Fala-se muito enviar humanos para Marte e colonizar o planeta vermelho. Mas pouco se fala sobre formar uma colónia de humanos em Vénus. De facto três presidentes norte-americanos (George Bush, Barack Obama e Donald Trump) delinearam objectivos para colonizar Marte, tendo sido seguidos pelo governo chinês nessa ambição. Só que deixar Vénus de parte das ambições espaciais da Humanidade é algo que não faz sentido, uma vez que Vénus é um alvo mais barato e mais fácil de terraformar.

Em primeiro lugar Vénus fica mais próximo do planeta Terra, a uma distância de 108.2 milhões de km enquanto Marte fica a 149.6 milhões. Conseguimos hoje atingir Marte num espaço de 150-300 dias, dependendo da velocidade de lançamento. Em regra costumamos levar cerca de 9 meses até chegar a Marte, enquanto que para se chegar a Vénus demoramos apenas 97 dias, ou cerca de 3 meses. Aliás e com muito menos tecnologia, já a 8 de Agosto de 1962 foi lançada uma sonda, a Mariner 2 da NASA, que fez um “flyby” a Vénus a 14 de Dezembro de 1962, tendo demorado apenas 110 dias.

Em regra geral podemos afirmar hoje em dia, depois de feitas todas as experiências de viagens a Vénus, que comparativamente com Marte, demora pelo menos cerca de 30 a 50% menos tempo que demoraríamos até Marte.

Portanto porque não tentamos colonizar Vénus?

Há todas as razões para o fazer: os astronautas estariam sujeitos a muito menos radiação espacial, seria preciso levar muito menos mantimentos, seria necessário muito menos propelente para os foguetões, e o custo global da missão seria muito inferior.

E depois, tanto as máquinas como humanos que serviriam de mão-de-obra para iniciar uma colonização ou uma terraformação, poderiam ser colocados no planeta a um ritmo muito mais rápido.

E por estas razões perguntamos o que se passa. Porque não estamos a tentar colonizar Vénus?

Vénus Terraformação Terraformar
Créditos: JAXA / ISAS / DARTS / Damia Bouic

Um planeta com má fama…

Vénus tem vantagens determinantes sobre Marte. A primeira e mais óbvia é que está mais próximo do Sol, e por isso tem a capacidade de recolher cerca de 4 vezes mais energia solar, através da utilização de painéis fotovoltaicos.

Além disso Vénus tem uma atmosfera densa, muito mais fácil de oxigenar com vista à habitabilidade, do que a fina camada atmosférica existente Marte, uma vez que o planeta vermelho não consegue fixar atmosfera…

Dizemos que é um planeta mais fácil de “oxigenar”, porque é muito rico em dióxido de carbono, de onde se pode extrair o oxigénio. Além disso essa atmosfera densa é capaz de proteger os humanos contra a radiação e contra o impacto de meteoritos.

Mas de facto o que torna Vénus tão apetecível a uma terraformação ou colonização, é a sua gravidade, que é muito semelhante à da Terra. Enquanto que Vénus tem 0,9 g’s, Marte tem muito menos força gravitacional, ficando-se pelos 0,4 g’s.

A ausência de uma força gravitacional igual àquela que conhecemos, e de acordo com a qual a vida evoluiu, faz-nos perder massa muscular e tecido ósseo.

Excusado será explicar que a perda de tecido ósseo e massa muscular é dramático nos seres vivos, e em particular nos humanos. Por exemplo um astronauta em órbita na Estação Espacial Internacional perde 10 vezes mais tecido ósseo do que alguém que sofre de osteoporose avançada.

Não se conhecem os efeitos da gravidade relativa de Marte em humanos, e estão a ser desenvolvidos estudos com melatonina (os cientistas do Bit2geek estão a preparar um artigo sobre este assunto, para breve), uma vez que a melatonina poderá encerrar o segredo para que a habitação seja possível noutros mundos e para sustentar as perdas ósseas em viagens espaciais de longo curso. A NASA tem programas de estudo sobre este assunto, e a terapia com melatonia poderá vir a ser em breve incluída nas terapias para os mais idosos.

Para que fique claro, a única coisa que não podemos manipular num planeta (pelo menos por agora) é a força gravitacional, pelo que estamos sujeitos a ter que escolher por agora, planetas com uma gravidade parecida com a da Terra. Caso contrário só poderíamos viver em Marte durante alguns meses, antes que os nossos ossos começassem a desfazer-se, ou se vivêssemos num planeta do tamanho de Júpiter (como há fora do nosso sistema solar, exoplanetas como as Super-Terras), onde o corpo de um Mister Olímpia (como Arnold Schwarzenegger) poderia não ser suficiente para dar alguns passos, que ainda para mais nos iriam parecer ser maratonas…

Então porque falamos em colonizar Marte em vez de Vénus?

