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Esta semana, destacamos as guerras de memes que decorrem em paralelo com a quasi-rebelião de Hong Kong. Falamos de novidades na literatura e banda desenhada em português, com novas edições e editoras. Recordamos a obra ímpar de Miyazaki. Descobrimos como a China está a usar a inteligência artificial para vigiar as crianças. Recordamos as linhas de código mais influentes de sempre. Olhamos para a aposta do Qatar no ar condicionado, e no porquê do amor dos matemáticos ao giz. Estes, e outros temas, em destaque nas leituras sugeridas desta semana. Como sempre, o Capturas seleciona os textos que nos ajudam a compreender as transformações do sistema do mundo.

Universos da Ficção Científica

Return to Tomorrow: Ah, a inocência destas capas pulp…

Review – Andromeda, Or The Long Way Home: Um promissor livro de banda desenhada portuguesa, editado em Kickstarter, e que terá em breve edição em português pela nova editora Seita.

Getting to the Heart of SFF’s Most-Tear Inducing Moments: The ‘Riders of Rohan’ Phenomenon: O que é que emociona os fãs do fantástico? Para muitos, são os momentos tocantes de tragédia. Para esta articulista, são os momentos empolgantes em que tudo parece estar perdido, mas os personagens encontram forças ou ajuda para superar aquele que é o momento mais negro das suas aventuras.

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Photo: Recordemos os sonhos traumáticos da destruição mutuamente assegurada.

É hoje, a Bang! 27 já está aí!: Esta revista, única em Portugal que se dedica à ficção científica e fantástico, e sempre gratuita, é um raro exemplo de continuidade. Tem as suas peculiaridades, como o design gráfico horrendo que chega a tornar impossível a leitura de alguns artigos, mas não deixa de ser leitura obrigatória para os fãs. Está nas Fnac, gratuita.

Nova editora no mercado: A Seita: Confesso que fiquei um pouco surpreendido com esta nova editora, porque me pareceu estarem a editar alguns livros que à partida sairiam pela Levoir. Não estou suficientemente dentro do Fandom de BD para saber o que, e se se passou algum desentendimento, até porque os que estão ligados a este novo projeto também estão ligados aos outros. E, honestamente, não quero saber, porque tenho literalmente mais que fazer. O que me deixa contente é ver a edição de fumetti Bonelli a intensificar-se por cá. Mais Dylan Dog, mais Dampyr. Será que me posso atrever a sonhar com edição portuguesa do magnífico Lilith de Luca Enoch?

Peter Elson: Estéticas do aerógrafo. Foi uma cena, na viragem dos anos 80 para os 90, um visual de cores brilhantes que marcou uma estética na ilustração de ficção científica.

Joe Petagno: Por muito entretido que ande com iconografias Space Opera, às vezes vale a pena recordar o seu lado mais psicadélico.

Los siete cómics que han convertido a Batwoman en uno de los superhéroes más apasionantes de DC: Pessoalmente, fiquei de queixo caído com Batwoman de J. H. Williams. Visualmente estonteante, socialmente progressivo na sua estrutura narrativa, foi dos melhores títulos da era New 52.

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Say what you will about this Starblazer cover, but at least it…: Pois, terá sido o Crimson Pirate com o Erroll Flynn a inspirar esta capa? Ou algo mais starwarsy?

AI Sci-Fi Reading List: Ficção Científica e não só, nesta lista de leituras sobre inteligencia artificial.

The airships of Hayao Miyazaki’s wonderful films: Fascinante, a ideia que ao longo da sua carreira, por muito prolífico que seja, um cineasta só faz, de facto, um filme. Porque a sua obra combina os temas que lhe são queridos, as suas obsessões pessoais, pontos de vista ou olhar técnico. Que, no caso de Miyazaki, é um fascínio pela aviação, equilibrando o deslumbre pelo voo com a sensação das consequências terríveis que o uso da tecnologia para violência nos traz.

Editora A Seita lança ainda este mês, com a presença do desenhador Michele Cropera, a terceira aventura portuguesa de Dampyr“O suicídio de Aleister Crowley” com a participação do poeta Fernando Pessoa: E como estava em pré-venda no Fórum Fantástico, já está na pilha de livros para ler, apesar de Dampyr não ser das minhas personagens favoritas. Diga-se que estamos a viver um belíssimo momento de edição de banda desenhada em Portugal, entre comics, mangá, bande dessiné, começa a não haver carteira nem estantes para tanta novidade. O que é o normal em países com mercados maduros. Para ajudar, a edição de fumetti está a intensificar-se. Eu, como grande fã de Dylan Dog, adoro finalmente vê-lo traduzido para português e a chegar aos nossos leitores. BD italiana popular está a deixar de ser apenas o Western clássico de Tex. Ah, confusos com os termos? Banda desenhada americana, japonesa, francófona e italiana. É tudo BD, mas com caraterísticas técnicas, narrativas, estilísticas e gráficas muito distintas entre si.

