artigo, é o que liga os access points Wi-Fi à internet). Nasceu do trabalho de Bob Metcalfe no Xerox Parc (o berço de boa parte do mundo digital), e sobreviveu à competição com outros potenciais standards para se tornar dominante. Há que adorar a razão para o nome que tem, uma homenagem ao conceito de meio ubiquo que era o éter, substância que se julgava permear tudo até se provar a sua in existência. Ethernet significa mesmo isso, um permear eletrónico de informação que está à nossa volta.

3D printing community hit by LEGO takedown notices: Não há aqui grandes surpresas. A impressão 3D é a maior inimiga do modelo de negócio da Lego, e desde que me lembro tem sido usada para desenvolver alternativas às peças, quer versões das mais caras, quer peças específicas, quer peças capazes de interconectar diferentes sistemas (entre Lego e Meccano, por exemplo). Se o brick clássico é considerado domínio público, as peças compostas não o são e é por aí que a multinacional dinamarquesa ataca. Nalguns casos, de forma plenamente justificada, noutros, fazendo desaparecer o trabalho de Makers e fãs que se inspiram na estética lego para as suas criações.

MIT creates blackest black that is darker than Vantablack: O famoso pigmento super negro só absorve 99% da luz recebida. O criado pelo MIT, chega aos 99,995%. É negro puro, causado pela ausência de luz (em bom rigor, absorção quase total). A tecnologia que permite esta negritude absoluta baseia-se no alinhamento vertical de nanotubos de carbono.

Excavating AI The Politics of Images in Machine Learning Training Sets: A visão computacional depende da categorização e etiquetagem de milhões de imagens. E aqui reside um problema não técnico, mas ético. As escolhas de categorias e etiquetas podem traduzir preconceitos e visões distorcidas. Usadas para treinar algoritmos que nos afetam no dia a dia, os problemas éticos levantados pela classificação deixam de ser académicos, passando a afetar vidas.

The Coming Age of Imaginative Machines: If you aren’t following the rise of synthetic media, the 2020s will hit you like a digital blitzkrieg: Como em, a produção de texto, imagem e vídeo por redes neuronais e outros tipos de algoritmos de Inteligência Artificial vai-se tornar a norma e não a exceção. O nosso mundo de ideias, mediado por media digitais cada vez mais automatizados, irá sofrer impactos que hoje começamos a descortinar.

THE BOUNDARY BETWEEN OUR BODIES AND OUR TECH: Vivemos num fluxo contínuo entre o real e o virtual, as nossas trocas de informação através do digital são extensões do nosso ser, parte fundamental da nossa individualidade. A ideia em si não é nova, tem uma linha direta com a teoria das tecnologias como extensão das capacidades humanas. Mas há um elemento adicional. Essas interações são filtradas por algoritmos, não somos nós quem decide o que nos aparece nas linhas de tempo e cronologias de publicações através das quais interagimos com outros. Colocar-se a questão do e se esses algoritmos, fundamentados na necessidade de filtrar a enorme e crescente quantidade de informação, não estão deliberadamente a condicionar o que vemos de forma a modificar os nossos comportamentos e percepções.

Before the internet broke my attention span I read books compulsively. Now, it takes willpower: I can relate. Mas não diria que se trata de um estilhaçar da capacidade de focar a atenção, antes o impulso da curiosidade alimentada pela incessante torrente digital, combinada com  a vontade de interagir e participar no rio de discurso. Entre as exigências profissionais e o estímulo digital, diria que o que realmente complica a coisa é a sensação de falta de tempo.

Mundo Digital e Contemporâneo

Radar Offline: Abandoned Secret Soviet Base In Latvia: Quando a exploração urbana e os vestígios da guerra fria se cruzam.

