Amadora BD
Detalhe de prancha de Batman.

De 24 de outubro a 3 de novembro, os caminhos da Banda Desenhada têm paragem obrigatória na Amadora. Nesta sua trigésima edição, o Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora oferece aos seus visitantes um programa recheado, entre exposições, sessões de autógrafos, presença de destacados autores nacionais e internacionais, e lançamento de livros.

Trinta Anos de Amadora BD 

Amadora BD

Trinta anos de festival é uma data redonda, daquelas que merece uma grande comemoração. No entanto, o evento optou por uma abordagem mais discreta, em modo back to basics. O foco do festival não está na sua longevidade, mas naquilo para que nasceu e que é o seu principal propósito: dar a conhecer a banda desenhada, aproximar criadores dos fãs e leitores. Tirando a área central, com uma muito discreta exposição que mostra trinta anos de cartazes do FIBDA, mal nos apercebemos que para lá de ser a grande festa da BD em Portugal, o festival também celebra uma data especial.

Há razões para este lado discreto. Os fãs sabem que 2019 é o ano da renovação do festival, depois de alguns anos de relativa decadência. Foi notório, nas suas últimas edições, um acomodar ao estatuto de maior evento do género em Portugal, um centramento temático nos gostos pessoais de alguns elementos da equipa organizativa, uma repetição estafada de um modelo de exposições que não refletia o interesse dos fãs nem a realidade editorial nacional, e uma desorganização que se revelava numa tradição do festival abrir com exposições por montar. Algo de incompreensível num evento de referência, financiado pelo município da Amadora com verbas com as quais mais nenhum evento geek português se atreve a sonhar. Talvez a Comic Con e a Iberanime se aproximem ou ultrapassem estes valores, mas estes são eventos comerciais privados, com bilhetes caros e espaços de exposição pagos, não de financiamento público como o FIBDA.

Amadora BD: Da Decadência À Renovação

Aquele momento que encantava gerações.

Se há trinta anos o FIBDA era o evento de referência da cultura geek portuguesa, isso mudou, felizmente, e para muito melhor. O lado pop comercial está representado pelas sucessivas edições do Iberanime, dedicado exclusivamente à cultura japonesa, e que se desdobra entre Lisboa e Porto, e a Comic-Con, que trouxe para cá a marca internacional e o estilo de evento. A BD de autor tem sido muito bem trabalhada com a curadoria impecável do Festival de BD de Beja. Outros eventos, mais transdisciplinares, são ponto de encontro de fãs e criadores. Há catorze anos que o Fórum Fantástico reúne as suas diferentes vertentes. Outros, promissores, estão a surgir, como o Festival Contacto. Há até eventos em hiato, que depois de várias edições estão em suspenso, mas esperando-se que regressem, caso do Sci-Fi Lx. Se são estes os mais notórios, por se passarem na zona de Lisboa, começam a espalhar-se pequenas iniciativas no interior do país. Essencialmente, o FIBDA deixou de ser o único ponto de encontro dos fãs nacionais.

De há uns anos para cá, visitar o FIBDA era aquele ritual amargo que se cumpria mais por obrigação do que por gosto. Não deixava de ter os seus pontos de interesse, mas o que ficava do festival era a sua desorganização, relativo desinteresse de exposições montadas mais para impacto visual do que apreciação da BD. Este ano, a equipe de gestão foi afastada, e a nova equipa parece focada em relançar o festival como evento de referência nacional e internacional. Pelo que nos pareceu da visita, estão no bom caminho.

Um Festival Renovado

Um toque de BD francófona com XIII.

Foco parece ser a atitude subjacente à edição deste ano. Ao entrar no festival, percebe-se que não há dispersão. Visitando as exposições, vê-se uma preocupação de trazer o inédito, mas também de agradar ao grande público e prestar atenção ao cada vez mais largo espectro de edição de BD em Portugal. As várias vertentes, entre a BD independente, a comercial, de autor e ilustração, estão bem representadas. Só nos géneros falha um pouco, com a eterna lacuna de não haver espaço para o mangá. Podemos visitar exposições dedicadas à BD francófona, à BD portuguesa e lusófona, aos comics e ao fumetti. Fica a faltar o género que cativou o público mais jovem, cuja ausência talvez não lhes dê grandes razões para vir ao festival (e, a longo prazo, assegurar a sua continuidade). 