Tecnologias e Sistemas

“This is Us” : Play Without Spectators: Uma dose de psicadelismo digital para adoçar o olhar.

How China Is Using Artificial Intelligence in Classrooms | WSJ: Esta reportagem é ao mesmo tempo inspiradora e arrepiante. Como professor, seduz a ideia de ferramentas de inteligência artificial acopladas a sensores e reconhecimento facial para ter dados em tempo real sobre o desempenho dos alunos. Se estão atentos ou não, se estão focados na tarefa ou distraídos. Por outro lado, qual é o preço disto? O cultural, não o financeiro. Este tipo de sistemas encerra em si o risco de robotização do comportamento humano. Sabemos que a nossa atenção e concentração flutuam, que temos dias melhores ou piores. Mas este tipo de ferramentas cria uma ilusão de otimização de desempenho que é fundamentalmente desumana. Algures na reportagem, uma criança refere que este sistema o ajudou a melhorar porque a forçou a estar atenta. Esse “forced to” ficou-me na mente. Isto é possível na China, essencialmente uma ditadura que deseja formar cidadãos tecnicamente competentes mas civicamente acríticos. Ou seja, robots humanos ao serviço dos desígnios do governo.

The Emerging Risk of Virtual Societal Warfare: Social Manipulation in a Changing Information Environment: Bem, todo este título cheio de palavras complicadas de tom cyberpunk pode ser resumido aos desafios sociais trazidos pelo sistema da propaganda potenciada, disseminada e acelerada por meios digitais. Que é uma preocupação legítima, que deve ser estudada e clarificada para que a nossa sociedade liberal e democrática sobreviva às tentativas de subversão.

The Lines of Code That Changed Everything: Vivendo como vivemos numa sociedade mediada pelo digital, a programação suporta as ferramentas de que dependemos a praticamente todos os níveis, do lazer à economia. O longo historial da programação deixou as suas marcas. Neste artigo, são mostrados alguns dos mais influentes softwares da história da computação, dos primeiros ambientes de programação não binários aos erros  do sistema de software que provocaram acidentes aéreos dos aviões Boeing 737 Max.

Chesley Bonestell: Um dos grandes mestres da ilustração de ficção científica.

Fortnite has reached The End – changing video game storytelling for good: A escolha criativa dos estúdios que editam o Fortnite é curiosa, e inédita. Pôr fim ao jogo engolindo todo o cenário numa singularidade é algo que surpreendeu todos. Embora não seja um final definitivo, apenas um encerrar de temporada de jogo.

Richard W. Bailey (ed.): Computer Poems (1973): Nos anos 70 faziam-se mostras de poesia experimental e literatura gerada por computador. Mete em perspetiva o nosso corrente deslumbramento pela suposta criatividade dos algoritmos de Inteligência Artificial, não mete?

EE.UU deja de utilizar su obsoleto sistema con disquetes de 8 pulgadas para gestionar el arsenal nuclear: Na verdade, há boas razões para que o arsenal nuclear Norte-americano dependa de tecnologias obsoletas. A fiabilidade de um sistema que funciona (bugs e armas atómicas é daquelas combinações de pesadelo). E o ser um sistema airgapped, offline e dependente de média físico, por isso menos vulnerável a hacking. Mesmo que nos pareça absurdo “evoluir” de disquetes de 8 polegadas para cartões SD.

Algorithms Are Designed to Addict Us, and the Consequences Go Beyond Wasted Time: O algoritmo de recomendação do YouTube é notório pela forma obsessiva com que procura conteúdo que mantenha a nossa atenção, mesmo que para isso nos leve a extremos. Um algoritmo que não tem quaisquer finalidades ideológicas, o seu objetivo é o de nos manter no site o máximo de tempo possível. O problema é como o faz, sugerindo conteúdos cada vez mais extremos (porque é o clássico quanto maior o choque, maior o despertar da atenção). Notem que vídeos sobre terra plana nunca estão muito distantes dos sobre ciência séria, citando um exemplo. Se os começamos a ver, o algoritmo reforça o sistema e ainda nos dá sugestões ainda mais estreitas na visão. O verdadeiro problema está na forma como o consumo destes conteúdos vai mudar opiniões e pontos de vista, levar os utilizadores a acreditar no que é falso e treta, porque se viu um vídeo.