In praise of cultural elitism: Pessoalmente não partilho da opinião do articulista, que gostaria de regressar aos bons velhos tempos do snobismo cultural. Por outro lado, a ideia das culture wars como lutas de afirmação de gostos parece sedutora. Hoje, a discussão cultural está demasiado reduzida à polarização extrema, onde as ideologias se sobrepõem à real qualidade das obras. E se tenta censurar ativamente, em nome da liberdade (ah, como Orwell nos ensinou tão bem a apreciar esta negra ironia), aqueles que tenham violado normas sociais e culturais. Dois exemplos recentes no campo da Ficção Científica: o escândalo prémio Campbell, e as recentes (e muito patéticas) declarações de Dan Simmons sobre Greta Thurnberg, que vão ter como efeito o boicote à sua obra, independentemente da qualidade literária.

Beautiful Books, Terrible Times: The Free Expression of Soviet Children’s Lit: Os primeiros tempos da União Soviética foram terríveis, entre guerra civil, fome, atrocidades e posteriormente as depurações ideológica do regime. No entanto, mesmo nesses tempos negros fazia-se literatura infantil, e com um espaço de expressão surpreendentemente livre. Talvez porque, como observa o artigo, este tipo de literatura não é para ser levada a sério, e por isso não punha em perigo dogmas ideológicos. Visualmente, são muito interessantes, num registo moderno e arrojado de inspiração futurista (o movimento artístico), o mesmo tipo de experimentalismo visual que os comissários da cultura depressa se apressaram a esmagar a favor do estéril realismo de retrato das glórias do regime.

Dining with Stalin: Há um fascínio perverso num livro académico dedicado aos banquetes de Estaline. Eventos luxuosos, onde o favorito de um dia que se sentava ao lado do ditador podia estar no dia seguinte preso no Lubianka ou executado sumariamente.

China Unveils A New Supersonic Spy Drone During Massive Military Parade In Beijing. And Here’s Our Analysis: Shanzai D21? Na era dos satélites e do digital, um drone hipersónico parece algo vagamente retro, mas num campo de batalha de alta intensidade é capaz de ser muito útil.

China’s Path Forward Is Getting Bumpy: As agruras da nova rota da seda, esse imenso investimento global chinês em infraestrutura um pouco por todo o planeta. Um toque de soft power, aposta em rotas comerciais novas e milenares, mas também em zonas do planeta onde a modernidade passou ao lado.

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Final Eurofighter Typhoon delivered to the Royal Air Force: Não resisto. Se o Brexit for em frente, e os lunáticos que chegaram ao poder no Reino Unido conseguirem transformar o país na sua terra de sonho (provavelmente uma espécie de ditadura populista algo similar à distopia de V for Vendetta – mais a do filme que a do livro), a RAF terá de mudar o nome à sua frota de Eurofighters? Porque fica mal a referência a um projeto de cooperação europeu que deu excelentes resultados em tecnologia avançada?

Chinese drones hunt Turkish drones in Libya air war: Há que apreciar esta globalização digital do armamento automatizado. Adicionem algoritmos de IA e a notória falta de ética dos regimes turco e chinês, e ainda teremos a Líbia como precursora do uso de armas autónomas em combate. Mas para já, o notável é a forma como as milícias em combate no lamaçal líbio usam drones, descartando armamento convencional mais complexo. Para quê aviões, caros de manter e a requerer pilotos, quando drones baratos fazem o serviço?

The Man Who Went to War With Canada: Uma história do fascínio por desoladas terras remotas, no caso uma ilha deserta ao largo da Nova Inglaterra, e de resquícios bizarros onde a geografia, história e política geraram verdadeiras terras de ninguém. Ou, no caso desta, uma ilha de soberania disputada entre americanos e canadianos há séculos, mas à qual nenhum governo dá qualquer importância. E figuras locais larger than life que exploram estes vácuos geográficos.

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These Are The Best Images Of Royal Australian Air Force Aircraft Flying Over Brisbane For Sunsuper Riverfire 2019: Imagens de caças de combate a voar por entre prédios são geralmente típicas e filme, exceto neste caso. A RAAF tem a tradição de participar num festival em Brisbane, de uma forma decididamente destemida.

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Sabia que… Este Avião Aterra Sozinho?

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.