Vénus Terraformação Terraformar
O “Ishtar Terra”, em Vénus. Tem o tamanho do continente dos EUA e faz fronteira com grandes cadeias de montanhas, incluindo Montes Maxwell, que é a área mais alta do planeta, com uma altitude superior ao Monte Everest. Créditos: NASA

A resposta é simples: é que podemos aterrar ou pousar em Marte e não podemos presentemente pousar em Vénus (o que não impede contudo uma colonização no futuro).

Em primeiro lugar Marte é gelado e com uma temperatura média de -63º C. A melhor temperatura já registada em Marte foi de 20ºC ao meio dia, no equador. Por outro lado a temperatura dos polos é de -153ºC. Há no entanto a vantagem de nos polos haver água em forma de gelo.

Já Vénus é um inferno de calor, com uma temperatura média de 450ºC, bastante acima da temperatura necessária para derreter o chumbo.

Mas o impedimento e questão principal que inviabiliza temporariamente a terraformação (mas não uma colonização) é, para além da atracção gravitacional, a pressão atmosférica. Chamamos pressão atmosférica à tensão ou força que a atmosfera exerce sobre a superfície do planeta, e no que diz respeito a este assunto nenhum dos planetas é bom, uma vez que Marte tem uma pressão atmosférica de cerca de 1% comparativamente à da Terra (o que faria a água de um copo cheio sublimar de imediato, dissipando-se no Espaço) e Vénus tem uma pressão atmosférica correspondente a 90 atmosferas terrestres.

Ou seja, tentar pousar em Vénus é o mesmo do que tentar mergulhar cerca de 1 Km no oceano terrestre, o que é muito acima do ponto de implosão da maioria dos submarinos militares.

Portanto quão difícil é pousar em Vénus?

Continuemos com o exemplo de um submarino militar. Normalmente os submarinos militares conseguem mergulhar até uma profundidade média de 245 metros. Há no entanto submarinos militares de elite, cuja profundidade que podem atingir é confidencial, mas que se sabe que rondará os 610 metros. Para estes submarinos de elite, mesmo “esticando” muito a sua capacidade de sobrevivência na profundidade do oceano, não ultrapassam o ponto de esmagamento que se situa entre 731 metros e os 914 metros. Quando falamos em “elites”, referimos-nos por exemplo à classe SeaWolf norte-americana.

Esta explicação tem como objectivo servir de ponto de comparação com as missões a Vénus, russas e norte-americanas, que na sua grande maioria implodiram a meio-caminho, na descida até à superfície. As sondas reforçadas que foram enviadas até à superfície de Vénus de facto conseguiram tirar estas fotografias, mas só duraram duas horas antes do inevitável acontecer: o esmagamento!

Vénus
Superfície de Vénus. Créditos: NASA
Vénus Terraformação Terraformar
Fotografado pelo sonda soviética Venera-13 lander (Créditos: NASA history office)

Então viver em Vénus, como?

Recapitulando, é possível viver em Vénus porque o diâmetro de Vénus é apenas 650 km menor do que a Terra e sua massa é 81,5% da massa do nosso planeta, pelo que a gravidade é quase igual à da Terra. Por outro lado, a temperatura de superfície é de 450 ºC, tem uma pressão atmosférica correspondente a + de 90 atmosferas terrestres (o que esmagaria um humano), tem um extenso vulcanismo, uma camada de nuvens de ácido sulfúrico, ventos em super-rotação (cerca de 360 Km/hora, ciclónicos), etc…

Contudo 50 km acima da superfície a temperatura cai para os 70 ºC, e os equipamentos que produzimos para os bombeiros no planeta Terra aguentam cerca de 2000 ºC. Depois a essa altitude a pressão atmosférica cai para valores similares aos de 1 atmosfera terrestre. Isso significa na prática que poderíamos viver com máscaras de oxigénio e fatos de protecção relativamente simples. Além disso, por cima das nuvens de ácido sulfúrico, a atmosfera é ainda suficientemente densa para balões ou zepelins voarem ou flutuarem acima das nuvens.

De facto, acima das nuvens em Vénus encontra-se o ambiente mais parecido com a Terra em todo o sistema solar. Por esta razão a “Systems Analysis and Concepts Directorate” pertencente ao NASA Langley Research Center, tem estado a desenvolver as “Cloud Cities” (Cidades das Nuvens), projecto esse chamado High Altitude Venus Operational Concept (HAVOC). Ver o conceito no vídeo seguinte:

No filme de culto “Star Wars – Empire Strikes Back” de 1980, George Lucas imaginou uma Cloud City muito semelhante àquela que a NASA pretende desenvolver. É Governador da Cloud City o amigo de Hans Solo, Lando Calrrisian. Recorde-se uma das cenas do Star Wars que melhor record este conceito de Cloud City:

A Cloud City não é a única maneira de colonizar Vénus, mas é a maneira de colonizar este planeta fazendo menos estragos possíveis.

De facto uma coisa é colonizar e outra é terraformar. E sim, também é possível terraformar Vénus, mas esse será um assunto para os próximos artigos. Por enquanto a Cloud City parece ser a maneira mais viável… Mas sim, há outras maneiras que também funcionam…

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