Confuso entre BD, bande dessinée, comics, fumetti, HQ, mangá? Então, mas não é tudo a mesma coisa, histórias aos quadradinhos? Não, há diferenças técnicas, estilísticas, estruturais e de formato entre estas vertentes.

Foco Renovado

Detalhe da exposição sobre a obra de Stan Lee.

O grande foco do Festival são as exposições. É o que nos atrai, a oportunidade de contatar com os artefactos que lemos nos livros. É sempre um fascínio olhar para pranchas originais, perceber como a BD é concebida. E olhar para o real traço da mão do desenhador, que normalmente só vemos através da reprodução gráfica. É também um momento de descobrir o inesperado, de perceber como a obra de alguns autores marcantes evoluiu, muitas vezes com material raro. 

O número de exposições do Amadora BD é bastante grande, e recomenda-se uma visita com tempo. Tempo para apreciar o décor dos espaços, uma das peculiaridades giras do festival, mas essencialmente para saborear as pranchas em exposição. 

Destacar exposições vai obrigar a algumas injustiças. Visitámos, e apreciámos, todas, e a sensação global foi muito boa. Mas há aquelas que, pelo tema, autor, personagem ou grafismo nos tocaram mais. No entanto, salientamos a homogeneidade das exposições deste ano, todas com ponto de interesse, independentemente de se orientarem para públicos mais restritos ou generalistas.

As Exposições a Descobrir no Amadora BD

Amadora BD
Retrato de Stan Lee na exposição que lhe é dedicada.

Logo no primeiro andar do festival, estão as exposições de charneira. O destaque vai logo para a Stan Lee – Mito e Criações, que celebra o trabalho do mítico editor da Marvel. Comissariada por Mário Freitas, editor da Kingpin Books, a exposição surpreende por não nos dar o óbvio. A seleção mostra o trabalho de Lee quer como editor quer como argumentista, e traz-nos algumas pranchas inesperadas, como as dos comics românticos que a Marvel fazia antes do sucesso dos super-heróis, ou momentos marcantes, como as primeiras pranchas dos X-Men. A exposição foge a Spider Man, o que a torna muito interessante.

Ainda no mesmo espaço, podemos encontrar O Traço é o Caminho, uma retrospetiva do trabalho de Jorge Coelho. Comissariada por Pedro Moura, garanto que vão ficar de queixo caído com a espetacularidade do trabalho de um ilustrador que tem dado cartas no concorrido mundo editorial americano, entre a Marvel e as editoras independentes. Já Penim Loureiro mostra em Mare Clausum uma experiência inédita: adaptar banda desenhada a vasos de porcelana da Vista Alegre. Em evidência está o traço elegante deste autor, num espaço onde vemos o processo criativo do guião à aplicação sobre porcelana.

Um Mundo de BD a Descobrir

Espaços da exposição Sonho de Susa Monteiro

Na cave, destacamos a exposição Sonho de Susa Monteiro, um espaço deliberadamente onírico que dissolve as fronteiras entre ilustração e pintura, mostrando-nos a beleza do estilo gráfico da autora. Comix Street Journal mostra-nos a BD como arma de intervenção política e cultural, enquanto que o lado mais visceral da BD independente portuguesa está em destaque na exposição És meu amigo ou meu fã? comissariada por Marcos Farrajota.

Outros espaços imperdíveis são a exposição Dampyr Encontra Fernando Pessoa. Comissariada por João Lameiras, cria um belíssimo espaço cenográfico para se apreciar as pranchas originais do ilustrador Michele Cropera. Depois de Tex e Dylan Dog, Dampyr é o terceiro grande personagem de fumetti da Bonelli a ser editado por cá, e o desenhador tem presença marcada no festival. Andromeda ou o longo caminho para casa mostra o trabalho e inspirações de Zé Burnay, naquele que é o livro surpresa do festival deste ano, com um grafismo impressionante. E, claro, como este ano o lendário Batman comemora oitenta anos, tem direito a exposição comissariada por José Pedro Castelo-Branco, Andrew Farago e Joana Fernandes. Numa cenografia que nos remete à noite de Gotham City, mergulhamos em pranchas originais e fotogramas da série animada, comemorando a longevidade do Cavaleiro das Trevas.