*Commercially available “science fiction novels” generated by…: Não, não é ainda ficção escrita por Inteligência Artificial, na verdade são mais daqueles textos que quase parecem fazer sentido, produzidos por algoritmos.

How Unity built the world’s most popular game engine: Um perfil do software que se tornou o motor de jogos mais usado do mundo, especialmente no campo do desenvolvimento para dispositivos móveis. Desconhecia que este sistema é europeu.

@BlackSalander: Atualizar a vassoura da bruxa para a era da robótica.

How IBM’s Technology Powered the Holocaust: A história em si não é novidade, embora seja pouco falada. Pudera, é uma enorme mancha no historial de uma empresa marcante em todas as épocas da história da computação. Mas o verdadeiramente importante na história da colaboração entre a divisão alemã da IBM e o regime nazi, mesmo durante a guerra, e com o beneplácito e complacência da casa-mãe americana, está nos paralelos com o nosso momento contemporâneo. Quando se sabe que a Google desenvolve sistemas de automação para militares, ou que o Facebook permite regularmente abuso dos dados dos seus utilizadores por empresas e governos, não estarão a fazer o mesmo que a IBM há oitenta anos?

The (Day)dream is over: Phone-based VR is well and truly dead: A história da Realidade Virtual é feita de altos e baixos, e muitos falsos começos. Há tempos, a tecnologia parecia mostrar que era possível usar dispositivos móveis para realidade virtual, e começou-se a desenvolver aplicações e tecnologias de base. Agora o hype desvaneceu-se, e começa o desinvestimento neste tipo de sistema.

Do Sistema da Modernidade

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Tim White: Claramente, esta semana o Capturas está em onda psicadélica.

Ways of Being: Por muito que isso provoque revolver de estômagos entre os mais conservadores, o espectro da sexualidade humana nunca foi binário, sempre foi fluido entre géneros balizantes. A natureza humana não se ajusta a visões preconceituosas.

Why mathematicians just can’t quit their blackboards: Entre o fluxo do pensamento, a matemática enquanto narrativa, e a graça da tradição. Há aqui quadros de giz que são verdadeiras obras, efémeras, de arte.

They’ve Rediscovered The Naughty Bits From Europe’s Most Famous Medieval Romance: Na verdade, nunca estiveram perdidos. Pode parecer chocante, mas as gentes da idade média não eram santinhas e gostavam tanto de malandrice como nós. A perda destes trechos tem a ver com os pruridos de tradutores e académicos, que se recusaram a incluir trechos mais, digamos, calorosos nas edições adaptadas deste clássico medievo.

Hitting the Books: Nero, fiddling from orbit as Earth burns: Hmmm. Mais um livro pós-apocalíptico sobre a extinção próxima da humanidade? Tédio é à primeira reação, mas depois de ler este excerto, foi direito para a minha lista de leituras prioritárias.

*Pro Chinese government memes on Hong Kong protests: Guerra de memes em Hong Kong, parte I: a defesa da pureza ideológica do regime.

*It’s getting worse: Guerra de memes em Hong Kong, parte II – estéticas da rebelião.

Parar, Pensar e Boicotar a China: Repitam comigo. A China é uma ditadura. Opressiva, mortífera, inclemente com a mera possibilidade de oposição. Geralmente ignoramos isso, entre a conveniência dos produtos low cost que a tornaram a fábrica do mundo e o soft power conseguido pelo forte investimento. Mas, entre a repressão de Hong Kong, as leis draconianas, os sistemas de crédito social, a aterrorizante hipervigilância pervasiva assente em visão computacional e inteligência artificial, e a repressão profunda a minorias étnicas, qual é, verdadeiramente, a diferença entre a China e os regimes odiosos que juntámos para nunca mais acontecer na Europa?

Qatar Is Air-Conditioning the Outdoors Because of Climate Change: Porquê? Porque com as verbas do fundo soberano, podem. E porquê? Porque as vagas de calor lá estão a começar a atingir rotineiramente temperaturas insuportáveis pelo homem. Fora das habitações, o Qatar começa a tornar-se inabitável, e não é um caso isolado. Toda a zona equatorial está a sentir os efeitos das alterações climáticas. E aqui, o aquecimento global traduz-se em fenómenos de calor além do extremo.

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Gerar monstros (ou será arte?) com Inteligência Artificial para pensar o futuro para lá do sonho

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.