Este ano, o Amadora BD é também um ano de elegias, recordando personalidades marcantes que já nos deixaram. A exposição sobre Stan Lee é um desses exemplos, mas os que se destacam são os espaços dedicados a Vasco Granja e a Geraldes Lino. O primeiro reúne artefactos pessoais que recordam aquele programador televisivo e amante de BD que influenciou gerações de crianças com os seus programas de desenhos animados, que nos traziam sempre o melhor da animação. Claro que o que todos queríamos era ver Tom and Jerry. Mas suspeito que aquelas experiências visuais do desenho animado checo, polaco e russo ficaram na memória de todos os que viam o sempre imperdível Vasco Granja Apresenta.

Já Geraldes Lino deixa uma marca sentimental muito forte em toda a comunidade da BD portuguesa. Este gigante teve um papel fundamental como fã e divulgador, conheceu e acarinhou praticamente todos os criadores contemporâneos portugueses. O seu recente falecimento deixou um enorme vazio. A exposição que lhe é dedicada traz-nos retratos da sua personalidade, feitos pelos artistas que frequentaram a tertúlia mensal que promoveu até ao final da sua vida.

Os Caminhos da BD Vão Dar À Amadora

Amadora BD
Cenografia da exposição sobre o livro infantil Capuchinho Vermelho, de Marjolaine Levy.

Mas não se fiem nestas escolhas. Muito ficou de fora num festival que se renovou, focando-se no essencial. Há ainda um grande programa de lançamento de livros e encontros com autores. O FIBDA, finalmente, ouviu as críticas dos fãs, autores e editores, e parece estar a responder à altura. Confesso que este ano, visitar o Amadora BD não me soube a obrigação.

Amadora BD 2019: Algumas Imagens

Comics românticos da Marvel pré-Spider Man.
Detalhe do trabalho gráfico de Dave McKean para Batman: Arkham Asylum.
Amadora BD
Detalhe de prancha de Batman.
Amadora BD
A primeira aparição de Batman.
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Do espólio de Vasco Granja, uma dedicatória de Hugo Pratt, autor de Corto Maltese.
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Prancha de Michele Cropera para Dampyr.
Amadora BD
Detalhe da exposição Dampyr encontra Fernando Pessoa.
Amadora BD
Trabalho gráfico de Andrómeda, de Zé Burnay.
Detalhe de Congo, de Henrique Gandum.
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Uma das inúmeras recordações de Geraldes Lino.
Amadora BD
BD de intervençãp, Comix Street Journal.
O trabalho independente da CCC.
Amadora BD
Detalhe de GRANDE: BD para Crianças, editado pela Polvo.
Guião de Penim Loureiro para o projeto Mare Clausum
Amadora BD
Banda desenhada em porcelana? E porque não?
Amadora BD
O traço fenomenal do desenhador português Jorge Coelho.

A visita ao espaço editorial é obrigatória, boa oportunidade de vir carregado de livros de BD portuguesa e internacional. Aqui, confesso que tive azar no dia em que pude visitar o FIBDA, porque as editoras que tinham os livros que queria mesmo trazer de lá – o novo número da revista H-alt, Andrómeda de Zé Burnay, e a antologia All Watched Over By Machines of Loving Grace da Chili Com Carne, estavam fechadas. É o que dá ir ao início da tarde de um dia de semana. Ah, e não resisto ao aviso ao leitor: se se aproximarem da Dr. Kartoon levando vestida uma t-shirt de Dylan Dog, é muito provável que uma amável jovem vos tente convencer a levar convosco as edições portuguesas deste personagem italiano. Eu, como já as tenho, desiludi-a.

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